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Entrevista com Maria João Carioca
A Universidade de Aveiro tem um conjunto de ingredientes para um futuro promissor
Curadora Maria João Carioca
Dona de um currículo e carreira invejáveis, Maria João Carioca é uma das cinco personalidades de elevado mérito que integram o Conselho de Curadores da Universidade de Aveiro (UA). A figura feminina deste órgão de governo da UA e da Comissão Executiva do Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos (CGD) diz que o que tem aprendido enquanto Curadora já lhe permitiu identificar nesta Universidade um conjunto de ingredientes para um futuro promissor.

Em julho de 2016, sob proposta do Reitor, foi nomeada membro do Conselho de Curadores da UA pelo Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Como reagiu a essa nomeação?

Tenho tido ao longo da vida o privilégio de me sentir profundamente honrada com convites que me têm sido dirigidos, com nomeações para posições em casas que respeito. O convite para o Conselho de Curadores foi sem dúvida um desses momentos. Porque se trata de uma universidade com uma história e uma postura muito positivas, porque é uma posição de muita responsabilidade e de serviço público e porque a exerço na companhia de pessoas com uma experiência de vida e de gestão que excede em muito o que tenho para dar em troca.

Foi, e é, uma honra e um grande prazer: gosto de estar próxima das universidades, dos jovens, de quem está a aprender, a crescer. Admiro as universidades em Portugal, como a Universidade de Aveiro, que fazem um trabalho excelente a dar uma preparação ao melhor nível mundial aos nossos jovens, que se abrem ao exterior, evoluem, vão ao encontro do mercado.

Aprendo sempre imenso, desafia-me, dá-me novas maneiras de olhar para as coisas.

Passados estes meses, na sua opinião, qual é o papel do Conselho de Curadores, existente apenas nas universidades fundação? Que contributo podem os seus membros conferir à Universidade?

O papel dos Conselhos de Curadores é complexo, mas vejo-o de forma positiva. A minha formação e a minha experiência profissional levam-me a traçar paralelos com os órgãos de governo das sociedades, nomeadamente na representação dos interesses dos acionistas que se espera dos Conselhos de Administração, e em particular dos seus membros não executivos.

Acredito em modelos que trazem para os órgãos de gestão experiências de outras áreas, que introduzem um desafio saudável à gestão executiva, que asseguram um papel de supervisão próxima da casa, mas alinhada com o "acionista", neste caso o próprio Estado. O regime das universidades fundacionais tem algumas complexidades, mas globalmente os Conselhos de Curadores podem trabalhar com resultados positivos, e espero sinceramente que esse seja o caso na nossa Universidade.

O que tenho aprendido enquanto curadora anima-me

Já conhecia esta Universidade?

Claro que conhecia! É impossível estar próxima das áreas tecnológicas, como tenho estado há já vários anos e não ter ecos do trabalho que está a ser feito na Universidade de Aveiro e da qualidade da formação que aqui se dá. Para além disso, nas minhas funções na CGD também já tinha tido a oportunidade de tomar contacto com a Universidade - há um muito bom relacionamento entre as duas instituições, com muita proximidade.

O seu entendimento sobre a UA alterou-se no exercício das funções de Curadora?

A Universidade de Aveiro tem muito boa reputação no mercado, as empresas reconhecem a qualidade e procuram os jovens que aqui se formam. Em conjunto com outras universidades do norte, Aveiro integra um "polo" que é reconhecido internacionalmente, que atrai empresas, que tem escala. O que tenho aprendido enquanto curadora anima-me: tenho visto a grande proximidade à comunidade, a Aveiro, uma preocupação em assegurar um alto nível académico e grande atenção à sustentabilidade da instituição a prazo –tudo bons ingredientes para um futuro forte!

Que impulso pode o ensino superior dar ao crescimento económico de um país e, de uma forma mais geral, ao seu enriquecimento?

Antes de mais: formação ao melhor nível internacional, aberta ao mundo, aberta a melhores práticas, ao que melhor se faz, recetiva ao crivo de outras. Com isso dá aos alunos preparação, mas também os expõe aos valores e à ética profissional que hoje em dia são indispensáveis.

Depois uma grande sensibilidade à comunidade, se quiser, em particular às empresas. Sensibilidade aos aspetos particulares de negócio, a como transformar uma boa ideia, um bom conceito, em algo que possa atrair investidores e com isso chegar a mais gente.

Licenciou-se em Economia, tem um MBA pelo INSEAD e completou o programa Leading Change and Organizational Renewal (LCOR) na Harvard Business School. Que perfil deverá ter atualmente um diplomado face aos desafios de um mundo em permanente mudança?

Não sei definir um perfil tipo, mas sei que curiosidade permanente, vontade de aprender, curiosidade intelectual, disponibilidade para se envolver e rigor no desempenho são sempre apreciados onde quer que seja. A tecnologia tem um papel cada vez mais marcante em todos os sectores e tem uma evolução muito acelerada - ter flexibilidade mental e alguma familiaridade com ferramentas ou simplesmente conceitos é uma mais-valia. Mas no fundo os valores continuam sempre importantes: seriedade, competência, honestidade, proatividade…

Começou a sua carreira na McKinsey & Company, integrou a Unicre, a SIBS, esteve no Conselho de Administração e na Comissão Executiva da CGD, de onde saiu para liderar a Euronext Lisboa e regressou agora ao Conselho de Administração da CGD. Quais as funções que gostou mais de exercer e de que mais se orgulha? Porquê?

Todas fazem parte de mim. Todas me ensinaram imenso. São uma história em contínuo e não peças isoladas. Orgulho-me de todos e dá-me imenso prazer sempre que me dão alguma nota de apreço pelo trabalho que por lá fiz.

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Precisamos de atrair e reter talento

O que a levou a aceitar o convite do Dr. Paulo Macedo para integrar a nova administração da CGD?

Antes de tudo o mais, uma enorme vontade de fazer bom trabalho na Caixa. É uma grande casa, é o maior banco do País, é um ativo que não merece outra coisa que não ser bem cuidado. Se é assim que penso e me é dada oportunidade de contribuir, então devo fazê-lo.

Nunca tinha trabalhado com o Dr. Paulo Macedo, mas gente que muito respeito tem-lhe um grande apreço – senti que iria trabalhar com alguém com valores com os quais me identifico.

Foi uma decisão muito difícil, ainda assim. Estava há muito pouco tempo na Euronext e gostava e acreditava no trabalho que havia para fazer. Foram poucos meses, mas mesmo assim senti que "abandonava a minha gente". Não é um sentimento fácil.

Considerando o contexto mundial, que desafios identifica para Portugal? E, nesse quadro, que oportunidades para a Universidade de Aveiro?

Portugal é uma pequena economia, bastante aberta e a funcionar como membro de uma das zonas económicas mais ricas do mundo, mas com desafios marcados de crescimento sustentado a prazo. Com este pano de fundo, a meu ver o maior desafio passa sempre por entender que temos de estar abertos a explorar além-fronteiras, mas que só iremos ser bem-sucedidos se soubermos fazer consistentemente bem e se o soubermos demonstrar aos outros.

Precisamos de captar capital e isso implica saber construir histórias sólidas para os investidores. Precisamos de vender no mercado internacional e para isso temos de aprender a dar resposta aos clientes, onde e quando eles o querem. Precisamos de atrair e reter talento e isso implica estar ligado aos sítios, às instituições onde se faz o melhor que há no mundo, onde se desenvolve o conhecimento de ponta e se cria o crescimento futuro. Para mim daqui saem muito naturalmente os desafios para a Universidade de Aveiro: continuar a trabalhar a níveis de excelência; abrir-se ao exterior – trazendo para dentro e dinamizando oportunidades para levar de cá de dentro para fora, nomeadamente para o mundo das empresas; explorar a multidisciplinaridade –as ciências e a economia, as línguas…

É a única mulher no Conselho de Curadores da UA e no Conselho de Administração da CGD. Como interpreta a baixa presença de mulheres em altos cargos?

Na CGD sou a única mulher na Comissão Executiva, mas no Conselho de Administração seremos quatro – um número muito mais animador! Os baixos números de mulheres em altos cargos reflete fundamentalmente, a meu ver, o facto de estarmos ainda a evoluir de uma situação histórica em que haver mulheres nessas posições simplesmente não era normal, era mesmo socialmente visto como algo que com alguma benevolência era, quando muito, visto como uma excentricidade. Hoje em dia o normal é ter consciência que a capacidade das mulheres para exercerem essas posições é em tudo equivalente à dos homens e que, portanto, se espera que a presença reflita números mais próximos da demografia. Estamos a demorar tempo a convergir para este novo normal, é verdade, e creio que precisamos de medidas remediais que nos ajudem a fazê-lo, porque será positivo que o façamos. Mas há imensas mulheres muitíssimo qualificadas – a academia é aliás um bom exemplo disso, e a prazo esta será uma insuficiência que, se lhe dedicarmos a devida atenção, será seguramente suprida.

O que gostaria de fazer a seguir?

Não sei… estou a começar na CGD, depois de há menos de um ano ter começado na Euronext. Entro num novo desafio sempre de alma e coração, por isso neste momento não posso dizer que tenha pensado no que vou querer fazer a seguir. Gosto muito do que estou a fazer na CGD, é para mim uma tarefa muito recompensadora o dar o meu contributo a um plano de reestruturação complexo e exigente, numa instituição que acho que diz muito aos portugueses. O futuro por agora fica para depois…

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Acho que sou bastante igual à vizinha do lado

Como se define como pessoa?

Dizem-me muitas vezes que tenho mau feitio, mas quase sempre mo dizem com um sorriso, por isso assumo que não seja tão mau assim! Sou algo impaciente e muito pragmática. Isso faz de mim uma pessoa às vezes demasiado direta, imagino. Sou muito racional e analítica, mas também sou muito "ferozmente defensora dos meus", admito. Mantenho uma enorme curiosidade intelectual, algo por que dou graças quase todos os dias… Não sei – acho que sou bastante igual à vizinha do lado.

Qual o seu principal defeito e a sua principal virtude?

Há tantos anos que não respondia a essa pergunta que acho que me esqueci da resposta… O meu principal defeito? Tenho uma tolerância muito baixa a histórias mal contadas, a desculpas tolas, a gente sonsa. Torno-me impaciente e brusca – fico feia de se ver. A minha maior virtude? Encontrei há anos atrás a ideia de que precisamos de nos rodear de alegria – de a sentir no que fazemos, de a oferecer aos outros, de a procurar mesmo nos sítios mais recônditos da nossa vida. É-me muito intuitivo buscar alegria – não a gargalhadinha fácil, mas aquela alegria que se sente lá no fundo do coração. E acho que isso me faz uma pessoa melhor.

Tem algum hobby?

Parece que hoje em dia ler deixou de ser considerado um hobby interessante, mas é o único que tenho. Tenho de ler todos os dias. Na maior parte dos dias não consigo ler mais de duas ou três páginas – estou cansada e adormeço. Mas ainda assim, a esse ritmo "lagartal" tenho lido história antiga, ficção científica, biologia… Coisas relativamente pouco sofisticadas, mas que alimentam a minha curiosidade e me dão perspetiva sobre o mundo em que vivemos. Adoro quando um livro me introduz um novo conceito, uma nova perspetiva, uma ideia que pode ser fantasia, mas ainda assim me abre uma nova janela sobre a realidade.

 

Sobre Maria João Carioca

Maria João Borges Carioca Rodrigues, membro do Conselho de Curadores da UA desde julho de 2016, nasceu a 10 de agosto de 1971. É licenciada em Economia pela Universidade Nova de Lisboa (1989 a 1993), e tem um Master in Business and Administration (MBA), pelo INSEAD (1996).

Iniciou a sua carreira na McKinsey & Company, em 1993. Em 2004, integrou a Unicre – Instituição Financeira de Crédito, S.A., onde desempenhou funções de diretora coordenadora do Gabinete de Análise Estratégica (GAE). Foi diretora do Gabinete Corporativo e de Estratégia da SIBS Forward Payment Solutions / SIBS SGPS (de 2008 a julho de 2013), e membro executivo do Conselho de Administração da SIBS Pagamentos (de 2011 a julho de 2013).

Entre julho de 2013 e maio de 2016 foi ainda vogal do Conselho de Administração e da Comissão Executiva da Caixa Geral de Depósitos, S.A. (CGD), e a 1 de junho do mesmo ano iniciou funções, como vogal, com funções executivas no Conselho de Administração da Euronext N.V., e, como presidente, na Euronext Lisboa e na Interbolsa.  

Em março de 2017 regressou à CGD para integrar o Conselho de Administração deste banco.

Nota: este artigo foi publicado na edição número 27 da revista Linhas.

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