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Entrevistas
Lucília Santos, coordenadora do Concurso M23 na UA (candidaturas até 29 de abril)
Concurso M23 traz para a UA bons alunos que conseguem novas oportunidades
Lucília Santos
Já estão no mercado de trabalho ou à procura de novas oportunidades de emprego, têm filhos, vivem no distrito de Aveiro e querem mais, muito mais conhecimento, muitas mais competências profissionais. Este é o retrato geral dos estudantes que têm ingressado na Universidade de Aveiro (UA) pelo concurso especial para públicos maiores de 23 anos (M23) e que, na sua maioria, se revelam bons alunos. Em entrevista, Lucília Santos, professora no Departamento de Física e coordenadora do concurso que tem a 2ª fase de candidaturas a decorrer até 29 de abril, assegura que também a academia de Aveiro “cresceu e melhorou” com a presença dos estudantes M23.

Este ano assinalam-se 10 anos de vida do concurso M23 na UA. Que balanço faz deste período?

Um balanço positivo. Quer pelos testemunhos dos alunos e ex-alunos M23, quer dos seus colegas e dos docentes. Encontram-se testemunhos identificando obstáculos, como seria de esperar, e muitos com grande enfâse nas mais-valias de terem sido alunos/professores dos “M23”. Estes testemunhos, recolhidos em dois projectos de investigação, permitiram identificar recomendações para apoiar a Universidade no processo de organização para promover o melhor acolhimento e o sucesso dos seus alunos. Na minha perspectiva, isto significa que Universidade cresceu e melhorou com este Concurso, como é seu hábito e prática ao lidar com situações novas.

No Balcão Único M23, localizado na Uinfoc, temos assistido, por um lado, à evolução do perfil dos candidatos - reflectindo a situação económica e financeira que todos conhecemos - e, por outro, temos registado o envolvimento empenhado dos diferentes actores no processo bem como a visibilidade que este Concurso tem trazido à Universidade de Aveiro.

A presença destes alunos nas salas de aula contribuiu também para uma evolução nas metodologias de ensino e para uma aproximação da aprendizagem ao contexto de trabalho.

Quantos estudantes que chegaram à UA através do concurso M23 já formou a academia?

Dos 1067 alunos que ingressaram em cursos da Universidade de Aveiro desde o ano lectivo de 2006-2007, estão formados 273 – com diploma ou com um ciclo de estudos terminado. Os candidatos foram muito mais, mas o processo de acesso, o número de vagas disponíveis e a capacidade logística e de docência, limitam o número total de candidatos aptos e o número de inscrições em grau.

Dos 1067, 16 entraram no ano lectivo de 2012-2013 tendo concluído o 1º ciclo em três anos, efectivamente. Como exemplo deste grupo temos um licenciado em Design, com 52 anos de idade. Dos que 176 entraram a partir do ano lectivo de 2013-2014, ainda nenhum concluiu grau, claro. A taxa de conclusão por ano de matrícula, à data, varia entre os 17 e os 42 por cento.

Como caracteriza estes estudantes?

A esmagadora maioria tem residência na zona geográfica envolvente a Aveiro e às Escolas. A maioria destes estudantes (75 por cento) tem trabalho, família (65 por cento) e filhos (61 por cento). 36 por cento voltou a estudar após um afastamento de entre 3 a 10 anos do sistema educativo, 32 por cento estiveram afastados entre 11 e 20 anos, e 21% mais de 20 anos. É, pois, uma realidade de vida muito diferente da dos estudantes que entram pelo contingente geral. A maior parte opta por um regime de estudante a tempo inteiro, apesar de estarem a trabalhar, e esta é mesmo uma caraterística única na Europa: em todos os outros países a maioria dos estudantes não tradicionais opta pelo estatuto de regime de tempo parcial. Têm sido maioritariamente masculinos, embora a diferença seja muito pouca – 16 por cento no máximo, ocorrida em 2006. Nos anos seguintes a diferença foi diminuindo e inverteu-se em 2011, situação que voltou a registar-se em 2015. A maioria tem entre 30 e 40 anos, seguindo-se de perto o grupo dos mais novos (23 a 29) e, como é sabido, temos alunos com mais de 50 anos (alguns com mais de 70), mas esta distribuição não é estática – regista-se evolução na distribuição dos alunos matriculados pelos grupos etários, ao longo dos anos.

Que expectativas trazem à chegada à UA?

Analisando os motivos pelos quais decidiram regressar ao sistema educativo e escolher um determinado curso variam com a idade, embora todos os grupos etários refiram mais fortemente o interesse pelo conhecimento, a vocação, seguido pela aquisição de competências profissionais. A seguir surge a procura de novas oportunidades de emprego e o aumento da empregabilidade, para os mais jovens, e o prestígio da instituição, para o grupo de maior idade.

Essas expectativas são satisfeitas?

Em relação às expectativas, directamente ligadas com os motivos, os testemunhos recolhidos demonstram que sim, são satisfeitas, na maioria dos casos. Os alunos e ex-alunos M23 sublinham mesmo que, apesar de começarem o percurso universitário relativamente mais tarde, rapidamente adquirem mais consciência e atenção à realidade que os rodeia, desenvolvem atitudes críticas e agilidade no pensamento.

Há, claro, obstáculos que são identificados e que, na maioria das vezes, estão relacionados com as condições económicas de cada um e com o tempo disponível, exigindo perícia para que seja possível conciliar com sucesso o triângulo estudo-família-emprego. O intervalo de tempo em que estiveram afastados do sistema educativo introduz também dificuldades, seja porque esqueceram conceitos fundamentais, seja porque estão em turmas com colegas muito mais novos e as diferenças de comportamento/atitude se tornam relevantes, ou porque necessitam de readquirir hábitos/técnicas de estudo.

Que cursos são por norma mais procurados?

Os cursos que procuram não estão muito relacionados com a profissão: até 2009 a relação era de 48 por cento profissionalmente relacionado para 52 por cento não relacionado. A partir daí o peso da profissão foi diminuindo na escolha do curso, atingindo o valor mais baixo, de 30 por cento, em 2011, mantendo-se essa tendência actualmente. Pelas próprias motivações que os alunos exprimem, os Cursos têm estado mais relacionados com a vontade de saber e a promoção de auto-estima. No entanto há quem, de facto, procure uma certificação universitária para progredir na carreira, ou estabelecer-se por conta própria. As áreas mais procuradas são: as Ciências Sociais, Saúde e Comércio (cerca de 44 por cento), depois Educação, Artes, Humanidades e Serviços (34 por cento), e Ciências Naturais, Matemática e Engenharia (22 por cento). Ao longo do tempo tem havido oscilações nos cursos procurados. Este ano, os mais solicitados foram Contabilidade a Distância e Pós laboral, Línguas e Relações Empresariais, Administração Pública, Gestão Comercial, Enfermagem e Psicologia. Houve anos em que o curso de Novas Tecnologias de Informação foi o mais procurado, assim como Técnico Superior de Justiça (agora extinto). As áreas de Gerontologia e Fisioterapia também têm tido bastante procura.

O processo de acesso do Concurso M23 é rigoroso (ficam aptos cerca de 60 por cento dos candidatos admitidos) e, uma vez aptos, a matrícula não é automática. O número de vagas disponíveis para este Concurso é limitado superiormente e externamente à Universidade logo, por aí, não podemos alargar mais o acesso a este público, como gostaríamos, pois todos os anos há candidatos aptos que não são colocados. Em geral candidatam-se nos anos seguintes, mas este compasso de espera não é motivador nem beneficia ninguém. Por outro lado, como já referi, a Universidade não tem capacidade logística e de docência para acolher, em alguns cursos, todos os candidatos que ficam aptos em cada ano.

E como tem sido o aproveitamento académico destes estudantes?

Estes alunos, uma vez concretizado o ingresso na Universidade, revelam-se bons alunos: 54 por cento tem classificações entre os 13 e os 15 valores, 33 por cento entre os 10 e os 12 valores, e 7 por cento entre os 17 e os 20 valores. Regista-se uma taxa de reprovações, por UC, de 6 por cento. Esta distribuição não é homogénea nos diferentes grupos etários, observando-se que são os e maior idade que têm melhores classificações. São, portanto, elementos valiosos para Universidade e bons embaixadores, daí que gostássemos de poder aumentar o seu número.

Facilmente se constata que muitos dos alunos que entram via M23 demoram muito tempo a concluir o Curso. Este facto, que não é exclusivo deste grupo, radica frequentemente na história de vida dos alunos. A transição de uma vida familiar e de trabalho para outra que inclui também a frequência de um curso universitário, acrescenta desassossegos relacionados com a fragilidade de bases científicas e o afastamento de técnicas de estudo, associadas a ajustes na gestão do tempo e na conciliação de responsabilidades.

No sentido de melhor preparar os candidatos para terem sucesso, que ferramentas dispõe a UA?

Para melhor preparar os candidatos para terem sucesso, quer no acesso, quer na frequência dos seus graus académicos, a Universidade foi desenvolvendo sessões de preparação, que agora constituem um Curso de Formação – o PreUA – que, numa interacção de vários Departamentos, inclui competências científicas nucleares dos cursos a que se candidatam, de literacia linguística e transversais (de estudo, sociais e financeiras). Pretende-se, assim, ir ao encontro dos obstáculos identificados por alunos e docentes, e abrir a todos os alunos da Universidade a possibilidade de frequentarem a formação.

Este Concurso, e a procura que tem tido, só são possíveis pela intervenção de funcionários (nomeadamente nos diferentes Serviços e na Uinfoc) e de docentes (que sempre estiveram presentes para assegurarem a formação, elaborarem as provas de conhecimento e constituírem os júris das entrevistas e análise curricular) e pelo carinho que a Reitoria sempre manifestou, também, pelos candidatos M23. 

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