conteúdos
links
tags
Entrevistas
Antiga aluna UA – Giane Vargas, Programa Doutoral em Estudos Culturais
Do Brasil para a UA, desbravando horizontes e consciências
Giane Vargas
Ativista dos direitos da população negra e especialista em Museologia, Giane Vargas Escobar recebeu em 2014 o International Museum Prize Winner 2014 pelo trabalho à frente do Museu Treze de Maio, no Rio Grande do Sul. A notícia da distinção, que reconheceu o papel do Museu em prol da divulgação, promoção e preservação da história e cultura africana e afro-brasileira daquele estado brasileiro, encontrou-a já na UA, estudante no Programa Doutoral em Estudos Culturais. Da academia a atual docente na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, recorda com saudade uma casa que “superou todas as expectativas”.

Ao Programa Doutoral em Estudos Culturais do Departamento de Línguas e Culturas, a vencedora do International Museum Prize Winner juntará em breve mais um doutoramento, desta vez em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (Brasil), instituição onde terminou, em 2010, o Mestrado em Património Cultural.Graduada em Letras e com Especialização em Museologia, foi  com a juada de todas as diferentes áreas que tem abraçado ao longo de 48 anos de vida que Giane Vargas desenvolveu “ um olhar multidirecionado” para a vida. “É um desafio, pois inquietam-me as inúmeras possibilidades de interpretações e visões de mundo. Ao mesmo tempo, esta formação multifacetada permitiu que eu me deparasse com temas ligados ao patrimônio afro-brasileiro, mulheres negras e a Museologia Social e Comunitária”, reconhece.

Quais os motivos que a levaram a estudar na Universidade de Aveiro?

O Programa Doutoral em Estudos Culturais da UA é um dos poucos existentes no mundo. A possibilidade de conhecer pessoas e culturas diferentes, ultrapassando as fronteiras do país, aprendendo cada vez mais a lidar com os desafios de enfrentar o desconhecido, instigou-me a tomar a decisão de passar nove meses fora do Brasil. Sou aluna da primeira turma do Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria (POSCOM-UFSM). Um dos objetivos do POSCOM é promover a internacionalização do corpo docente e discente. Nesse sentido, a bolsa de doutorado sanduíche no exterior, financiada pela CAPES, foi um estímulo e viabilizou o meu estágio doutoral na UA.

Minha orientadora, a Profa. Dra. Ana Luiza Coiro Moraes, havia feito um primeiro contato com o PDEC no ano de 2013, quando apresentou artigos no IV Congresso Internacional em Estudos Culturais. A internacionalização, além de enriquecer a minha bagagem cultural, ampliou o aporte teórico-metodológico da minha investigação e permitiu o desenvolvimento de projetos e programas conjuntos, o intercâmbio de ideias e a mobilidade de professores e alunos da UA e da Universidade Federal de Santa Maria, trocando saberes e ampliando as redes de contatos. No ano de 2015,  minha supervisora de estágio na UA, Profa. Dra. Maria Manuel Baptista, esteve no Brasil como convidada palestrante do ALCAR, o 10º Encontro Nacional de História da Mídia. Neste ano de 2016, eu e minha orientadora tivemos um artigo aprovado no V Congresso Internacional de Estudos Culturais: Gênero, Direitos Humanos e Ativismos, que acontecerá em setembro, em Portugal. Fiquei imensamente feliz, quando ainda estava em Portugal, por ter a oportunidade de contribuir com outras académicas negras brasileiras que também desejavam realizar um estágio no exterior, descobrindo caminhos para uma possível experiência internacional.

O Doutoramento correspondeu às suas expectativas?

Sim, o Doutoramento superou as minhas expectativas. Fui muito bem recebida pelos colegas, técnicos e professores do Programa. Além disso, cursei todas as disciplinas e envolvi-me na criação e nos debates do Núcleo de Estudos de Gênero, o que foi profundamente enriquecedor e possibilitou um maior entrosamento e engajamento do início ao fim do estágio doutoral. Sinto muita saudade dos colegas que conheci na UA, das nossas discussões e debates. Na UA conheci também algumas integrantes do Movimento Democrático de Mulheres de Aveiro (MDM) e histórias de avanços, superação e de resistência das mulheres na sociedade portuguesa.

E a UA?

A jovem UA é um lugar cheio de vida, um mosaico de diferentes identidades, um lugar que acolhe alunos de várias partes do mundo.  Nessa Universidade tive oportunidade de morar na residência de estudantes, conviver e perceber a diversidade cultural  e geracional em que estava inserida, ao conhecer estudantes do Timor Leste, Estados Unidos, Etiópia, Argélia, Japão, Espanha, Irão, China, Angola, Moçambique, São Tomé, França, Índia, Suécia, Portugal e até mesmo de outros Estados do Brasil, etc. Acredito que esta é uma das maiores  riquezas de uma experiência internacional e  mesmo quando não se domina todos os códigos do vários idiomas com os quais me deparei, percebi que a Comunicação é possível, desde que se queira. Entretanto, também acredito que é preciso investir no aprendizado de línguas estrangeiras no Brasil para que a nossa capacidade de diálogo seja ampliada.

Pode dar-nos uma breve descrição do trabalho que realizou na UA?

Na UA participei ativamente de todas as atividades e eventos promovidos pelo Programa Doutoral em Estudos Culturais (abril a dezembro 2014), colaborando no planejamento, organização e criação do Núcleo de Estudos de Gênero, reafirmando a necessidade de incluir as questões étnico-raciais e discursos racistas como um dos temas centrais a serem abordados nas discussões do grupo. Participei ainda de encontros individuais com a Supervisora de Estágio, Profa Dra Maria Manuel Baptista; encontro quinzenais coletivos para apresentação dos escritos da tese; apresentação e publicação de trabalhos em eventos da área; além do trabalho como investigadora voluntária na Agência de Comunicação IRENNE, a Associação de Investigação, Prevenção e Combate à Violência e Exclusão; participei ao final, de sessão pública para apresentação do meu Relatório Final de Estágio Doutoral. Este período de estágio doutoral permitiu o aprofundamento teórico-metodológico, sendo que as atividades propostas no Plano de Trabalho além de serem cumpridas foram ampliadas e possibilitaram dominar técnicas de pesquisa importantes para as conclusões finais da tese.

O que mais a marcou na UA?

Foi muito importante para mim estar em contato com as atuais discussões teóricas no campo dos Estudos Culturais, aprendendo muito com a experiência, as discussões e o confronto de ideais de pesquisadores que trabalham temas que estão nas margens, produzindo saberes e reflexões inter, multi e transdisciplinares, com um olhar diferenciado sobre o conceito de cultura e humanidade. Foi também muito significativo e importante conhecer um grupo de estudantes de Pós-Graduação, Professores do Timor Leste: Maria Costa, Pedro Correia e Martinho Martins. Ter a oportunidade de conviver com este grupo na UA e ouvir suas histórias de superação foi fascinante. Apesar de todas as intempéries do passado e sua recente história de independência de Portugal e invasão da Indonésia em seu País, sempre me mostraram uma visão positiva de enfrentar a vida. Guardo na lembrança e no coração as palavras de Maria, num dia muito frio, na casa de estudante, no Bloco 4, em que ambas estávamos com muita saudade de casa, ela dizia: “Ora ficar triste! Na tristeza é muito pior!”. Maria, uma mulher admirável, que literalmente pegou em armas na luta pela independência de seu país, mulher de garra e muita fibra e que hoje faz seu Pós-Doutorado na UA. Foi marcante também conhecer pessoalmente a escritora moçambicana Paulina Chiziane, ter a oportunidade de ouvir o pensamento de uma mulher negra africana abordando temas como racimo e o neocolonialismo em África, numa universidade portuguesa, foi mesmo descolonizador. Segundo Chiziane (2014) “Enquanto para alguns a língua portuguesa é um instrumento científico, para mim é um instrumento de trabalho que tenho que dominar a todo custo e essa língua que veio com o colonialismo, algumas vezes nos inferioriza”. Assim, ela me ensinou que “É preciso descolonizar a língua portuguesa para que essa seja de fato uma língua que dignifique os povos e o saber africano”.

Sempre soube a profissão que queria seguir?

Não. A minha escolha profissional foi uma construção, um processo a partir das vivências e das pessoas que me inspiraram ao longo da minha caminhada. Foi fundamental ter referências negras positivas que fizeram com que eu me direcionasse para a área da Museologia. No Brasil, um país que se autodeclara de maioria negra e faz disso seu cartão de visita para o turismo e benefício de alguns, lamentavelmente, os espaços de poder em todas as instâncias, em especial na área de educação, escolas da rede pública e universidades são restritos a uma maioria branca e mesmo com a política de cotas raciais para o ingresso no serviço público, as desigualdades entre negros e brancos na sociedade brasileira é uma realidade. Nesse sentido, tive uma única professora negra ao longo de mais de uma década de estudos em escola pública, entre o ensino fundamental e médio. De 1982 a 1984 fui aluna da Professora Djalmira de Freitas Rosa (Deja Rosa), uma artista plástica incrível que ministrava o curso técnico de Arte Decorativa, na Escola Estadual de Ensino Médio Cilon Rosa, em  Santa Maria. Aí está a origem da minha escolha profissional circular pela área das Artes, das Letras, da Museologia e da Comunicação.

Como descreve a sua atividade profissional?

Atualmente sou Professora do Curso de Bacharelado em Museologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É uma alegria e satisfação atuar como docente em uma das melhores universidades do país e ter alunos que se dedicam de forma exemplar, comprometida e engajada com a futura profissão que escolheram, a Museologia. O meu trabalho envolve temas que dizem respeito à conservação e preservação do patrimônio material e imaterial. Nesta perspectiva, precisamos pensar nas formas de guardar e preservar para depois, objetos e histórias que façam sentido para a pessoas, que as representem. Isto é um desafio, pois lidar com estas dimensões do patrimônio não é tarefa simples, pois envolve as relações de poder. O importante é ter em mente que cada grupo, cada segmento de nossa sociedade é que precisa definir o que quer guardar e de que forma se sentem representados, respeitando o protagonismo e a capacidade criativa dos grupos. Tenho cada vez mais certeza da escolha profissional que fiz e espero em breve estar no quadro efetivo de professores de qualquer universidade deste país.  


O que mais a fascina na sua atividade profissional?

A possiblidade de dialogar, trocar, compartilhar experiências, questionar e ser questionada.  É um exercício diário e um aprendizado constante, conforme nos ensina bell hooks, em Ensinando a Transgredir, “[...] celebro um ensino que permita as transgressões – um movimento contra as fronteiras e para além delas. É esse movimento que transforma a educação na prática da liberdade”.

Que competências adquiridas na UA entende terem sido fundamentais para o exercício da sua atual atividade?

Algumas palavras-chave são fundamentais no meu exercício profissional e que foram reafirmadas e reforçadas na UA: desconstruir ideias pré-concebidas, descolonizar o pensamento, desnaturalizar estereótipos; aprender e ensinar com afeto. Fazer parte do Programa Doutoral da Universidade de Aveiro-Minho foi enriquecedor e me permitiu perceber melhor os entrecruzamentos entre gênero-raça-comunicação, que escolhi abordar em minha tese, reafirmando a necessidade de uma vigilância e combate incisivos frente às desigualdades que ainda permanecem em nossa sociedade. Acredito que as mudanças estão em curso e a universidade tem um papel social e educativo de extrema importância na formação de novas consciências.

 

imprimir
tags
outras notícias