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Opinião
As várias frentes do problema dos incêndios: opinião de José Eduardo Rebelo
A tragédia de Pedrógão Grande, um luto comunitário: como apoiar as pessoas e famílias nas suas perdas pessoais profundas
José Eduardo Rebelo
Três semanas após os incêndios devastadores em Pedrógão Grande, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos, com a morte de mais de seis dezenas de pessoas, há lugar para uma reflexão sobre o apoio ao luto a realizar a quem perdeu os seus entes queridos.

De acordo com o Modelo Vivencial do Luto Sadio (Rebelo et al., 2017), cerca de 90% das pessoas que sofrem perdas pessoais profundas experienciam lutos saudáveis, que objetivam a superação da ausência do ente querido, com doces e suaves memórias. Após a notícia da morte, a primeira reação inconsciente do enlutado, visando a defesa da sua própria saúde, é uma vivência global do choque, com a negação da perda e um intenso torpor, correspondentes ao elevar de barreiras contra a realidade que se impõe à razão.

A vivência do choque decorre, em regra, até ao fim das exéquias, ou um pouco mais, como no caso presente, em que existem perdas múltiplas. A vivência global da descrença da perda passa a ocupar a pessoa em luto, com a busca inconsciente das expectativas emocionais, no intuito de preservar um passado de felicidade. À busca dos detalhes de bem-estar contrapõem-se a verdade do seu desencontro, sentida com frustração ou desespero.

O Observatório do Luto em Portugal, a propósito desta tragédia (vide olp.speil.pt), salienta que o luto é um problema de saúde pública e que a primeira resposta institucional ao enlutado deve ser a devolução do corpo do seu familiar. Em paralelo, deve ser propiciado o bem-estar material, com a recuperação do lar e de todo o conforto que este fornecia. Por último, deve ser estabelecido um programa de apoio ao luto, de longo prazo.

A devolução do corpo do ente querido é a primeira prioridade para que se possa iniciar o luto, já que, enquanto tal não acontece, prossegue a negação, com a esperança que a morte não tenha acontecido, como as notícias bem espelham com as mães de crianças desaparecidas.

A reconstrução do espaço de família, o lar, é a segunda prioridade para que o enlutado possa recuperar a confiança em si próprio e proteger-se da natureza, com o conforto que a vida atual exige.

Cumpridos os dois pressupostos anteriores, no apoio ao luto, em traços gerais, o enlutado necessita que alguém se disponibilize: i) a ouvi-lo partilhar, sem condições, as memórias do ente querido e o sofrimento que a sua ausência lhe causa; ii) a não julgar as suas palavras e atos; iii) a auxiliar em tarefas quotidianas.

O enlutado pode encontrar no seu seio familiar ou de amigos o apoio ao luto desejado e necessário ou, caso não seja possível, necessita recorrer ao apoio institucional, oferecido pela APELO e outras associações.

Alguns aspetos essenciais devem ser observados para a eficácia do apoio ao luto institucional: i) deve implementado por especialistas nesta atividade, os Conselheiros do Luto, já existentes, há alguns anos, no nosso país; ii) deve ser continuado, ao longo de vários anos; iii) deve decorrer em sessões individuais de apoio e em grupos de partilha e de entreajuda (entre pares) por tipos de luto: defilhados (pais em luto), viúvos, órfãos, irmãos em luto e outros.

Finalmente, deve ter-se em atenção que o apoio ao luto nunca deve ser condicionado ou imposto ao enlutado. Apenas deve ser informado da existência da estrutura de apoio para que o procure quando intimamente sinta a sua necessidade. Saliente-se que alusões ao apoio ao luto durante a vivência global do choque são contraproducentes, dada a negação que o enlutado experiencia em relação à sua perda.

José Eduardo Rebelo

Universidade de Aveiro, Departamento de Biologia

Presidente da APELO-Apoio ao Luto

Coordenador do Observatório do Luto em Portugal

rebelo@ua.pt

(Texto publicado em simultâneo com o Diário de Aveiro)

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