conteúdos
links
tags
Opinião
Investigador Carlos Herdeiro escreve sobre a atribuição do Nobel da Física 2017
“Projetos extraordinários carecem de homens com uma crença extraordinária”
Carlos Herdeiro fala da Teoria da Relatividade Geral
O prémio Nobel de Física de 2017 foi atribuído a Rainer Weiss (metade) e a Barry C. Barish e Kip S. Thorne (a outra metade), pelas suas “contribuições decisivas” para o detetor Laser Interferometer Gravitational wave Observatory (LIGO) e a “observação das ondas gravitacionais”.

A atribuição deste Nobel ganhou forma a 11 de fevereiro de 2016, quando foi anunciada, pela colaboração LIGO, a primeira deteção das ondas gravitacionais. Confirmou-se uma previsão feita em 1916 por Albert Einstein: que a interação gravítica se propaga como vibrações ondulatórias no comportamento do próprio espaço-tempo.

Esta previsão, contudo, foi geralmente rotulada de meramente académica até à década de 1960,  pois a fraquíssima interação destas ondas com qualquer detector concebível tornava-as praticamente impossíveis de detectar, na prática. Mas o que desencoraja o homem comum motiva alguns homens extraordinários.

Rainer Weiss (1932- ), um físico experimental baseado no Massachussets Institute of Technology (MIT), desenvolveu na década de 1970 o conceito de um detetor laser interferométrico para observar ondas gravitacionais. Weiss e Kip Thorne (1940-  ), um relativista teórico baseado no California Institute of Technology (CalTech) e coautor de um tratado sobre a teoria de Einstein (o livro “Gravitation”, de 1973), convenceram-se firmemente que seria possível detetar estas ondas provenientes de fontes plausíveis astrofísicas, apesar do extraordinário desafio tecnológico. As duas décadas seguintes foram passadas a desenvolver o conceito, a tecnologia e a convencer a comunidade, um esforço que culminou com a aprovação pela National Science Foundation (NSF) dos EUA, em 1994, da construção dos dois instrumentos do LIGO, em Hanford e em Livingstone, nos EUA, separados por cerca de 3000 Km. A aprovação do LIGO foi liderado por Barry Barish (1936- ), um físico experimental do CalTech, que também se tornou o diretor do LIGO em 1997.

Ou seja, em 1994, estes três (e outros) homens convenceram a NSF a gastar (até ao momento) mais de 600 milhões de dólares numa experiência de alto risco, que pretendia medir variações de distância da ordem da milésima parte do núcleo atómico, e, se bem sucedida, demoraria duas décadas a dar resultados!

Mas esta história estava destinada a um final feliz e inspirador. Depois de 11 de fevereiro de 2016, outras três detecções foram anunciadas, todos elas interpretadas como resultando de colisões de buracos negros num passado longínquo. O final feliz é o início de uma nova era na compreensão do Cosmos.

O Nobel da Física de 2017 premeia, numa sociedade de consumo imediato, o trabalho visionário, a longo prazo; um projeto profundo, mas arriscado. Projetos extraordinários carecem de homens com uma crença extraordinária, que é precisamente o caso destes laureados, como comprova o texto, escrito por Thorne, há quase 45 anos, no livro “Gravitation” (secção 37.10): “The technical difficulties to be surmounted in constructing such detectors are enormous. But physicists are ingenious; and with the impetus provided by Joseph Weber’s pioneering work, and with the support of a broad lay public sincerely interested in pioneering in science, all obstacles will surely be overcome.” Joseph Weber, físico norte-americano, desenvolveu os primeiros detetores de ondas gravitacionais (não interferométricos).

Carlos Herdeiro

Líder do grupo de gravitação

Investigador do Departamento de Física da Universidade de Aveiro

imprimir
tags
outras notícias