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Opinião
Texto de Alexandra Monteiro, investigadora do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar
Porque não há fogo sem fumo
Alexandra Monteiro explica riscos associados aos dias frios e soalheiros e ao uso de lareiras
Já (quase) tudo foi dito sobre os avassaladores incêndios florestais de Pedrogão Grande e os dramas associados, desde o número de mortes, à destruição de terras, floresta e materiais. Um drama que cobre todas as vertentes desde a humana, a ambiental, social e económica. Estas tremendas dimensões da tragédia fazem sombra sobre aspectos menos conhecidos, mas também preocupantes, como explica a investigadora Alexandra Monteiro, do CESAM.

Os efeitos são diversos, e há efeitos que têm uma dimensão muito para além da área geográfica afetada pelo fogo. Associado ao fogo, existe o fumo cuja dispersão e transporte pode ter impactos a distâncias superiores a centenas de quilómetros. Estes incêndios não foram uma exceção à regra e este fumo teve repercussões sentidas e medidas em locais distantes e remotos.

As estações de qualidade do ar mais próximas da região são Ervedeira (Leiria), Fornelo do Monte (Vouzela) e Montemor-o-velho (Coimbra), todas localizadas a mais de 80 km de onde ocorreram os incêndios. Nestes locais foram medidas concentrações médias diárias de partículas (uns dos poluentes associados aos incêndios florestais) superiores a 70 ug.m-3, quando o valor limite de proteção da saúde humana é 50 ug.m-3 (http://qualar.apambiente.pt).

Estes valores limite foram ultrapassados durante 5 dias seguidos (desde o dia 17 até ao dia 22 de junho), afetando diretamente a população residente em toda esta zona envolvente, mesmo afastada de 100 km do local incendiado.

E como tudo é relativo, também estes impactos devem ser relativizados: estes valores médios diários medidos neste locais representam um aumento de 200% face aos valores médios registados anualmente e um aumento de 70% relativamente aos valores médios registados em dias de episódio (como aconteceu alguns dias de inverno com condições meteorológicas de grande estabilidade e desfavoráveis à dispersão de poluentes).

Mais um efeito colateral deste drama recente, que nos faz perceber que também aqui “um mal nunca vem só” e que os impactos totais e globais deste fogos estão ainda longe de ser avaliados...

Alexandra Monteiro

Investigadora do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), laboratório associado da Universidade de Aveiro

(Texto publicado em simultâneo com o Diário de Aveiro)

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