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Entrevistas
Professor UA – António Neto Mendes, Departamento de Educação e Psicologia
“Não se deixem capturar pela linguagem do ódio e da arrogância”
António Neto Mendes
Referência do ensino e investigação na área da Educação, António Neto Mendes é professor há quase 35 anos. Um tempo que parece tanto, mas não o suficiente para esconder a “mesma inquietude de sempre, a mesma insatisfação e a sensação permanente de recomeço”. Ao longo das últimas décadas, no Departamento de Educação e Psicologia (DEP) da Universidade de Aveiro (UA), gerações e gerações de docentes levaram dele a melhor das lições: “Ser professor é saber estar com o outro”.

Com uma formação académica assente na Licenciatura, no Mestrado e no Doutoramento em Educação, António Neto Mendes é atualmente o diretor do Mestrado em Educação e Formação do DEP.  “São 26 os anos de trabalho na UA, em grande medida dedicados ao ensino. Por muitos considerado uma área pobre da missão universitária, o ensino é para mim uma dimensão central da minha atividade, apesar dos desafios novos que nos são colocados pela abertura tecnológica e o acesso a distância a novos públicos”, afirma.

Qual é o segredo para se ser bom professor?  

Um bom professor é aquele que sabe distinguir ensino e aprendizagem no contexto de um mundo (local e global) muito complexo e desigual. Estar disponível para a compreensão desta complexidade é estar atento ao outro, sem tiques de arrogância intelectual próprios de quem despreza o conhecimento e a preocupação com a casa comum de todos nós, independentemente das nossas diferenças.

O que mais o fascina na profissão docente?

A descoberta do outro através da comunicação sem condições, a não ser uma: a predisposição para a descoberta do mundo e para a construção de pontes entre os seus (co)habitantes, seres fascinantes dotados de especificidades que os singularizam sem os condenarem à incompreensão.

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes nos cursos aos quais está ligado?

A formação dos estudantes nos cursos em que estou envolvido, basicamente centrada na formação de professores, continua a pautar-se por elevados padrões de qualidade. Há, no entanto, duas novas realidades que vieram perturbar o campo da formação de professores na última década:

i) o fim da formação “integrada” com o Processo de Bolonha e a nova arquitetura bietápica daí decorrente;

ii) a crescente captação de estudantes de pós-graduação cujo regime de frequência passa cada vez mais por uma qualquer modalidade de ensino a distância.

Tenho a sensação de que há ainda muito a fazer nestas duas frentes porque nem toda a mudança corresponde a melhoria...

Que grande conselho dá aos alunos?

Acredito na capacidade autocrítica das pessoas, logo também na dos nossos alunos. Não faz sentido ser professor sem algum otimismo vital, sem alguma irreverência, até. O único conselho que me atrevo a dar geralmente é este: não se deixem capturar pela linguagem do ódio e da arrogância. Ser professor é saber estar com o outro. As melhores receitas pedagógicas pedem geralmente os ingredientes mais simples e, claro, uma vontade de ser melhor cada dia que passa...

Houve algum grupo que mais o tivesse marcado? Porquê?

Os alunos que mais me marcaram (e continuam a marcar) são aqueles com quem se consegue construir uma relação baseada na confiança. Não podemos esquecer que há um lado negro da cultura escolar em que todos (alunos, pais e professores) desconfiam de todos. O incremento da competitividade e a escassez de oportunidades (de trabalho, nomeadamente) alimentam este ambiente de desconfiança e reforçam o individualismo. Os alunos que sempre me marcaram foram aqueles que mostraram disponibilidade para contrariar estas tendências, recriando em permanência as condições para a confiança e a colaboração entre atores sociais com diferentes responsabilidades...

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula ou com estudantes?

Por questões de natureza ética, não se deve individualizar relatos desta natureza. Mas posso contar uma história que envolve o coletivo: um grupo de formandos, constituído por professores primários dos PALOP, e eu como formador. Perguntei-lhes como estava a decorrer a sua vida em Aveiro, como estavam a integrar-se. Cada um foi contanto a sua própria vivência, quase todos sublinhando as diferenças que a cidade e a UA representavam nas suas vidas. Para a maior parte, aquela era sua primeira experiência no estrangeiro, na Europa seguramente. Retive a observação de um professor angolano: “O que mais me surpreende em Aveiro é o grau de civismo dos condutores!”. Apanhado de surpresa, interpelei-o: “Mas porque diz isso?” A resposta foi pronta: “Param todos na passadeira, no meu país isso é impensável”.

Aguentei o impacto da informação, levei uns segundos a reagir e soltei um aviso: “É curiosa a sua observação. É verdade que melhorámos muito a esse nível, mas não posso deixar de vos dar um conselho: tenham sempre muito cuidado na travessia da passadeira, certifiquem-se sempre de que o condutor já vos viu, de que dá sinais de estar a abrandar antes de atravessarem. Há muitos atropelamentos de peões nas passadeiras”. Cerca de duas semanas depois um formando de Moçambique foi atropelado numa das passadeiras da avenida que atravessa o campus. Inicialmente parecia que não haveria necessidade de assistência médica, seriam apenas uns arranhões na perna... O condutor foi à sua vida, o atropelado ficou apenas com uma matrícula e um nome numa folha de papel. No dia seguinte as dores aumentaram e as despesas na farmácia também. Acabei por acompanhar o formando à PSP para conferir a identificação do condutor e para obter da sua parte a assunção das responsabilidades com as despesas da farmácia...

descrição para leitores de ecrã
Otimismo vital e irreverência. Sem uma boa dose essas características na alma António Neto Mendes diz não fazer sentido ser professor. 

Traço principal do seu carácter

Gostar mais de ouvir que de falar...

Ocupação preferida nos tempos livres

Estar com amigos, ler, viajar, praticar desporto...

O que não dispensa no dia-a-dia

Uma piada oportuna com pessoas bem humoradas!

O desejo que ainda está por realizar

Descobrir a receita para a felicidade de todos...

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