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Entrevistas
Professora UA – Vera Godinho da Silva, Instituto Superior de Contabilidade e Administração
“Acredito nas pessoas! Todos os estudantes merecem o nosso incentivo”
Vera Godinho da Silva
A arte suprema de ser professor é a de criar “pensadores, cientistas e artistas que expressarão nos seus trabalhos aquilo que aprenderam com seus mestres”. É nas palavras de gigantes como Albert Einstein que Vera Godinho da Silva encontra as linhas mestras da profissão que abraçou no Instituto Superior de Contabilidade e Administração da Universidade de Aveiro (ISCA-UA). Uma casa onde a transmissão de saberes e de competências fundamentais ao êxito no mercado de trabalho é feita através de uma “visão holística do conhecimento”.

Doutoranda em Contabilidade no Programa Doutoral conjunto da Universidade do Minho e da UA e Mestre em Contabilidade – Ramo Fiscalidade pelo ISCA-UA, Vera Godinho da Silva tem-se dedicado ao ensino de unidades curriculares na área da Fiscalidade da Licenciatura em Contabilidade, da Licenciatura em Finanças e no Mestrado em Contabilidade no ISCA-UA, assim como nas Licenciaturas em Economia e Gestão no Departamento de Economia, Gestão Industrial e Turismo (DEGEIT). Os seus interesses de investigação estão relacionados com a Fiscalidade empresarial, quer nacional quer internacional.

Como define um bom professor?

Não consigo encontrar uma boa definição, mas vou partilhar algumas opiniões.

Na minha opinião, um bom professor é um artesão da alma, um escultor de mentes, um poeta dos sentidos, um impulsionador da imaginação, um visionário de metas e um formador de pensadores, capaz de despertar nos seus estudantes a sede de conhecimento. Acredito que tem algures uma veia romancista, capaz de abraçar os demais numa história de amor, onde conquista com grande paixão pelo que faz. Também acredito, no poder da criação de uma atmosfera de magia, que cativa os estudantes para que não consigam sair sem aprender algo, que mantém um bom ambiente criativo, confere preparação técnica e científica adequada, contribui para o seu desenvolvimento pessoal, respeita os seus estudantes como pessoas e qualifica-os para o mercado de trabalho, fortalece a tolerância recíproca, enraíza exigência, cultiva humildade, detém a capacidade de transmissão de conteúdos complexos de forma simples, demonstra gosto em partilhar conhecimento e não tem receio de questionar e ser questionado.

É um grande desafio…

Apesar de ser um grande desafio deve, ainda, fazer compreender que todos os conteúdos teóricos têm uma aplicação prática, mas que a teoria não pode ser descurada em detrimento da prática. Segundo Leonardo da Vinci, “Os que se encantam com a prática sem a ciência são como os timoneiros que entram no navio sem timão nem bússola, nunca tendo certeza do seu destino.”.

Permitam-me uma partilha em forma de agradecimento, não sei se é por nostalgia, mas esta pergunta abriu o meu baú de memórias, repleto de recordações. Sim, recordações, dos excelentes professores que comigo partilharam alguns minutos das suas vidas. É com saudade que recordo as tertúlias dialógicas que se perdiam no tempo, a humildade que transmitiam no olhar, a simplicidade que os tornavam sofisticados, o ambiente criativo onde se esperava a excelência, a mestria com que exerciam a exigência na partilha do conhecimento, a participação ativa que tiveram no meu desenvolvimento humano e a disponibilidade que por magia aparecia nas suas agendas duplamente preenchidas. Se hoje sou professora, a eles agradeço o lançamento da semente, pois esta germinou e deu frutos, e tornou-se uma das maiores paixões da minha vida.

Qual o segredo para se ser bom professor?

Segredo? Julgo que não há segredo, fórmula ou receita. O ensino deve ser exercido com paixão. Segundo Daniel Goleman, “As nossas paixões, quando bem exercidas, têm sabedoria. Guiam o nosso pensamento, os nossos valores, a nossa sobrevivência.”. Um bom professor tem um dom inato de partilhar as sementes do conhecimento que cultivou em si, simultaneamente com a capacidade de motivar os seus estudantes a acolherem essas mesmas sementes, dentro de si mesmos. Para tal, pode empregar um modelo, com todas ou apenas algumas das variáveis que referi, mas deve ser ajustado às necessidades dos seus estudantes e possuir tempo para a discussão. Não há modelos generalistas e perfeitos, porque a relação entre o professor e o estudante é única, embora fundamental para a construção do modelo correto que conduzirá ao seu sucesso.

Para além do que foi mencionado, um bom professor deve ser empático com os seus estudantes que, na sua maioria, podem julgar ser difícil a aprendizagem. Embora, eles possam muitas vezes esquecer o que foi transmitido, acredito que jamais irão esquecer como o professor os fez sentir, como também reforça Carl Buechner. Segundo Albert Einstein, “A suprema arte do professor é despertar a alegria na expressão criativa do conhecimento, dar liberdade para que cada estudante desenvolva sua forma de pensar e entender o mundo, assim criamos pensadores, cientistas e artistas que expressarão em seus trabalhos aquilo que aprenderam com seus mestres.”.

O que mais a fascina no ensino?

Muitas são as razões que me fascinam no ensino. Mas, à medida que esse fascínio evolui, não se deve consubstanciar apenas no aperfeiçoamento da capacidade de partilhar conhecimento, mas também na possibilidade de produzi-lo. Além da possibilidade de transmitir conhecimento científico e técnico, o ensino permite aprender continuamente, acompanhar o desenvolvimento do pensamento crítico, e no meu caso, contribuir para a desmistificação da Fiscalidade e para a criação de estratégias de ensino de conteúdos fiscais. A participação ativa que nos é permitida na formação de pessoas, para que estas se revelem mais satisfeitas e eficientes nas suas vidas, de acordo com Carl Jung “assemelha-se ao contacto de duas substâncias químicas, e que se alguma reação ocorre, ambos sofrem uma transformação”. O ensino dá-nos essa oportunidade, de chegar mais perto das pessoas e ajudá-las a crescer como estudantes, pensadores e profissionais criativos, pois segundo Leonardo da Vinci, “Aprender é a única coisa que a mente nunca se cansa, nunca tem medo, e nunca se arrepende.”.

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes no ISCA-UA?

Nos cursos a que estou ligada, na área da Fiscalidade, a formação visa qualidade, é diversificada e com uma forte componente teórico-prática, próxima da realidade empresarial. Tendo consciência das exigências do mercado de trabalho e da complexidade que caracteriza a área fiscal, preocupamo-nos com a transmissão de conhecimentos e de competências fundamentais ao exercício das profissões, através de uma visão holística do conhecimento. A UA é uma instituição de referência, quer a nível nacional quer a nível internacional. Recentemente, na edição de 2017 do ranking Times Higher Education (THE) das universidades mais jovens, a UA qualificou-se entre as 100 melhores instituições de ensino superior do mundo. De acordo com a avaliação do “Young University Rankings”, suportada em indicadores como a qualidade do ensino e da investigação, o número de citações em revistas científicas, a projeção internacional e a ligação à indústria, a UA surge no 81.º lugar. Assim, tendo em consideração o que foi referido, qualifico como uma mais-valia para os estudantes.

Que grande conselho daria aos seus alunos?

Aos meus estudantes daria vários conselhos, mas vou recorrer a um mantra pessoal, que uso em sala de aula, e que já partilhei com alguns colegas. O ano de 2017, ano da mudança! Assim, o número dois representa duas ações planeadas, a persistência e a resiliência. Já o zero, zero desculpas e força, porque a força vem ao vosso encontro. O número um representa a definição do objetivo principal, pois esse conduzirá ao sucesso. Por fim, o número sete. A semana tem sete dias, seis dias para trabalhar e um para descansar. Lembrem-se que, se não planearem estão a planear o fracasso. Segundo Charles Darwin, Não são as espécies mais fortes que sobrevivem, nem as mais inteligentes, e sim aquelas que se adaptam melhor às mudanças.”. Sejam gratos pelas oportunidades.

Houve alguma turma que mais a tivesse marcado? Porquê?

Vários estudantes deixaram marcas na minha vida. Porém, não posso deixar de mencionar, especialmente, os humildes, os dedicados, os perseverantes, os empenhados, os insaciáveis e os que pedem desculpa quando o resultado de uma prova é negativo. Apenas vou partilhar uma curiosidade, portadora de uma excelente mensagem, recuperada pelo Diário de Notícias. O Global Teacher Prize é uma “espécie” de Nobel dos Professores, que reconhece o mérito de um professor, que tenha dado contributos de excelência para a profissão. Narrativas fantásticas, que merecem a nossa atenção, pois com tão pouco conseguem feitos notáveis, dignos de divulgação. O protagonista de House of Cards, Kevin Spacey, apoia o Global Teacher Prize, bem como o físico Stephen Hawking. Stephen Hawking lembra, num vídeo da fundação, que “existe um professor por trás de cada grande artista, cada grande filósofo e cada grande cientista" e admite que não foi um “grande” estudante, mas que um professor, o Senhor Tahta, transformou a sua vida. Acredito nas pessoas! Todos os estudantes merecem o nosso incentivo, independentemente do seu desempenho global. Quem sabe se este incentivo vai mudar a sua vida!

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula ou com estudantes?

Não é um episódio curioso, somente um episódio que tem uma interessante mensagem. A simplicidade da mensagem pode mudar o estado da alma de um estudante. Algures durante a época de recurso, numa tarde de Verão, onde o calor turvava o raciocínio, o esforço mereceu recompensa. Um estudante que passava por algumas adversidades e apresentava um quadro depressivo, preocupadíssimo contactou-me e referiu que queria realizar a prova dessa época. As dúvidas eram muitas e as suas capacidades estavam reduzidas por causa da medicação. Disse-lhe apenas calma: “Vamos trabalhar!”. Após algum tempo, e algumas dúvidas esclarecidas, o estudante humildemente referiu: “Professora, não esteja a perder o seu precioso tempo comigo, porque não vou conseguir e mesmo que consiga não vou obter mais do que dez valores.”. Persisti: “Vamos continuar!”. E, assim foi, prosseguimos o esclarecimento de dúvidas durante aquela tarde. Surpresa! Sim, obteve um resultado positivo, superior a dez valores e a Fiscalidade deixou de ser um dos seus fantasmas. 

descrição para leitores de ecrã
Aprender qualquer coisa nova todos os dias é um dos grandes prazeres de Vera Godinho da Silva. Por isso e para isso, não dispensa ler, ler, ler muito. 

Traço principal do seu carácter

Persistente, exigente, humana e destemida, com uma mão cheia de humor.

Ocupação preferida nos tempos livres

Ler.

O que não dispensa no dia-a-dia

Aprender algo de novo.

O desejo que ainda está por realizar

Um da minha lista de desejos, concluir o Doutoramento.

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