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Opinião
As várias frentes do problema dos incêndios: opinião de Alfredo Rocha
Alterações climáticas ondas de calor, tempestades e fogos florestais
Alfredo Rocha
Para haver um fogo florestal de dimensões consideráveis, é necessário a existência conjugada de coberto vegetal, ignição e condições atmosféricas favoráveis. É sobre estas últimas que irei detalhar.

Antes de ocorrer um fogo florestal, condições meteorológicas persistentes (semanas/meses) de elevada temperatura, baixa humidade e precipitação tornam o coberto vegetal mais seco e, consequentemente, mais fácil de arder.

Depois de se dar a ignição, para além dos fatores mencionados, a intensidade do vento e a instabilidade atmosférica são relevantes para a manutenção e propagação do fogo. Em termos simplistas, instabilidade atmosférica significa que um balão virtual de ar sobe facilmente na atmosfera.

Em condições de fogo, a instabilidade atmosférica promove o movimento ascendente de ar (convecção) que atua como um efeito de sucção à superfície facilitando a combustão. Associada à convecção local, ocorre movimento descendente de ar na vizinhança do fogo. Estas duas componentes de circulação vertical de ar são fechadas através do movimento horizontal de ar à superfície e em altitude. Esta circulação atmosférica poderá contribuir para o transporte horizontal de fagulhas e propagação do fogo.

Ao aumentar a temperatura do ar próximo da superfície, o próprio fogo irá intensificar localmente a instabilidade atmosférica inicial e, consequentemente, a convecção. Os ventos gerados pelo próprio fogo podem ser até 10 vezes mais intensos do que aqueles que se faziam sentir antes da ignição. Digamos que há um processo de retroação positiva na medida em que o efeito (fogo) irá intensificar a causa (instabilidade, convecção, vento local).

Relativamente à ignição, esta pode ser produzida por descargas elétricas nuvem-superfície, portanto de origem natural. Geralmente, as descargas elétricas ocorrem a partir de nuvens de grande extensão vertical designadas de cumulonimbus. Frequentemente estas nuvens produzem também precipitação intensa. Este tipo de nuvens é mais frequente durante o verão e no fim/início da primavera/outono. Contudo, podem ocorrer situações em que, ou a chuva cai num local distante do fogo, ou a chuva, que cai a partir da base na nuvem sobre o fogo, evapora total ou parcialmente antes de chegar à superfície – tempestade seca. Em ambos os casos, a chuva não irá contribuir para a sua extinção.

A chuva ao cair de um cumulonimbus e a evaporar total ou parcialmente irá arrefecer localmente o ar dentro e sob a nuvem. Este arrefecimento torna o ar local mais denso (pesado). Este arrefecimento intensifica-se à medida que a chuva evapora. Este ar frio irá ‘cair’ por ser mais pesado que o ar ambiente - downburst. Ao encontrar a superfície este vento descendente torna-se horizontal, mais intenso e sopra radialmente do centro para a periferia – outflow. A sua interação com a orografia poderá tornar estes ventos imprevisíveis e poderão contribuir significativamente para a rápida propagação do fogo.

Um estudo recente por nós realizado (1) refere que o número de dias de onda de calor irá aumentar, em média, de 5 para 50 dias por ano, entre o clima atual e um cenário climático futuro (RCP8.5 – business as usual) em 2100, na Península Ibérica. A humidade relativa do ar próximo da superfície diminui com o aumento de temperatura, para o mesmo conteúdo de vapor de água. Espera-se, assim, que haverá também mais dias de verão mais secos no futuro porque não se prevê um aumento do conteúdo de vapor de água, pelo menos de forma a compensar o aumento de temperatura.

Um outro estudo nosso (2) revela ainda que as condições favoráveis para o desenvolvimento de tempestades severas irá aumentar, entre o clima atual e 2100, na Península Ibérica, sobretudo no verão e outono, aumentando, teoricamente a probabilidade de ignição de fogo florestal por causas naturais.

(1)  Pereira, S.C., M. Marta-Almeida, A.C. Carvalho and A. Rocha. 2017. Heat Waves and Cold Spells changes in Iberia for a future climate scenario. International Journal of Climatology. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/joc.5158/full

(2)  Viceto, C., Marta-Almeida and A. Rocha, 2017. Future climate change of stability indices for the Iberian Peninsula. International Journal of Climatology. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/joc.5094/full

 

Alfredo Rocha

Professor do Departamento de Física da Universidade de Aveiro

Investigador do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM)

(Texto publicado em simultâneo com o Diário de Aveiro)

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