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Entrevistas
Antigo aluno UA - Vitor Marques, licenciado em Engenharia de Materiais
A mão tecnológica que dá segurança à aviação
Vitor Marques
Da próxima vez que entrar num avião lembre-se que, do cockpit à cauda, grande parte da tecnologia que o vai manter em segurança e levar tranquilamente ao destino terá, provavelmente, a mão de Vitor Marques. Licenciado em Engenharia de Materiais pela Universidade de Aveiro, Vitor Marques é um dos pontas de lança da Honeywell Aerospace, a multinacional que hoje sonha, desenvolve e testa a tecnologia aeronáutica que no futuro o levará de férias (quem sabe!) até Marte.

Terminou a Licenciatura em Engenharia de Materiais [atual Mestrado Integrado em Engenharia de Materiais] em 2003. Nesse ano, e ao abrigo do programa Erasmus, estudou na Universidade de Bolonha, em Itália.

Rumou depois para a Universidade de Oxford (Inglaterra) onde fez o Doutoramento em Engenharia de Materiais em parceria com a Rolls Royce e GE Aviation, foi investigador visitante no Fraunhofer-IZM (Alemanha) e cofundou a Associação de Investigadores Portugueses no Reino Unido (PARSUK). Depois de terminar o Doutoramento mudou-se para Cambrigde onde foi líder de projetos no departamento de materiais avançados no The Welding Institute. Durante esta experiência continuou a trabalhar com os parceiros do doutoramento na área de micro-tecnologia para aplicações de alta performance mas também com a BAE Systems e Rolls Royce Submarines na área de ligação de materiais.

Em 2012, aceitou o desafio da Honda R&D, onde entre o Japão e a Inglaterra, liderou uma equipa multidisciplinar apostada em adaptar a cultura de Research and Develpment (R&D) daquela multinacional à cultura de R&D europeia. Durante este tempo, foi o responsável europeu pelo mapeamento de novos materiais aplicados ao chassis e pela introdução destes em veículos protótipo de referência no sector, tais como o Civic Type R 2015.

Atualmente, aos 39 anos, é o gestor de programas R&D na Honeywell Aerospace, em Inglaterra, sendo também responsável por desenvolver relações com universidades e pelo alinhamento de estratégias de R&D com organizações governamentais, tais como o Instituto Aerospacial de Inglaterra e o Innovate UK. Alinhado com as suas funções, Vitor finalizou recentemente um programa de estudos na Standford Business School nos Estados Unidos focado em “Corporate Innovation”.

Quais os motivos que o levaram a estudar na UA?

Em 1996, sendo natural da zona de Santarém, Lisboa parecia ser a escolha natural para seguir os estudos. No entanto, uma amiga falou-me do campus da UA, de como estava organizado, da sua rápida expansão e de quanto perto estava da praia...  Os meus pais trabalhavam em Lisboa, o que me dava uma noção de como era o dia-a-dia na capital e da sua dependência de transportes públicos. Assim sendo, Aveiro pareceu-me ser a melhor escolha por tudo aquilo que um campus universitário plantado à beira mar oferece. 

O curso correspondeu às suas expectativas? E a UA?

Nos primeiros dois anos do curso, senti que era muito focado em Cerâmica, o que era natural pois era lecionado pelo então Departamento de Engenharia Cerâmica e do Vidro. Entretanto, nos últimos dois anos, o curso tornou-se mais abrangente gerando as ferramentas necessárias para os alunos envergarem por diferentes áreas. De uma forma geral acho que a UA oferece uma formação e experiência universitária muito acima da média portuguesa, em muito devido ao bom balanço entre a investigação puramente académica e a investigação aplicada. O reconhecimento do trabalho académico desenvolvido na UA tem vindo a aumentar. Prova disso são os resultados obtidos nos rankings internacionais, especialmente daqueles que se focam na análise dos resultados de instituições académicas com menos de 100 anos. Entretanto, no mês passado, participei num painel que se encontra anualmente para discutir futuras tecnologias de produção aplicadas à indústria aeroespacial. Neste painel uma das tecnologias mencionadas como de potencial interesse foi introduzida através de vídeo da autoria do Departamento de Engenharia Mecânica da UA, o que me fez sentir que a Universidade está atenta às necessidades das indústrias de alto valor.

 O que mais o marcou na UA?

Foram várias as situações e as pessoas que me marcaram na UA. No entanto, assumo que experienciei momentos repletos de magia, luz e cor enquanto membro da Magna Tuna Cartola.

Sempre soube a profissão que queria seguir?

Sempre tive um interesse especial por tecnologias que são consideradas safety/critical e que operam em ambientes exigentes. Desta forma, enquanto aluno da UA, o interesse por materiais de alta performance começou a solidificar-se, o que me levou a fazer o doutoramento na área de fiabilidade de microelectrónica para tecnologia aeroespacial.

Como descreve a sua atividade profissional?

Grande parte da minha atividade profissional está focada no mapeamento de tecnologias embrionárias no Reino Unido relacionadas com sistemas de pressurização para aviação comercial ou com os sistemas que possibilitam os pilotos dos jatos militares a executarem manobras de 9G e a voarem a 16 quilómetros de altitude, tais como o F22, o F35 e o Eurofigther. Desta forma, o meu dia-a-dia acaba por ser bastante diversificado.

Para termos uma ideia dessa diversidade, como foi hoje o seu dia de trabalho?

Hoje pela manhã, por exemplo, estive a promover um projeto relacionado com o impressão  3D de metais, o qual acabará por ser testado na mesma câmara onde o sistema de pressurização do Concorde foi qualificada; pela tarde discuti com parceiros externos um dos projetos que lidero relacionado com novas tecnologias para sistemas de controlo ambiental e pressurização para aviação civil, o qual está alinhado com a integração de sistemas da Honeywell em futuras inovações incrementais do Airbus A350 XWB.

O que mais o fascina na sua atividade profissional?

Muita da tecnologia com a qual trabalho tem impacto na performance cognitiva e fisiológica dos humanos, pilotos e passageiros. Desta forma contacto periodicamente com experts em temas relacionados medicina aeroespacial, inclusivamente hipoxia, o que acaba por ser uma experiência bastante imersiva, especialmente porque a qualificação e certificação destas envolve humanos.  Além do mais, trabalhar numa organização aeroespacial global e ter a oportunidade de promover e desenvolver projetos de R&D em parceria com a academia e os clientes dá-me a oportunidade de conhecer pessoas fascinantes e de participar em projetos únicos que faziam parte do meu imaginário enquanto estudante, além de me equipar com uma visão bastante compreensiva do presente e futuro do sector aeroespacial civil e militar.

Que competências adquiridas na UA entende terem sido fundamentais para o exercício da sua atual atividade?

Como seria de esperar o sector aeroespacial, especialmente o militar, é muito adverso à mudança. Desta forma, além de competências técnicas, promover novas tecnologias neste sector exige tenacidade, capacidade de partilhar uma visão com os diferentes intervenientes e, por fim, capacidade de execução. Penso que as qualidades anteriormente referidas estão no DNA da UA, sendo esta o resultado de pessoas que acreditaram que era possível criar uma universidade de excelência longe dos centros de decisão nacional. Certamente, esta visão apenas pode ter sido executada quando cultura, valores e pessoas são abundantes na qualidade necessária. Gerar uma ideia é fácil, difícil é acreditar nela, executá-la e torná-la num modelo a seguir enfrentando todas as barreiras que possam surgir...que imagino que não foram poucas.  

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