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Entrevistas
Professora UA – Fátima Alves, Departamento de Ambiente e Ordenamento
Ao serviço do Ambiente a pensar no futuro do planeta
Fátima Lopes Alves
Fátima Alves é uma referência científica incontornável quando os temas são a gestão e o ordenamento das zonas costeiras e marinhas. Professora no Departamento de Ambiente e Ordenamento (DAO) da Universidade de Aveiro (UA), onde há 40 anos se começou pela primeira vez em Portugal a estudar e a investigar o Ambiente, adora ir à praia, gosta de sorrisos, não dispensa café e quer um dia ser voluntária numa missão internacional a uma zona atingida por um grande desastre natural.

Licenciada em Planeamento Regional e Urbano pela UA, onde realizou também o Doutoramento em Ciências Aplicadas ao Ambiente, Fátima Lopes Alves é também mestre em Planeamento e Projeto do Ambiente Urbano pela Universidade do Porto. É docente do DAO desde 2003.

Coordenadora, na UA, do Programa Doutoral Interuniversitário em Território, Riscos e Políticas Públicas, lecionando também nos Programas Doutorais em Ciências e Engenharia do Ambiente e no de Ciência, Tecnologia e Gestão do Mar (DO*MAR), Fátima Lopes participa ainda na lecionação da Licenciatura em Ciências do Mar, do Mestrado em Gestão e Políticas Ambientais e no Mestrado em Engenharia do Ambiente. Na última década tem lecionado em vários cursos internacionais sobre o tema do ordenamento do espaço marítimo e da gestão integrada das zonas costeiras.

Com mais de 25 anos de experiência profissional na UA, Fátima Lopes Alves especializou-se em Planeamento e Gestão Integrada das Zonas Costeiras e Marinhas, trabalhando nas áreas do Ordenamento e Gestão de Áreas Protegidas (terrestres e marinhas), Planeamento Estratégico, Avaliação e Gestão de Riscos Naturais, Alterações Climáticas e Ordenamento do Território. Participou em diversos projetos de investigação de cariz nacional (FCT) e internacional (EU LIFE, FP7, INTERREG, H2020, DG MARE) com destaque para os projetos TPEA (Transboundary Planning in the European Atlantic) e SIMNORAT (Supporting Implementation of Maritime Spatial Planning in the Northern European Atlantic), ambos financiados pela DG MARE, no âmbito da implementação das Diretivas do Ordenamento do Espaço Marítimo e Estratégia Marinha.

Foi membro da equipa de coordenação do Plano de Ordenamento do Espaço Marítimo Nacional (POEM), de vários dos Planos de Ordenamento da Orla Costeira (POOC) em Portugal Continental, bem como das ilhas dos Açores. Avaliadora internacional de projetos de investigação no Programa EU BONNUS é, atualmente, perita internacional em projetos de Gestão das Áreas Marinhas Protegidas no espaço Atlântico (DG ENV) e de Ordenamento do Espaço Marítimo para a Comissão da Corrente de Benguela (Angola, Namíbia e África do Sul).

Qual é o segredo para se ser bom professor?

Não creio que haja uma definição científica e/ou segredo para se ser “bom” professor. Acredito que as experiências de cada um de nós na sua vida de estudante e de docente nos permite ter a “nossa” visão de “bom” professor. Da minha experiência pessoal como estudante, e porque tive excecionais professores na minha formação académica, posso afirmar que um bom professor é aquele que motiva na aprendizagem, que partilha conhecimento e experiências, que consegue transmitir aos seus estudantes os conceitos científicos e técnicos e a sua aplicabilidade no mundo real. Poderá ser aquele que possuiu capacidade em tornar o difícil e abstrato no fácil e concreto, se possível no real. Este é o sentimento que levo para dentro da sala de aula. Sempre, que posso, procuro aliar a componente teórica com a sua aplicação prática no dia a dia dos estudantes, nas suas vivências e relações com a sociedade e território onde se inserem.

O que mais a fascina no ensino?

Fascina-me o contato com os estudantes em ambientes informais e inovadores de aprendizagem. Atualmente, podemos proporcionar aos estudantes ambientes de aprendizagem mais descontraídos de encontro e debate de ideias e pensamentos, mais inovadores e dinâmicos.

É fácil criar esses ambientes?

Reconheço que nem sempre é fácil criar este tipo de ambiente de aprendizagem nas unidades curriculares. Contudo, e porque atualmente uma parte considerável da minha componente letiva é dedicada a programas doutorais da UA tenho tido a oportunidade de proporcionar momentos diferentes, de grande informalidade, mais abertos de reflexão, discussão de pensamento e conhecimento científico, aliada à partilha de experiências concretas individuais com os estudantes do 3º ciclo. O contexto de aprendizagem dos estudantes do 3º ciclo é uma realidade distinta, com um grau de maturidade científica e investigacional mais avançada e já mais apurada.

Finalmente, o fascínio como docente é ainda maior quando os nossos estudantes passam a ser nossos colegas e os encontramos diariamente, nas mais variadas funções, em desempenhos excelentes com elevado reconhecimento por parte de quem com eles trabalha.

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes nos cursos a que está ligada?

A formação da UA é excelente e muito reconhecida na minha atividade profissional. A formação dada no Mestrado em Engenharia do Ambiente, em particular, e dos diversos cursos em que leciono e no qual o DAO tem responsabilidades, tem dado provas inequívocas de que o Departamento e a UA têm sabido adaptar-se e conseguido inovar, respondendo pró-ativamente às exigências atuais do mundo laboral em permanente mudança. Pese embora os resultados de empregabilidade nem sempre sejam visíveis no curto e médio prazo, são crescentes as necessidades e a capacidade das instituições e empresas em absorver os nossos estudantes, observando-se atualmente uma oferta significativa de empregos na área das Ciências e Tecnologias do Ambiente.

Nesse sentido, que ferramentas dispõe o DAO para os seus estudantes?

O DAO tem competências únicas no panorama nacional e na UA ao combinar o ensino das ciências e engenharia do ambiente com o do planeamento, ordenamento e gestão do território. A problemática do “Ambiente” não pode ser dissociada destas temáticas. Toda atividade do Homem tem impacto no território – saber diagnosticar a sua existência, avaliar a sua intervenção e interação, propor soluções de melhoria e de inovação ambiental e territorial, são os desafios para os quais preparamos solidamente os Mestres em Engenharia do Ambiente da UA a responder.

Frequentemente, encontro antigos estudantes do DAO em diversas instituições, organizações, empresas, academias, gabinetes profissionais, em território nacional e estrangeiro. Hoje em dia, encontro muitos dos nossos estudantes como colegas, em reuniões de trabalho, congressos nacionais e internacionais e é com enorme satisfação e muito orgulho que vejo as suas qualificações serem reconhecidas e elogiadas por todos com quem estabelecem relações profissionais. Este reconhecimento é, atualmente, fundamental para eles no mercado de trabalho, mais exigente e competitivo, mas também para mim – como docente, face aos desafios atuais que se colocam aos docentes, de constante atualização, construção de inovação, dinamismo permanente e abertura total às diversas solicitações da sociedade e das instituições.

Que grande conselho dá aos seus alunos?

Que aproveitem bem o tempo que passam na Academia e tudo o que esta lhes oferece. Nos dias de hoje, as universidades, em geral, e a UA, em particular, oferecem aos estudantes inúmeras oportunidades de enriquecimento académico, profissional e pessoal. Por norma, digo-lhes que todos os dias se aprende algo, mas, para que isso aconteça é necessário estar-se recetivo e atento – nas aulas e fora delas. Incentivo-os a serem pró-ativos no dia a dia, dentro e fora da academia e, é claro, por experiência própria que aproveitem as oportunidades de internacionalização que a UA lhes oferece.

Houve alguma turma que mais a tivesse marcado? Porquê?

É uma questão difícil para a qual não vejo resposta fácil nem direta. Há uns anos, no âmbito de uma unidade curricular que leciono ao 1º ciclo no 2º semestre, a turma era toda ela muito participativa e interessada nas matérias lecionadas tendo obtido excelentes resultados nas avaliações. Até aqui tudo pode parecer normal. Contudo, um dia em setembro, de volta ao Campus após um verão quente de férias, qual não foi o meu espanto quando vi um grupo de estudantes dirigirem-se a mim, com um grande sorriso na face, dizendo-me que se tinham lembrado das minhas aulas durante as suas férias na praia. Ri abertamente e ficamos a conversar sobre o que se tinha passado. As praias como locais privilegiados de recreio e lazer, passaram a ser vistos, por eles, também com um olhar agora técnico e de futuros profissionais tendo as matérias lecionadas por mim sido tema de conversa nos grupos de amigos, ali mesmo…nas suas praias. Não pude deixar de sorrir e dizer-lhes que com estas palavras tinha ‘ganho o dia’. Continuei o meu caminho, eles o deles e pensei – dever cumprido!

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula ou com estudantes?

Alguns, mas escolho para hoje uma situação muito agradável que se no ano que terminou em junho passado, com a turma do Programa Doutoral Interuniversitário em Território, Riscos e Políticas Públicas de que sou docente e coordenadora na UA.

Os dias de aulas são às sextas feiras e, por vezes, aos sábados durante sete horas seguidas! O ano que transato iniciei o módulo de que sou responsável, em outubro. A turma era composta por doze alunos, com diferentes nacionalidades (Portugal, Angola, Moçambique e Brasil) muitos deles recentemente chegados à UA, não conhecendo a nossa região. O dia estava fantástico, morno, uma luz sobre o Campus da UA e Ria de Aveiro extraordinária…estarmos fechados numa sala de aula ia ser penoso…(pensei!) – as próximas horas iam ser muito difíceis para todos!

A matéria escolhida para lecionar nesse dia era sobre os riscos naturais e tecnológicos na Ria de Aveiro e zona costeira adjacente – riscos e oportunidades de um território complexo e diversificado. Entrámos na sala de aula, iniciei os primeiros slides e, às primeiras questões colocadas pelos estudantes, deparei-me com uma excelente oportunidade de dar a aula no ‘laboratório vivo’ que é a zona costeira e lagunar da Ria de Aveiro.

Fiz-lhes a pergunta que me pareceu óbvia - aula de campo? Aceite por todos na hora! Distribuímo-nos pelos carros disponíveis e o que se seguiu foram sete horas consecutivas de aula prática, dinâmica, interativa, em plena integração com o meio ambiente, social e económico - percorrendo grande parte da laguna e orla costeira adjacente-, visualizando toda a matéria in locco.

No final do dia o resultado estava à vista de todos nós – matéria dada, boa disposição, o tempo tinha passado sem darmos por ele. Uma aula fantástica que ficou na memória de todos nós.

descrição para leitores de ecrã
Fátima Alves não tem dúvidas: “A formação da UA é excelente e muito reconhecida na minha atividade profissional”.

Traço principal do seu carácter

Não desisto facilmente, persistente, lutadora e…há quem diga - teimosa.

Ocupação preferida nos tempos livres

Uma boa conversa com amigos, praia…e mais praia!

O que não dispensa no dia-a-dia

Café…, sorrisos e mais sorrisos!

O desejo que ainda está por realizar

Participar numa missão internacional de voluntariado pós-desastre. A minha área profissional tem uma procura muito significativa internacional, ao nível do planeamento e ordenamento do território e, naturalmente, as zonas atingidas por grandes desastres naturais (tsunamis e sismos), têm de iniciar um processo intenso e complexo de reorganização e reconstrução territorial e social que me fascina muito pelo desafio pessoal e profissional que deve ser.

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