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Opinião
Teresa Herdeiro, investigadora do Instituto de Biomedicina da Universidade de Aveiro (iBiMED-UA)
Menos antibióticos, mais saúde: uma intervenção educativa para melhorar a utilização de antibióticos em Portugal
Teresa Herdeiro
Se o consumo descontrolado de antibióticos é uma das principais razões para as elevadas taxas de morbilidade, mortalidade e custos em saúde associados às bactérias multirresistentes, afinal quem os prescreve, vende e toma está alertado para o problema? Na opinião de Teresa Herdeiro, investigadora do Instituto de Biomedicina da Universidade de Aveiro (iBiMED-UA), o alerta tem de ser mais sonante.

As infeções por bactérias resistentes são um importante Problema de Saúde Pública, com taxas elevadas de morbilidade, mortalidade e custos em saúde. A dificuldade de tratamento de infeções provocadas por bactérias resistentes aos antibióticos disponíveis no mercado parece ser um problema de difícil resolução nos tempos mais próximos, uma vez que não se tem verificado grande investimento pelas companhias farmacêuticas para o desenvolvimento de novos fármacos capazes de combater as infeções provocadas pelos microrganismos multirresistentes.

Os antibióticos têm sido utilizados com sucesso ao longo de várias décadas, no entanto cada vez surgem mais situações clínicas comuns difíceis de tratar devido à presença de bactérias resistentes. As resistências são um fenómeno natural que ocorre devido à pressão seletiva quando as bactérias estão em presença de antibióticos. Assim, o consumo inadequado destes medicamentos tem sido apontado como um dos principais responsáveis pelo crescente desenvolvimento de resistências. Vários estudos têm identificado a prescrição excessiva e a automedicação como principais responsáveis do uso inadequado de antibióticos. A resolução desta problemática não se esgota na prática clínica, sobressaindo a utilização de antibióticos na agricultura e na produção animal.

O estudo europeu realizado em 2013, Especial Eurobarometro 407, entre outros resultados, revela que os portugueses têm um baixo conhecimento em relação aos antibióticos e às resistências bacterianas, o que leva à utilização inadequada destes medicamentos, a população portuguesa continua a querer tomar estes medicamentos para tratar constipações e gripes. Isto faz com que exista uma grande pressão junto dos médicos para a prescrição destes medicamentos e junto dos farmacêuticos para a sua dispensa sem receita médica.

Tendo em conta a emergência das resistências microbianas e o declínio na taxa de desenvolvimento de novos fármacos, é fundamental que sejam desenhadas e implementadas estratégias envolvendo profissionais de saúde e população, de forma a promover o uso adequado destes medicamentos e preservar a sua atividade. 

Com o objetivo de melhorar o uso de antibióticos por parte da população em geral, foi realizado um ensaio controlado aleatorizado por cluster, através do desenho e implementação de intervenções educativas multifacetadas dirigidas a médicos de medicina geral e familiar e a farmacêuticos comunitários. O projeto envolveu uma revisão sistemática da literatura sobre atitudes e conhecimentos dos profissionais de saúde relativos à utilização de antibióticos e desenvolvimento de resistências microbianas; elaboração e validação de questionários, através da realização de grupos focais; realização de um estudo de coorte e de um transversal em médicos e farmacêuticos respetivamente, tendo nestes estudos sido identificadas como principais atitudes relacionadas com a prescrição e a dispensa, a complacência com o doente.

As intervenções educativas multifacetadas iniciaram-se com a discussão sobre o problema das resistências bacterianas, análise das atitudes identificadas nos estudos prévios, seguido da abordagem de estratégias de comunicação entre o médico e o doente ou entre o farmacêutico e o doente. Durante a intervenção, procedeu-se à divulgação de folhetos e posters educativos. O impacto da intervenção foi avaliado através da comparação dos dados de consumo de antibióticos pelo grupo controlo que não recebeu qualquer intervenção com o grupo intervenção, com valores ajustados aos valores de baseline. Verificou-se um impacto bastante positivo, de cerca de 4% na diminuição do consumo total de antibióticos, com especial impacto nas tetraciclinas (>15%), cefalosporinas (>7%) e macrólidos/ lincosamidas (>9%).

Os resultados deste projeto, (PTDC/SAU-ESA/105530/2008), financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, foram divulgados através de comunicações em vários congressos nacionais e internacionais assim como em diversos artigos científicos. O artigo, “Decreasing antibiotic use through a joint intervention targeting physicians and pharmacists: a cluster-randomized controlled trial”, desenvolvido pelos investigadores Maria Teresa Herdeiro, Fátima Roque, António Teixeira Rodrigues, Luiza Breitenfeld, Maria Piñero-Lamas e Adolfo Figueiras, foi premiado com o Prémio de Epidemiologia Clínica atribuído pela Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa com o apoio da Merck Sharp and Dohme, Portugal.

Este trabalho evidencia a importância do envolvimento dos profissionais de saúde, médicos farmacêuticos em intervenções que têm como objetivo principal melhorar o uso racional de medicamentos por parte da população.

 

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