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Entrevistas
Professora UA – Ana Cristina Esteves, Departamento de Biologia
Formar biólogos com sorrisos e paixão
Ana Cristina Esteves
Cultivar nos futuros biólogos a curiosidade, a autonomia e o sentido crítico. E descomplicar a Bioquímica, a Bioinformática, a Genética e a Microbiologia até levantar um espanto geral nos estudantes: “Afinal a matéria é simples!”. Professora no Departamento de Biologia (DBio) da Universidade de Aveiro (UA), é com o sorriso que leva para as aulas que Ana Cristina Esteves abraça há dez anos o desafio de explicar aos estudantes “a importância e a beleza” das moléculas dos organismos.

Licenciou-se e doutorou-se em Biologia no DBio. Foi durante o doutoramento, na área de especialização de Bioquímica, que Ana Cristina Esteves iniciou colaborações com investigadores estrangeiros, nomeadamente da Universidade de Strathclyde (Escócia) e, mais recentemente, da Universidade de Ghent (Bélgica), onde realizou estágios. Após o doutoramento dedicou-se à caracterização de enzimas microbianas com aplicação biotecnológica, sendo coinventora de uma patente.

A especialização em química de proteínas serviu de base para a sua atual investigação: o estudo da interação de fungos capazes de infetar plantas com os seus hospedeiros e como o meio ambiente pode influenciar essa interação. O objetivo desta investigação, explica a investigadora, “é, além de caracterizar os mecanismos de infeção, poder desenvolver novas ferramentas para o combate a estas doenças”. Nesse sentido Ana Cristina Esteves tem vindo a trabalhar na identificação de estratégias de controlo que sejam mais eficazes e mais seguras tanto para o meio ambiente como para o Homem.

Depois de uma passagem como professora pela Universidade Católica Portuguesa, é desde 2006 docente no DBio e investigadora em pós-doutoramento do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) da UA.

Qual é o segredo para se ser bom professor?

Essa é uma pergunta extremamente pertinente e para a qual não tenho resposta. Quanto muito tenho (algumas) opiniões…. E na minha opinião, além da (óbvia) preparação científica, o que faz um bom professor é o envolvimento com os alunos e a paixão pelo ensino.

Um bom professor deve estar perfeitamente à vontade com a matéria que pretende lecionar. Saber quais os conceitos que quer transmitir e fazê-lo de uma forma compreensível para os alunos. Afasto-me totalmente da tendência clássica de que o professor universitário deve ser formal, distante do aluno e praticar um discurso hermético. A correção e profundidade dos conteúdos não deve ser confundida com distância aos alunos ou com a utilização de jargão científico complicado e muitas vezes incompreensível. Não quero com isto dizer que se deva cair no facilitismo de não aprofundar os temas, e de se lecionar assuntos superficialmente e com conteúdos vazios. O equilíbrio é importante. Ao longo dos anos tenho verificado que os alunos – ao contrário do que muitas vezes se repete – gostam de aprender. Parece-me que este equilíbrio se atinge quando se leciona com envolvimento e gosto. Com a intenção de que, quem está à nossa frente, aprenda. Com vontade de que, no fim daquela aula, tenhamos feito um pouco de diferença. E de modo a que os alunos se entusiasmem com os assuntos que estão a ser lecionados.

O que mais a fascina na profissão docente?

O que mais me fascina na profissão docente é a capacidade de modelar (pelo menos um pouco) os cérebros dos alunos. É transformar um assunto que à partida é difícil para os alunos, desmontá-lo e, juntamente com eles, fazê-los perceber que (afinal) o assunto é fácil. É extremamente entusiasmante ouvir um “mas afinal era só isto?!” quando se está a explicar uma determinada matéria ou conceito. Leciono essencialmente cadeiras que lidam com temas da área da (bio)química a alunos que, na sua maioria, não estão predispostos a gostar da matéria. É um desafio explicar-lhes a importância (e a beleza) dessas temáticas. Fazê-los perceber que são as moléculas, e o modo como estas funcionam, que são responsáveis por todos os organismos pelos quais eles são apaixonados.

Outro grande desafio é espicaçar-lhes a curiosidade, a autonomia e o sentido crítico. Fazer com que tenham curiosidade em saber e em saber mais. Em questionar o que os rodeia. Em serem mais ativos. Muitas vezes os alunos chegam-nos com uma atitude demasiado indiferente. Esperam passivamente que lhes “entreguemos” matéria digerida e pronta a ser assimilada. Tento quebrar essa passividade e fazê-los pensar. Tento fazer com que perguntem “porquê?”. Tento fazer com que tenham sentido crítico sobre a matéria que lhes leciono de modo a desenvolver o espírito dos futuros cientistas.

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes nos cursos a que está ligada?

Na generalidade, considero a formação que é dada aos estudantes dos cursos aos quais estou ligada muito boa. A grande componente prática (sobretudo da Licenciatura em Biologia, que é a que conheço melhor) é uma grande mais valia para os nossos alunos.

Que grande conselho dá aos seus alunos?

Que sejam menos alunos e mais estudantes. Ou seja, que se envolvam, que participem, que sejam ativos e curiosos. Que não sejam passivos. Que não esperem que os professores lhes expliquem tudo. Que perguntem, que discutam, que estudem. Que sejam estudantes. E que durmam! Porque sem dormir a informação não é devidamente processada pelo cérebro.

Houve algum grupo de alunos que mais a tivesse marcado? Porquê?

Existem sempre alunos que nos marcam ao longo dos anos. Uns por serem mais expansivos, outros por serem excecionalmente bons alunos. Mas na generalidade, marcam-nos aqueles com quem criamos laços de afetividade. É extremamente recompensador reencontrar alunos que já acabaram os seus doutoramentos e que fazem questão de nos visitar apenas para nos cumprimentarem e falarem connosco.

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula ou com estudantes?

Uma das matérias que gosto muito de lecionar é o Curso Avançado em Comunicação e Escrita Científica que contará este ano com a sua 5ª edição. É um curso bastante intensivo que partilho com a Doutora Ana Sofia Duarte e em que nós, e os alunos, nos envolvemos muito. A avaliação do curso (que tem a duração de uma semana) inclui normalmente uma apresentação oral no final da semana. É o momento de “pânico” para a maioria dos alunos. Numa das edições, um dos alunos preparava-se para fazer a sua apresentação e estava extremamente nervoso à espera da sua vez. Mexia as mãos, não conseguia estar quieto, etc. Levantei-me e sem lhe dizer nada e ofereci-lhe uma caneta. Ele olhou para mim sem perceber e eu fiz-lhe sinal para que a segurasse. Chegou a vez dele e fez a sua apresentação, brilhantemente por sinal. No final da apresentação eu perguntei-lhe se ele sabia porque lhe tinha dado a caneta. Ele disse que não. Mas no preciso momento em que disse que não, apercebeu-se que tinha deixado de estar nervoso: tinha-se esquecido da apresentação e centrado a atenção na caneta. E por isso fez a sua apresentação com tanto êxito. Acho que nunca mais ninguém que se encontrava naquela sala se esquecerá do efeito que uma simples caneta pode ter.

descrição para leitores de ecrã
Açoriana, não dispensa uma visita anual à terra do verde e do azul. A Nova Zelândia fica para um destes dias

Traço principal do seu carácter

Assertividade

Ocupação preferida nos tempos livres

Leitura

O que não dispensa no dia-a-dia

Mais concretamente, o que não dispenso anualmente, uma visita às minhas raízes, onde o verde é mais verde e o mar mais azul: visitar os Açores.

O desejo que ainda está por realizar

É difícil escolher apenas um, mas gostava muito de conhecer a Nova Zelândia.

 

 

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