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Entrevistas
Professor UA: António Vassalo Lourenço, Música, Departamento de Comunicação e Arte
Formação na UA: “qualidade e diversidade”
Vassalo Lourenço considera que o panorama da música evoluiu muito nos últimos anos em Portugal
Professor e diretor da licenciatura em Música no Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro (UA), maestro e diretor artístico da Orquestra Filarmonia das Beiras, António Vassalo Lourenço fez a sua formação pós-graduada no ensino superior dos Estados Unidos, algo raro na sua geração. Essa experiência e vivência foram, de algum modo, trazidas para a UA. O professor destaca a qualidade e diversidade da formação na UA e fala nas mudanças na formação musical em Portugal.

Como define um bom professor?

A resposta é muito parecida à que daria à pergunta “Como se define um bom maestro?”. Aliás, “maestro” é palavra italiana para professor. Os primeiros maestros eram os professores: ensinavam, compunham e ensaiavam com os alunos. Estas duas atividades estão próximas neste aspeto. Hoje, a função do maestro é diferente. Quando recebe os músicos já não precisa de os ensinar.

Não há modelo único de bom professor. Pode-se ser bom professor de muitas maneiras. Mas há aspetos essenciais que assentam em dois aspetos: ter conhecimento e saber transmitir esse conhecimento. Cruzei-me com professores que tinham um conhecimento vastíssimo, mas com quem aprendi pouco, porque lhes faltava a dimensão da transmissão do conhecimento. Ser-se-á tão melhor professor, tendo uma boa base de conhecimento, quanto melhor for a capacidade de transmitir esse conhecimento. Assumindo que qualquer professor tem uma boa base de conhecimento, os que os distingue é a capacidade de transmissão. E isto depende da relação que estabelecem com os alunos e da capacidade de captar a sua atenção – às vezes, é preciso descobrir qual a melhor forma de transmitir a certos alunos que estão, numa fase inicial, mais desinteressados em certas matérias que o professor considera importantes – e tem a ver com outra questão: o professor também aprende e deve mudar as suas estratégias de transmissão dos conhecimentos. Ensinar não é só transmitir conceitos, é também transmitir experiência e, no nosso caso, transmitir a forma como se interpreta a música e dar espaço para a interpretação do aluno.

O que mais o fascina no ensino?

Definitivamente o contacto com os alunos. Transmitir conhecimento, experiência, mas também aprender sempre muito com eles.

Que conselho, importante para a sua vida profissional, daria/dá aos alunos?

Estejam sempre preparados pois nunca saberemos quando chega uma oportunidade. O mais importante é sabermos que ela um dia chegará e, quando chegar, temos que estar preparados para a poder agarrar.

Houve alguma turma que mais o tivesse marcado? Porquê?

Não tenho ideia. Eu trabalho há mais de 20 anos com alunos de todo os níveis e, em cada ano, há sempre alguns alunos que se destacam, mas não consigo dizer que, neste ou naquele ano, os alunos foram melhores no geral do que noutros anos.

Ensino da música em Portugal mudou radicalmente

A sua formação pós-graduada, ao contrário do que aconteceu com a maioria dos maestros da sua geração, foi feita no ensino superior dos Estados Unidos. Trouxe essa experiência para a UA que é hoje uma mais-valia…

O que tentei trazer para a UA foram vivências, processos, a organização em função de determinados objetivos… Em diversos aspetos, acho que consegui. É óbvio que não sou o único docente do Departamento de Comunicação e Arte da UA com pós-graduação obtida no estrangeiro. Temos professores com experiências e vivências diferentes que aplicam, no seu dia-a-dia, as boas práticas que aprenderam.

Como qualifica a formação em música na UA?

É um ensino de muita qualidade. Temos oferta formativa em todos os instrumentos de orquestra, formação em música tradicional, no jazz, na direção, composição, em ensino de música e, ao nível do doutoramento, o leque ainda é mais abrangente. É um ensino que tenta equilibrar o necessário foco no instrumento, que os alunos têm de dominar ao mais alto nível, com o saber estar em palco, a participação num conjunto, a interpretação e expressividade, tudo isto acompanhado dos necessários conhecimentos teóricos. A formação assenta na dedicação e qualidade dos docentes, mas, também, no ambiente que se vive, com os alunos em intensa e permanente atividade – estágios, orquestras, recitais, palestras e conferências, várias delas com especialistas de relevo internacional… Ou seja, qualidade e diversidade.

Como vê o panorama atual da música em Portugal?

O ensino da música em Portugal mudou radicalmente nos últimos 30 anos. Surgiram escolas profissionais de música e o nível do ensino subiu. Atualmente, o nível é muito bom, há alunos com imenso talento… Mas há um problema: nunca tivemos, nem temos, muito emprego nesta área. Os nossos jovens têm de procurar oportunidades lá fora. Aliás, independentemente da formação que tenham tido no nosso país, é importante procurar outras experiências lá fora. Refiro-me ao ensino de música para futuros profissionais de música. Mas, ao nível da educação musical, o ensino de música para crianças, existe uma grande margem de progressão. A educação musical deveria ser extensiva a toda a criança desde o pré-escolar ao fim do segundo ciclo, já que desenvolve várias competências ao longo do crescimento. Deveria estar ao mesmo nível da progressão motora, do contacto com o desporto ou com as artes plásticas.

É casado com uma cantora lírica, também professora na UA, os dois são pais de cinco filhos, como tal não deverá ser fácil compatibilizar a vida familiar com vidas profissionais tão intensas…

Já foi mais difícil compatibilizar as nossas vidas profissionais com a familiar, porque os nossos filhos agora começam a ser mais crescidos… O mais velho não seguiu música, apesar de ter estudado piano até ao 5º grau (9º ano), porque preferiu a Informática – desde cedo, percebemos que ele tinha muita capacidade nesta área. Quanto aos outros quatro, um está num curso superior de Música, outro, no 12º ano, quer seguir Música. A única rapariga está no 10º ano, seguindo a área vocacional de Música. O mais novo, com 13 anos, sempre disse que queria seguir Música, mas ainda é muito cedo para decidir. Quando eram mais pequenos, com os nossos trabalhos à noite, não era fácil de gerir… Embora, em certos momentos, continue a haver alguma azáfama lá em casa.

António Vassalo Lourenço - perfil

Traço principal do seu carácter?

Perseverança (a que alguns chamarão teimosia).

Ocupação preferida nos tempos livres?

São muito poucos… talvez passear com a família.

O que não dispensa no dia-a-dia?

O café da manhã.

O desejo que ainda está por realizar?

São muitos...

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