conteúdos
links
tags
Opinião
Texto de opinião de Tito Trindade, diretor do Departamento de Química
"A nossa casa comum é demasiado importante para deixar a Ciência de fora"
Tito Trindade é o novo diretor do Departamento de Química
"Seria desejável que 2018 fosse um ano de reflexão no modo como proporcionamos formação científica aos nossos concidadãos, procurando conciliar o ato de criar saber com saber fazer, que cada vez mais significa conhecer e aprender com a Natureza". Tito Trindade, diretor do Departamento de Química da Universidade de Aveiro, enumera alguns desafios da Ciência para 2018.

Vivemos uma época em que a ação do Homem sobre os ciclos naturais é cada vez mais evidente. Os alertas frequentes por parte da comunidade científica sobre os efeitos da atividade humana nas alterações climáticas não podem ser camuflados. Por exemplo, o aumento na atmosfera, da quantidade de gases causadores do efeito de estufa é inegável, tendo este efeito origem predominantemente antropogénica. Nunca antes houve uma perceção tão generalizada que algo está a mudar no clima, com consequências dramáticas evidentes na vida das populações e nos ecossistemas. Assim, este texto de opinião espelha uma visão pessoal de um académico, embora num enquadramento multifacetado e globalizado. Trata-se de um assunto que a todos diz respeito, não conhece fronteiras, exige ação imediata por parte de lideranças e também o exercício individual de práticas que vão para além do discurso apaziguador.

Os cientistas são atores especialmente vocacionados nesta ação coletiva, pedagógica, inovadora na utilização do conhecimento e, convém recordar, na recusa de aceitar que ao progresso científico-tecnológico se oponham práticas obscurantistas, que facilmente germinam quer pela diabolização da Ciência quer pela sua falsificação. As ciências e tecnologias de base Química e Bioquímica surgem neste contexto como especialmente relevantes no reforço de paradigmas que aliam ao progresso tecnológico sustentável, a evolução social e bem-estar de populações. Trata-se de reconhecer, primeiramente, que este tipo de conhecimento científico é parte integrante da solução e não do problema. Os desafios que são colocados nos dias de hoje ao nível de processos de fabrico e produção de bens, práticas inovadoras de diagnóstico-terapêutica na Medicina, tecnologias limpas para produção de energia, entre outros, passam em grande medida pela utilização desse conhecimento.

As ciências de base suportam cenários tecnológicos inovadores criados por desenvolvimentos verificados recentemente, por exemplo, na Biotecnologia e Nanotecnologia, e que devem ser sustentáveis a longo prazo. Por outro lado, é importante reconhecer o papel insubstituível da indústria química baseada em processos ditos convencionais, cuja capacidade produtiva, adaptação e evolução, depende de uma aposta continuada na formação de profissionais qualificados, bem como na investigação fundamental e aplicada, nas áreas que lhes estão subjacentes. O conhecimento que permite perceber as causas e propor eventuais soluções para problemas ambientais causados pelo Homem, passa necessariamente pela investigação e formação nas ciências de base. Assim, a aposta na formação académica, dirigida a diferentes públicos e gerações, nunca fez tanto sentido como nos dias de hoje.

O ano de 2018, como período delimitado no calendário gregoriano, não constituirá por si só o momento de uma transformação que necessariamente levará décadas e dependerá de muitas outras ações que ultrapassam a comunidade científica. Contudo, poderia ser um ano simbólico, pelo reconhecimento de direitos e deveres que são de todos, sobretudo na exigência de ações imediatas que garantam um planeta mais saudável para as gerações que nos sucedem. Cientistas e académicos, em geral, terão uma responsabilidade acrescida, que será tanto maior quanto mais veemente for a negação da evidência científica ou a tentação de enveredar pela distinção apriorística do bom e mau conhecimento científico, consoante a bandeira que se pretenda agitar.

Os últimos anos foram marcados por acontecimentos que nos questionam se estaremos a ser bem-sucedidos no reconhecimento que é devido à formação científica, como parte integrante de uma cidadania esclarecida. Também por estas razões, seria desejável que 2018 fosse um ano de reflexão no modo como proporcionamos formação científica aos nossos concidadãos, procurando conciliar o ato de criar saber com saber fazer, que cada vez mais significa conhecer e aprender com a Natureza. A nossa casa comum é demasiado importante para deixar a Ciência de fora.

Tito Trindade,

Diretor do Departamento de Química da UA

imprimir
tags
outras notícias