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Entrevistas
Luís Clara Gomes, Moullinex, antigo aluno da UA, atuou em Aveiro
“Não estejas à espera. Já tens tudo o que precisas para conseguires fazer o que sonhas”
Luis Clara Gomes, Moullinex, atua dia 12 em Aveiro (foto de Nash Does Work)
Concluiu Engenharia de Computadores e Telemática (ECT) na Universidade de Aveiro (UA), foi investigador na área da neurologia e astronomia e iniciou mesmo um doutoramento na Universidade de Munique. Luis Clara Gomes podia ter continuado investigador. Mas o gosto pela música, ou seja, a faceta Moullinex, foi mais forte e, perante as crescentes solicitações, deixou o doutoramento para trás. Considera que faz parte de uma geração privilegiada, porque mais escolarizada e preparada em áreas diversas. A quem sonha e ainda não concretizou, aconselha: “Não esteja à espera. Já tens tudo o que precisas para conseguires fazer o que sonhas”.

Luis Clara Gomes, 33 anos, natural de Viseu, é um dos rostos de uma nova geração de elogiados e divulgados músicos e editores portugueses, atividade esta que partilha com Bruno Cardoso (Xonobi) sob a designação Discotexas. Os dois, Moullinex e Xinobi, atuaram no programa Hug, a 12 de outubro, no campus da UA.

Fez o curso de ECT na UA e foi investigador em neurologia e astronomia. Vai voltar, como Moullinex (com Xinobi), no dia 12 de outubro, para um concerto do programa de integração de novos alunos, o Hug, promovido pela AAUAv. Qual a sensação de voltar à Universidade de Aveiro?

Já voltei várias vezes, tanto "à civil" como para tocar em Aveiro e é sempre um prazer gigante. Tenho, em primeiro, muitas saudades dos anos que passei na universidade e na cidade, da qualidade de vida que nelas tinha, e dos tempos passados com amigos que ficaram para a vida. Em segundo, sempre que regresso sinto um carinho enorme dos estudantes da Universidade, sobretudo os de ECT, que acompanham o meu trabalho com muito orgulho.

Que memória ficou dos tempos de estudante da UA? Algum professor/professores ou colega/colegas terão ficado na memória?

Muitos. Mas talvez o professor que me marcou mais tenha sido o João Paulo Cunha. Na altura de escolher um projeto final de curso, foi a quem propus o tema de "Brain-computer-interfaces", e foi graças ao trabalho no SIAS/IEETA que fui convidado para iniciar um doutoramento na Universidade de Munique, doutoramento que, entretanto, infelizmente, tive que abandonar devido ao trabalho como músico ser cada vez mais.

O que o fez vir estudar para a UA?

Um ex-aluno! O João Girão (que entrou na UA no primeiro ano de existência do curso de ECT) era meu vizinho e amigo em Viseu, e foi uma espécie de mentor no que ao coding, networking e segurança diz respeito. Agradava-me muito a perspetiva de uma engenharia com background de ciências de computação, mas com uma grande incidência nas redes, uma herança histórica do DET (atual Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática, DETI).

A formação na UA terá contribuído, de alguma forma, para a sua atividade atual como músico (Moullinex) e editor (Discotexas)?

Gosto de pensar que os engenheiros e os artistas têm muitos paralelos na sua forma de ver o mundo. São curiosos ao ponto do fascínio infantil, gostam de desafios e procuram encontrar a solução melhor para utilizar os recursos que têm. Em muitas áreas do meu trabalho gosto de pensar como um engenheiro, e gosto do desafio de superar uma série de limitações técnicas. E depois há a vantagem de ser programador, o que me permite desenvolver algumas ferramentas mais diretas na minha atividade, desde sintetizadores a sistemas audivisuais para utilizar ao vivo. Já para não falar de tudo o que é presença digital da nossa editora. Sempre que não estou a fazer música estou com as mãos na massa em algo bem nerd!

Qual foi o click que o fez optar pela música e deixar a investigação no Observatório Europeu do Sul (ESO, em inglês)? Apenas a vontade de se dedicar a tempo inteiro ao qual já se dedicava a tempo parcial? Gosto pela aventura?

Não houve click, foi um fade / passagem suave! Quando abandonei o doutoramento na área da biomedicina, entrei para o ESO em regime de part-time. Permitia-me ter mais tempo para trabalhar na minha música e sair frequentemente para atuações, ao mesmo tempo que a investigação me estimulava muito e dela não abdicaria enquanto pudesse. Depois de voltar para Portugal, há sete anos, continuei no mesmo regime mas à distância, até que o trabalho na música se tornou cada vez mais exigente. Aí, foi necessário optar pela maior das duas paixões.

Sendo músico, produtor e editor, como vê o panorama atual da música dita “pop” feita em Portugal? Nos últimos 10 anos parece ter havido uma evolução grande na diversidade e qualidade das propostas e também na visibilidade que estas propostas têm no exterior - para a qual a Discotexas tem contribuído… Concorda?

Concordo que o panorama tenha mudado muito, não graças a apoios mas apesar da sua falta. Imagino o que seria este boom criativo que estamos a experienciar se houvesse um investimento no apoio aos artistas como há, por exemplo, nos países escandinavos.

Creio que a minha geração é privilegiada no sentido em que tivemos uma educação que nos deu muitas capacidades em áreas diversas. A democratização das ferramentas para criar, distribuir e divulgar música (ou qualquer outra atividade artística), aliada à capacidade de as dominar, resultou nesta verdadeira explosão criativa. Hoje, sermos músicos implica, muitas vezes, sermos produtores, managers, designers, social media managers, etc etc etc.

Divide a sua atividade entre Portugal (Lisboa) e a Alemanha. Numa entrevista, falou nas diferentes condições de apoio que existem (ou não existem), por exemplo, às editoras nos dois países. Pode, algum dia, Portugal ter algumas dessas condições? Como e o que falta?

Falta visão. O resultado do investimento do governo na música na Suécia, por exemplo, é bem visível no seu PIB, isto se quisermos um argumento económico. Porque, para mim, só damos o passo seguinte como sociedade quando a cultura deixar de ser considerada um luxo. Não creio que sejamos um país incrível se a economia estiver boa e se as pessoas forem infelizes!...

Que conselhos daria a jovens estudantes que sonham com uma atividade a tempo inteiro na música, como músicos ou na atividade editorial, por exemplo?

Acho que vou repetir o que me disseram um dia: “Não estejas à espera de nada. Já tens tudo o que precisas para conseguir fazer o que sonhas”. Não acredito em sorte, mas acredito que as oportunidades vêm com o trabalho.

Mais informações sobre o programa Hug, da Associação Académica da UA: https://www.facebook.com/aveiroenosso/

(Foto de Nash Does Work)

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