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Opinião
Anabela Botelho, professora da UA, comenta atribuição do Nobel da Economia
“Em Economia nada se esquece, nada se substitui, tudo se complementa”
Anabela Botelho
Volvidos 15 anos após a atribuição do prémio a Vernon Smith (tido como “pai” da Economia Experimental) e ao seu amigo Daniel Kahneman (psicólogo que integrou conhecimentos da psicologia na tomada de decisão económica), o prémio de Ciências Económicas em memória de Alfred Nobel foi este ano atribuído a Richard H. Thaler pelas suas contribuições para a Economia Comportamental. Sinto-me particularmente feliz pela atribuição deste prémio à “Economia Comportamental”.

Thaler é natural de New Jersey (1945), Mestre (1970) e Doutor (1974) pela University of Rochester (NY) com tese intitulada “The Value of Saving A Life: A Market Estimate” e, desde 1995, professor da University of Chicago Booth School of Business, Illinois, onde ensina e investiga sobre economia e finanças comportamentais, bem como as implicações de política de aspectos de comportamento humano tradicionalmente considerados como (em média) irrelevantes para o funcionamento/resultados dos mercados.

A investigação de Thaler tornou-se particularmente visível no seio da Economia através da publicação regular, entre 1987 e 1990, de uma coluna no Journal of Economic Perspectives apelidada de “Anomalias” onde documentava aspectos de comportamento económico individual discordantes do esperado pelo “homo economicus” (agente absolutamente racional e consistente que maximiza de forma óptima os seus próprios interesses) subjacente à construção da (actual) teoria económica, de que o Comité Sueco destaca três com impactos sistemáticos ao nível de mercados, incluindo os financeiros: (i) racionalidade limitada (com teorias de “mental accounting” e “endowment effect”), explicando nomeadamente porquê que os agentes económicos requerem mais dinheiro para vender um bem que possuem do que o dinheiro que estão dispostos a pagar para comprar o mesmo bem; (ii) preferências sociais, explicando que considerações de “justiça” (e não apenas considerações monetárias individuais), por exemplo, são argumentos importantes das funções utilidade dos consumidores susceptíveis de influenciar o comportamento das firmas em diversos mercados, bem como os resultados experimentais que se têm observado no designado “jogo do ditador” (que, em rigor, não é um jogo) em que os agentes económicos não se apropriam de todo o valor que lhes é dado, deixando algo para um anónimo outrem; e, (iii) falta de auto-controlo, explicando (em função de tentações de curto prazo) porquê que os nossos planos de poupança para o futuro ou planos de vida mais saudáveis frequentemente não se concretizam.

Com a publicação do livro Nudge (2008, em co-autoria com Cass Sunstein), o trabalho de Thaler chega a um público mais generalizado, nomeadamente decisores de política/governos. Incorporando os aspectos de comportamento económico acima sumariados, Thaler argumenta que “sugestões”, “recomendações”, “indicações”, que não alterariam o comportamento do “homo economicus”, são pelo menos tão eficazes quanto incentivos económicos e/ou leis na mudança, “para melhor”, do comportamento dos agentes económicos, assunto que, no entanto, permanece controverso entre académicos de diversas áreas, como a economia e a psicologia.

Feliz pela atribuição deste prémio

Independentemente das minhas próprias considerações sobre os méritos e eficácia de “nudging”, sinto-me particularmente feliz pela atribuição deste prémio à “Economia Comportamental” nomeadamente porque me permite, enquanto pioneira na introdução da investigação e ensino (nos três ciclos de estudo) da Economia Experimental na academia portuguesa, aproveitar este espaço público para responder sumariamente a duas questões que insistentemente são levantadas um pouco por toda a parte: (1) É a Economia uma Ciência Experimental?; (2) Comportamental e Experimental são termos distintos com o mesmo significado na Ciência Económica?

A resposta à 1ª questão é SIM. A teoria económica atingiu um estado de maturidade e de sofisticação analítica que não só se presta naturalmente à investigação experimental como também, em muitas situações, a exige, tendo sido desenvolvido no seio da ciência económica um conjunto de procedimentos experimentais cuja validade foi categoricamente atestada em 2002 com a atribuição do prémio nobel da economia a Vernon Smith.

A resposta à 2ª questão é NÃO. Comportamental e Experimental não significam o mesmo. A Economia Experimental refere-se a um método de recolha de dados em situações (económicas) laboratoriais controladas, cuja aplicação tem dado importantes contributos à ciência económica (recorde-se que, além de Vernon Smith, pelo menos três outros laureados com o prémio nobel da economia usaram a metodologia da economia experimental na sua investigação: Reinhard Selten (1994), Elinor Ostrom (2009) e Alvin Roth (2012)). A Economia Comportamental refere-se à visão de que as hipóteses relativas ao “homo economicus” são demasiado simplistas e que o poder explicativo da teoria económica (e das suas prescrições de política) beneficia da introdução de hipóteses “mais realistas” sobre o comportamento humano provenientes de outras ciências como a sociologia, a antropologia e, particularmente, a psicologia.

No entanto, claramente não significando o mesmo, a Economia Experimental e Comportamental são agora por vezes “apresentadas” em conjunto, desde logo porque o ímpeto inicial para a economia comportamental adveio de “anomalias” documentadas em experiências em economia cuidadosamente desenhadas e implementadas sob a égide do “homo economicus”, e depois porque essas “anomalias” podem contribuir para a construção de teorias ou modelos económicos enraizados nas hipóteses aportadas pela economia comportamental e, eventualmente, susceptíveis de teste experimental.

E são nomeadamente estas considerações que dão corpo ao que frequentemente digo aos meus estudantes: “Na teoria e nos métodos da ciência económica nada se esquece, nada se substitui, tudo se complementa”, e são também elas que originaram o BELEM@UA (Behavioural and Experimental Lab in Economics and Management - http://www.ua.pt/degeit/belem/page/22018?ref=ID0EGCA), o primeiro e até agora único laboratório desta natureza criado em Portugal.

 

Anabela Botelho

Professora Catedrática de Economia do Departamento de Economia, Gestão, Engenharia Industrial e Turismo (DEGEIT)

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