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Opinião
Alexandra Monteiro, investigadora da UA, escreve sobre poluição do ar por partículas
Pode um dia de frio soalheiro ser um risco para a saúde?
Alexandra Monteiro explica riscos associados aos dias frios e soalheiros e ao uso de lareiras
O título pode parecer caricato e alarmista mas, na verdade, não é só provocador. Alexandra Monteiro, investigadora da Universidade de Aveiro (UA), explica como a conjugação das atuais condições atmosféricas e do tão comum hábito de acender a lareira em casa para resistir ao frio, pode gerar situações de risco para todos.

Nos últimos dias o frio foi notícia nos mais variados meios de comunicação, sobretudo devido à descida acentuada das temperaturas médias e mínimas. E o que valeu foi que o sol espreitou em força, tornando estes dias bastante soalheiros.

Estes dias frios de inverno (cheios de sol e com pouco vento) estão geralmente associados a condições meteorológicas caracterizadas por uma grande estabilidade atmosférica que favorecem a fraca dispersão dos poluentes e a sua acumulação. Por isso será fácil de perceber que se juntarmos a estas condições grandes emissões de poluentes para a atmosfera teremos a receita ideal para um problema grave de má qualidade do ar com riscos para a saúde humana.

E o esperado, aconteceu. Foram várias as estações de qualidade do ar espalhadas pelo país que mediram ao longo dos últimos dias concentrações de partículas bastante superiores aos valores limite estipulados pela legislação para a proteção da saúde humana. A estação de monitorização de Aveiro foi uma das que registou várias ultrapassagens ao valor limite diário de 50 ug.m-3, com valores superiores a 80 ug.m-3 (http://qualar.apambiente.pt).

Importa, então, saber que fontes emissoras são estas que, na presença destas condições meteorológicas, são responsáveis por uma deterioração grave da qualidade do ar. Provavelmente o senso comum apontaria imediatamente o dedo à indústria e/ou aos transportes. No entanto, os picos de partículas registados durante o período noturno sugerem-nos que a causa e a fonte emissora está bastante mais perto de nós, ou pelo menos de alguns de nós. E nem precisamos de sair de casa.

De facto, são já vários os estudos que revelam que, em alguns municípios, mais de 40% da matéria particulada emitida pela atividade humana provém da combustão residencial, nomeadamente das nossas acolhedoras lareiras. Este valor tão elevado é explicado pelas condições pouco ideais e não certificadas em que se dá esta queima (combustão incompleta; combustível com impurezas; etc).

Significa isto que deveremos deixar de acender a nossa acolhedora lareira?

Até chegar a esta atitude radical, há várias medidas que podemos tomar sem comprometermos o nosso conforto. A primeira pode começar na escolha da biomassa usada na queima, existindo opções no mercado, como pellets, que possibilitam a redução acentuada da emissão de partículas. A substituição ou adaptação da lareira convencional por uma instalação certificada é outra. E, ainda, a escolha dos dias mais indicados para a acender também estará sempre ao alcance da nossa decisão (e da previsão meteorológica).

Votos de um excelente conforto térmico sustentável!

 

Alexandra Monteiro

Investigadora no Grupo de Emissões, Modelação e Alterações Climáticas (GEMAC)

CESAM, Departamento de Ambiente e Ordenamento, Universidade de Aveiro

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