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Opinião
Ana Margarida Ramos, professora no Departamento de Línguas e Culturas
Em defesa da leitura e da educação literária: um direito e uma urgência
Ana Margarida Ramos
A leitura é um direito, uma urgência e deveria ser um folhear constante entre estudantes e professores. Acreditar e lutar por isso, defende Ana Margarida Ramos, professora no Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro (UA), é salvarmo-nos enquanto Humanidade, resistir e (re)acender a luz da esperança.

Enquanto experiência decisiva para a formação do indivíduo, para a sua construção mental e cognitiva, mas também emocional e afetiva, a leitura, e em particular a leitura literária constitui uma das atividades humanas mais ricas e mais desafiadoras. Capaz de transportar o indivíduo para fora dos seus limites e constrangimentos (temporais, espaciais, sociais, culturais, religiosos...), o universo literário abre uma imensidão de portas, a partir das quais muitas outras se voltam a abrir também, possibilitando-lhe uma experiência rica, diversificada e multiforme da existência humana.

A literatura é, ainda, resistência e combate, fuga e memória, ocupando um papel relevantíssimo na construção da identidade cultural dos povos, na afirmação de línguas e culturas, na definição de padrões estéticos que têm servido de modelo e de referência à Humanidade ao longo de milhares de anos.

A escola tem um papel inalienável na formação de leitores, em particular os leitores literários, funcionando como uma referência e exemplo. A formação de leitores literários exige professores competentes e conhecedores das especificidades do sistema literário, além de portadores de uma sólida “bagagem” de leituras. A questão do professor leitor como pré-requisito básico para a formação de leitores, apesar de insistentemente referida por vários estudiosos, não é ainda uma realidade. Aidan Chambers (2011), por exemplo, é perentório na enumeração de um conjunto amplo de leituras que têm de ser realizadas pelo professor com vista à sua preparação pessoal e profissional sem as quais não poderá funcionar como um exemplo/modelo de leitor, capaz de orientar e acompanhar os alunos na construção de um projeto/percurso pessoal de leitura.

Uma sólida formação literária, em termos teóricos, pressupõe, como o sublinha reiteradamente Cerrillo (2010), o conhecimento de um cânone de leituras literárias, à margem do cânone escolar, mas também a contextualização histórica da literatura, a sua evolução e os mecanismos editoriais que a regem, para além do conhecimento do processo leitor e das habilidades que facilitam a leitura.

Uma vez que a competência literária só pode ser constatada a partir dos efeitos que a mensagem literária provoca no leitor, o seu processo de desenvolvimento exige uma postura ativa por parte do leitor, para além de um trabalho continuado e inacabado.

Complexa e abrangente, a competência literária resulta de um conjunto muito amplo de conhecimentos e dimensões que, perante os estímulos textuais, se ativam e atuam na compreensão, apropriação e fruição do objeto literário. Entre eles encontram-se as competências linguísticas de vária ordem, conhecimentos sobre o universo literário, as suas regras, estruturas, sistema e convenções, conhecimentos intertextuais, semióticos, culturais e simbólicos. A sua mobilização simultânea resulta numa das tarefas cognitivamente mais complexa de que há conhecimento, mas também emotiva e humanamente enriquecedora. Vedar o acesso a essa experiência é limitar a existência, para além da liberdade.

Entender a leitura literária como um direito e uma urgência (e defender a sua presença assídua e quotidiana na sala de aula) é, acreditamos, resgatar esse reduto de humanidade, acender a esperança e partilhar um prazer único e raro.

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