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Investigação
Investigação de Mariana Mota, formada em Ecologia Aplicada
Jovem bióloga da UA estuda primatas em África
Mariana Mota no Parque Nacional das Quirimbas
Foi um ano inesquecível em Moçambique e seis os meses em que Mariana Mota esteve embrenhada no Parque Nacional das Quirimbas (PNQ), a estudar primatas. De Moçambique, trouxe não só os dados que lhe permitiram terminar o Mestrado em Ecologia Aplicada com nota 20, mas também recordações para o resto da vida da recém formada em Ecologia na Universidade de Aveiro (UA). “Tive a sorte de trabalhar em lugares de paisagens invulgares, com uma beleza única e uma fauna e flora extraordinárias”, reconhece.

Em 2014 rumou a Moçambique com uma missão nas mãos: estudar a densidade de três espécies diurnas de primatas não-humanos, presentes em Moçambique, mais especificamente no PNQ, o babuíno (Papio cynocephalus), o macaco azul (Cercophitecus albogularis) e o macaco-de-cara-preta (Chlorocebus pygerythrus). Um trabalho final do mestrado em Ecologia Aplicada do Departamento de Biologia (DBio) com que Mariana Mota tinha sonhado e cuja oportunidade de o realizar abraçou de alma e coração.

Parte do coração da jovem bióloga ainda está em Moçambique. As recordações estão ainda à flor da memória. “É difícil falar em apenas uma imagem quando o PNQ e Moçambique nos enchem com tantas boas recordações”, confessa. Mas o principal foram as pessoas. “Sempre disse que as pessoas fazem o lugar, mas em Moçambique e principalmente no PNQ essa frase ganhou outra cor. Uma das imagens que levarei sempre comigo, é o sorriso mais sincero e genuíno do mundo, daqueles que não tendo nada têm tudo e dão tudo sem pedir nada em troca”, recorda.

No dia 9 de dezembro de 2014 registou este momento no seu diário: “Era já de noite, aqui escurece cedo, 17h30, mais coisa menos coisa. Tínhamos deixado Taratibu e parado na aldeia. Enquanto a música do carro tocava este ficou cercado de crianças, como é costume. Mas, desta vez, havia música bonita para se dançar. E eis que na escuridão da noite, com uma lua cheia, gigante e brilhante, Mariana e as crianças da aldeia começaram a dançar livres, felizes e com um sorriso gigante e sincero estampado no rosto!”.

Trabalho inesquecível

“A vontade de contribuir para a conservação de espécies num país rico em paisagens selvagens, únicas, de uma enorme diversidade de habitats, fauna e flora e pobre no que toca ao desenvolvimento e investigação tornou-se o princípio base deste trabalho”, lembra Mariana Mota. A luz verde de embarque para o trabalho de campo surgiu através da parceria que o PNQ tem com a Faculdade de Ciências Naturais da Universidade Lúrio (UniLúrio) que, por sua vez, tem estreitas ligações ao DBio da UA.

“A escassa informação sobre mamíferos de médio e grande porte nesta área protegida e a nossa preferência por estudar primatas não-humanos, ordem de mamíferos que exerce um papel fundamental na estrutura e função do ecossistema e que sofre sérias ameaças nas florestas tropicais africanas tornaram-se as principais razões da escolha deste tema”, aponta.

Dar novas respostas sobre o que ocorre numa área protegida que é cientificamente pouco explorada, poder contribuir para futuros planos de conservação e gestão deste e de outros parques nacionais, recolher dados sobre espécies de primatas localmente pouco ou nada estudadas e realizar o primeiro estudo dedicado à densidade de primatas existente no PNQ, aponta a jovem bióloga, “foram as principais vantagens que nos fizeram seguir em frente”.

Apesar de todos os contratempos e limitações inerentes às condições de um país em desenvolvimento e da Universidade Lúrio ser bastante jovem e estar ainda em crescimento, Mariana Mota conseguiu “superar todas as dificuldades, atingir os objetivos propostos e ainda colaborar ativamente” com aquela academia moçambicana.

Viveu entre Pemba (a cidade base) e Taratibu e Mareja (as suas duas áreas de estudo no PNQ). Em Pemba, deu aulas, ajudou na organização de eventos, participou no crescimento e organização do Laboratório de Biologia e na Sala de Coleções da UniLúrio, preparou as suas saídas de campo, correu atrás de financiamentos para apoiar as aldeias que a receberam no mato e os fiscais que trabalharam diretamente com ela. Em Taratibu e Mareja, em plena mata africana, passou por desafios constantes, dificuldades, conquistas e muita aprendizagem debaixo de um sol forte e quente e muitas noites de fogueira e luz da lua.

Uma reserva de valor inestimável

Para a Ciência e para a sua tese de mestrado ficam os dados recolhidos pela Mariana que apontam que as densidades estimadas de cada uma das espécies estudadas revelam ser mais elevadas em Mareja do que em Taratibu, área caracterizada pela presença de inselbergs (afloramentos rochosos de granito).

No total das duas áreas de estudo, as estimativas da densidade de cada espécie quando comparadas com as obtidas no único estudo geral sobre a densidade de mamíferos presente no PNQ, revelaram ser mais elevadas. Uma vez que o método utilizado no trabalho, explica, “permitiu uma maior facilidade na visualização direta de primatas e um maior número de indivíduos avistados, podemos concluir que os valores de estimativas de densidade obtidos poderão ser mais fiáveis que os obtidos anteriormente para esta zona”.

As densidades obtidas quando comparadas com outros estudos mostram ser mais elevadas no caso dos babuínos, o que poderá fazer do PNQ uma área de valor inestimável e de grande importância para a conservação desta espécie, e mais baixas no que toca aos macacos azuis, o que poderá indicar um declínio desta população. Relativamente aos macacos-de-cara-preta, ainda que o número de avistamentos tenha sido reduzido, a estimativa da densidade obtida segue a tendência de estabilidade da população.

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