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Entrevistas
Professor UA – José Lapa, Departamento de Engenharia Civil
Paixão pelo ensino e enorme experiência profissional ao serviço dos estudantes
José Lapa
Vive e respira Engenharia Civil dentro e fora da Universidade de Aveiro (UA). Professor no Departamento de Engenharia Civil (DECivil), José Lapa nunca deixou de exercer a sua paixão em várias empresas de projetos e de construção civil. “A Engenharia Civil tem uma grande componente técnica e, por isso, a formação dos futuros engenheiros sem a mais valia da transmissão de conhecimentos adquiridos pela experiência no exercício da profissão é, a meu ver, insuficiente”, diz sem dúvidas. A experiência profissional do corpo docente é mesmo um dos segredos para a formação no DECivil ser “seguramente das melhores a nível mundial”.

Professor de várias cadeiras do Mestrado Integrado em Engenharia Civil e da Licenciatura em Reabilitação do Património, José Lapa chegou ao DECivil no ano letivo de 2000/2001. Em 2005 escolheu dedicar-se apenas à academia de Aveiro, após ter completado um quarto de século de ensino na Universidade de Coimbra (UC).

Licenciado em Engenharia Civil (1981) pela UC, ano a partir do qual começou a lecionar naquela academia, e mestre em Engenharia Estrutural (1987) pela Universidade do Porto, em 1992 iniciou os estudos para doutoramento no University College London. No entanto, por falecimento do seu orientador em 1994 e por impossibilidade de continuar no mesmo tema, apenas obteve um grau de pós-graduação em Demolições por explosões controladas.

Paralelamente às funções de docente, José Lapa exerceu sempre a atividade profissional enquanto engenheiro civil, estando inscrito na Ordem dos Engenheiros desde a sua formatura e tendo sido sócio e gerente de várias empresas de projetos e de construção civil. José Lapa exerceu ainda várias funções ligadas à informática aplicada, especialmente com a Autodesk. O docente do DECivil teve, inclusive, duas patentes nacionais de programas de projetos de estruturas e de gestão e direção de obras de engenharia civil, comercializados durante cerca as últimas duas décadas do século passado.

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes no DCivil?

A formação nas duas escolas a que estive e estou ligado é seguramente das melhores a nível mundial. Não é mera opinião pessoal, mas sim o que se constata pela procura de engenheiros civis destas escolas tanto no nosso país como em quase todos os países do mundo. É evidente que em termos de equipamentos pedagógicos e tecnológicos estamos longe de ser os melhores, mas a formação tem um nível técnico e científico muito elevado, para o qual concorrem os docentes, os alunos e os funcionários destas escolas. No caso concreto de Aveiro, além do excelente nível escolar é patente a boa qualidade humana e o bom ambiente que contagia e motiva os alunos mas sobretudo os docentes que colmatam as deficiências materiais com uma entrega e disponibilidade exemplar. O aumento de alunos Erasmus para frequentar o curso de Engenharia Civil é mais um sinal desta boa prestação que as tabelas das melhores mundiais confirmam.

Qual é o segredo para se ser bom professor?  

A base de tudo é gostar de ser professor. Partilho da opinião de outros que ser professor é um privilégio. Sem dúvida que ter capacidade, gostar de partilhar conhecimento, gostar de conviver com os jovens, poder acompanhá-los num percurso crucial das suas vidas em que praticamente preparam o seu futuro, poder ser parte das suas vidas e ser eventualmente recordado como formador e ainda assistir ao alcançar dum objetivo de vida de cada aluno, claro que só pode ser um privilégio.

Quanto ao segredo é apenas cumprir com a nossa parte em todas essas componentes de ser professor, em especial ter as capacidades de partilha, compreensão, cometimento e total empenho a uma das mais brilhantes atividades do ser humano que é ensinar e sobretudo formar. Se ao mesmo tempo tivermos a disponibilidade de nos podermos relacionar mais diretamente e individualmente com os alunos numa base de respeito e ajuda, teremos desses alunos o retorno, o seu emprenho e o mesmo respeito e ajuda, de modo a conseguirmos atingir o objetivo de formar não só na componente de transmissão de conhecimentos, mas também na formação humana e profissional.

Ser um bom professor afinal, não é apenas saber ensinar, é sobretudo saber formar (ser, fazer e estar).

O que mais o fascina no ensino?

A transmissão de experiência profissional e a mais valia que isso pode significar na aprendizagem dos alunos e futuros colegas de profissão foi o que sempre me fascinou na dualidade de vida que foi ser simultaneamente profissional e docente de engenharia.

Tal como noutras áreas do conhecimento, a Engenharia Civil tem uma grande componente técnica e, por isso, a formação dos futuros engenheiros sem a mais valia da transmissão de conhecimentos adquiridos pela experiência no exercício da profissão, é a meu ver insuficiente. O convite de profissionais para pontualmente apresentarem aulas ou seminários nunca poderá substituir o acompanhamento do aluno pelos docentes convidados que devem ser e sentirem ser parte da escola e ter a disponibilidade e o interesse em apoiar o desenvolvimento do aluno nas áreas de projeto, de direção de obras, de gestão e de comportamento com outros intervenientes no mundo do trabalho.

Que grande conselho daria aos alunos?

A vida é bela.  Por vezes temos dificuldades e contrariedades, mas devemos conseguir ultrapassá-las e viver com intensidade, felicidade, honestidade e perseverança. Tal como a vida a profissão de engenheiro civil é igualmente bela. Ter-se o poder de contribuir com o seu esforço e saber para moldar fisicamente o mundo em que vivemos tornando-o mais cómodo e seguro é algo que todos os alunos de engenharia devem entender como missão, precisamente para tornar a vida ainda mais bela, não esquecendo que devemos ser honestos e sérios no exercício desta nossa nobre profissão.

Houve algum grupo de alunos que mais o tivesse marcado?

A unidade curricular de Estruturas de Edifícios em que com a ajuda da tecnologia informática se consegue transmitir aos alunos a possibilidade de conceber e de projetar, simulando o que se faz em projeto estrutural do que mais tarde se pode tornar a parte resistente dum edifício utilizado pelas pessoas para habitarem, trabalharem ou divertir-se, transmitindo-se a esses alunos uma experiência de vida acumulada ao longo de 35 anos de trabalho, de centenas de projetos e de obras, sentindo desses alunos o interesse na aquisição desses conhecimentos, é algo que completa a simbiose de docente e profissional de engenharia. É o alcançar do objetivo primeiro e por isso tornou todas as turmas anuais dessa UC algo de marcante na vida de docente. Nessas turmas, é sem dúvida um prazer e um privilégio ser parte de algo maior que são as futuras vidas profissionais desses alunos.

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula?

Em 15 anos tanta coisa mudou…! No longínquo ano letivo de 2000/01 vim pela primeira vez lecionar na UA, em paralelo com a docência na UC. O curso de Engenharia Civil tinha o seu primeiro ano de finalistas e fui convidado a lecionar a disciplina (agora Unidade curricular) de Projeto Assistido por Computador do último ano do curso, que decorrendo do próprio tema, necessitava dum computador. O curso de Engenharia Civil ocupava uns pequenos espaços do Departamento de Engenharia Mecânica (DEM) não possuindo instalações nem equipamento próprio, pelo que a direção do curso viu-se e desejou-se por arranjar um computador ao colega de Coimbra que passou por ser um pouco exigente, uma vez que queria um computador para dar as aulas, lembrando-se que na altura não havia portáteis.

Após aturadas negociações com o DEM lá se conseguiu um computador para dar as aulas, mas com um pequeno problema, é que estava num gabinete de um docente e não podia sair de lá. Bem, como diz o ditado se “Maomé não vem à montanha tem de ir a montanha a Maomé”. E assim lá foi o docente com os seus alunos para um gabinete com cerca de 5 metros quadrados e com umas bancadas nas paredes para terem as aulas. Estas decorreram com alguns dos alunos em cima das bancadas e outros no chão no acanhado gabinete enquanto o docente se esforçava por conseguir mostrar o monitor do computador para demonstrar e ensinar o programa de análise de estruturas… Felizmente a disciplina da altura só tinha 12 alunos, mas todos conseguiram amontoarem-se no gabinete e formarem-se com bastante brilhantismo. Um dos alunos da altura é atualmente o diretor do meu DECivil. 

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