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Entrevistas
Professora UA – Ana Maria Ramalheira, Departamento de Línguas e Culturas
“A literacia literária é um dos antídotos mais eficazes contra a manipulação e o totalitarismo”
Ana Maria Ramalheira
Tem nas paixões a Literatura, o ensino, o sonho e a profundidade da vida para lá da aparência. Tem nas missões conduzir os estudantes ao questionamento constante e à consciência das mudanças permanentes da alma e do mundo. Professora há 35 anos, é nas salas de aula do Departamento de Línguas e Culturas (DLC) da Universidade de Aveiro (UA) que Ana Maria Ramalheira deixa a voz doer-lhe de tanto insistir: “Nunca deixem de sonhar! Como dizia o desassossegado Pessoa, matar o sonho é matarmo-nos”.

Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas e mestre em Literatura Comparada, formações que tirou na Universidade de Coimbra, foi já no DLC, em 2000, que Ana Maria Ramalheira concluiu o Doutoramento em Literatura Alemã. Atualmente é diretora do Mestrado em Línguas e Relações Empresariais e diretora da RUA-L. Revista da Universidade de Aveiro-Letras.

Qual é o segredo para se ser bom professor?  

Muito sinceramente, não sei se há algum segredo para se ser um bom professor. Eu própria não sei se sou uma boa professora! Essa pergunta terá de ser feita aos meus alunos, que, apesar de tudo, não me têm classificado mal nos inquéritos pedagógicos. Na minha opinião, um bom professor é aquele que respeita os seus alunos, manifestando esse respeito nos mais diversos contextos, mas principalmente através de uma cuidadosa preparação das suas aulas. Um bom professor é aquele que se esforça por expor os conteúdos programáticos com clareza, de forma viva e apelativa, conseguindo concomitantemente dotar os alunos de conhecimentos e de competências que os levem a aprofundar a matéria em apreço e a aprender ainda mais sozinhos. Um bom professor é também aquele que está sempre disponível para aprender com os seus próprios alunos.

Alunos cujo perfil vai mudando ao longo dos anos…

A verdade é que o perfil dos meus alunos tem vindo a mudar ao longo destes 30 anos. Sinto-os hoje um pouco menos maduros, um pouco mais infantis do que eram há uns anos atrás. Com a urgência da escrita nas mensagens e nas redes sociais não estão habituados a redigir textos mais longos, de forma mais elaborada, com acribia. Penso que, ao nível do ensino secundário, se terá apostado muito no ensino da Matemática e das ditas ciências exactas, ao passo que o Português, a Filosofia, a História e as Artes terão sido relativamente negligenciados... Ora um bom professor, na minha opinião, não deve limitar-se a veicular informação. Deve ajudar os alunos a compreender um texto, ensiná-los a ler nas entrelinhas, a interpretá-lo e a verbalizar as suas ideias. Um bom professor de Literatura deve esforçar-se por despertar nos alunos sensibilidade literária, por lhes deixar a semente do gosto pela leitura. Curiosamente, a este propósito, o professor universitário e ensaísta Jacinto do Prado Coelho, que reflectiu com grande inteligência e lucidez sobre o ensino da Literatura, escreveu: «ler colectivamente (em diálogo com a obra literária, em diálogo de leitor com outros leitores) é, com efeito, além de prazer estético, um modo apaixonante de conhecimento [...] Não há, suponho, disciplina mais formativa que a do ensino da literatura [...] Saber idiomático, experiência prática e vital, sensibilidade, gosto, capacidade de ver, fantasia, espírito crítico – a tudo isto faz apelo a obra literária, tudo isto o seu estudo mobiliza. [...] A literatura não se faz para ensinar: é a reflexão sobre a literatura que nos ensina.» («Como Ensinar Literatura», in: Ao Contrário de Penélope, 1976).

É assim que perspetiva as suas aulas de Literatura?

É, na verdade, desta forma que perspetivo as minhas aulas de Literatura, ao mesmo tempo que me esforço por conduzir os alunos na compreensão da obra literária, enquadrando-a no respetivo contexto histórico-cultural e promovendo reflexões conjuntas sobre o(s) seu(s) código(s) ideológico(s) e eventual atualidade. Na minha opinião, contudo, um bom professor tem de ser um pouco mais do que isto, como defendia também Jacinto do Prado Coelho «não é o professor de disciplinas, o assimilador de compêndios de didáctica, o intelectual cujas ideias são incolores e descarnadas que poderá ensinar [...] a beleza e a poesia das coisas — mas sim o homem amplamente humano, que enriqueceu e formou a sua alma ao contacto com a vida, e que a viveu em poesia, na sua totalidade misteriosa e complexa.» (In: A Educação do Sentimento Poético, 1944). Só assim um professor logrará contribuir de forma mais consequente para formar cidadãos mais letrados e capazes de compreender, com a distância crítica necessária, a natureza humana e a realidade tantas vezes manipulada que é «vendida aos pacotes» por uma certa comunicação social. Um bom professor tenderá a contribuir decisivamente para formar cidadãos social e humanamente mais responsáveis, mais atentos ao mundo em que vivem, capazes de se interrogar constantemente, de pensar «fora da caixa» e de tomar consciência das constantes mudanças de paradigma sociopolítico, cultural e científico da realidade criada pelos seus semelhantes.

O que mais a fascina no ensino?

O que mais me fascina no ensino universitário é a possibilidade de estar sempre em contacto com jovens adultos, de contribuir de algum modo, principalmente através da Literatura e dos respetivos contextos socioculturais e políticos em que as obras se inscrevem, para que olhem para a natureza humana e para o mundo de uma forma mais profunda, para lá da aparência. A literacia literária é de facto um dos antídotos mais eficazes contra a manipulação e o totalitarismo. Os alunos que sabem ler (e essa competência adquire-se através de exercícios apelativos de análise e de interpretação literária) tornam-se também mais capazes de compreender melhor o mundo em que vivem e, em particular, a Europa e o seu país. Desta forma, ficam igualmente mais aptos para perspetivar o futuro de modo mais consciente, mais inovadora, mais lúcida e civicamente mais responsável e empenhada.

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes do DLC?

Penso os cursos ministrados no DLC da UA oferecem uma excelente formação de base aos seus alunos, dotando-os de conhecimentos, de competências e de ferramentas que eles próprios poderão aprofundar individualmente nas vertentes que mais lhes interessarem. É preciso fazer com que os alunos tomem consciência de que a Universidade é só uma fase, obviamente muito importante, do longo processo de aprendizagem que terão de empreender ao longo da vida. O que a Universidade lhes deverá primordialmente ensinar é a aprenderem sozinhos, a serem capazes de desenvolver saberes e competências não só científicas, nos planos teórico e prático, mas também sociais e ainda de índole ética e deontológica.

Que grande conselho dá aos alunos?

Nunca deixem de sonhar! Como dizia o desassossegado Pessoa, «matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.». Aconselharia (e aconselho!) ainda os meus alunos a tirarem o máximo de partido desta fase tão interessante e vibrante da sua vida. Uma fase extraordinária de descoberta, com a grande instabilidade que esta acarreta a todos os níveis. Levá-los-ia a tomar consciência do enorme privilégio que é poderem dedicar-se a tempo inteiro ao estudo e à aprendizagem (não me estou a referir agora tanto aos trabalhadores-estudantes). Exortá-los-ia a aproveitarem ao máximo para alargar os seus horizontes. Dir-lhes-ia para se divertirem também muito, sem contudo nunca comprometerem a dignidade dos seus colegas, nem as expectativas, legítimas, dos seus pais, que decerto terão feito muitos sacrifícios para lhes poder proporcionar uma educação de nível superior. Aconselhá-los-ia muito vivamente a aprenderem sempre até morrer e a lutar sempre pelos seus sonhos. Recomendar-lhes-ia que fossem seres humanos e cidadãos humana e socialmente responsáveis e solidários e que estivessem sempre na linha da frente na luta contra a discriminação e a favor da dignidade da vida humana. E terminaria decerto esta série de conselhos com a leitura do seguinte poema do grande Miguel Torga, com quem tive o privilégio de privar durante muitos anos:

SÍSIFO

Recomeça…

Se puderes,

Sem angústia e sem pressa.

E os passos que deres,

Nesse caminho duro

Do futuro,

Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances

Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,

Vai colhendo

Ilusões sucessivas no pomar

E vendo Acordado,

O logro da aventura.

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

Onde, com lucidez, te reconheças.

(Miguel Torga, Diário XIII).

Houve alguma turma que mais a tivesse marcado?

Todos os meus alunos me deixaram marcas muito positivas. E todos os anos, no final de cada ano letivo,  tenho sempre uma triste sensação de perda. Mantenho contactos com muitos ex-alunos e faço os possíveis para aumentar essa rede de afetos todos os anos com os jovens que senti crescerem um bocadinho comigo, principalmente nas aulas de Literatura.

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula ou com estudantes?

Todos os anos tenho alunos que, de um modo ou de outro, me manifestam o seu carinho. Devo dizer que adoro ver o brilhozinho nos olhos deles nas aulas, perante um texto literário ou um aspeto específico que lhes toca de forma mais particular. Tive alunos (felizmente poucos) que me vieram inicialmente dizer que não tinham gostado de uma ou de outra obra literária prevista no programa. Contudo, depois de termos analisado as obras nas aulas, esses mesmos alunos sentiram necessidade de me vir dizer que, afinal, tinham gostado muito da obra relativamente à qual se haviam manifestado de forma disfórica. Muitos dos meus ex-alunos, na sua maioria professores do ensino secundário, ainda hoje me escrevem tratando-me por «minha querida professora». São manifestações de apreço e de carinho deste género que são, para mim, deveras gratificantes e que me fazem sentir que afinal terá valido a pena abraçar esta profissão. Não obstante alguns aspetos menos aliciantes da atual carreira académica universitária.

descrição para leitores de ecrã
Não passa sem uma leitura diária aos jornais. Preenche-se como voluntária numa IPSS que ajudou a fundar e que apoia grávidas com dificuldades económicas

Ocupação preferida nos tempos livres

Infelizmente, os tempos livres não são muitos. Presido, a título voluntário, a uma IPSS com Estatuto de Utilidade Pública, da qual sou também co-fundadora. Esta associação dá apoio a grávidas, grávidas adolescentes e puérperas em dificuldade e às respetivas famílias. Esta atividade de voluntariado preenche uma parte muito substancial do tempo que me resta para além das múltiplas atividades associadas à minha profissão como professora universitária. Nos meses mais quentes, adoro andar de bicicleta na Barra e na Costa Nova aos fins de semana.

O que não dispensa no dia-a-dia

A leitura da imprensa periódica nacional e internacional, que faço de forma um tanto desordenada, confesso. Gosto igualmente de ouvir os telejornais que começam nos vários canais de televisão às 21 horas. No momento em que começam a falar de futebol, mudo logo de canal e vou fazendo zapping.

O desejo que ainda está por realizar

Viajar, viajar, viajar...

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