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Entrevistas
Antiga aluna UA - Laura Alho, licenciada, mestre e doutorada em Psicologia
“A UA é um espaço fantástico, com um ambiente que dificilmente se encontra noutro lugar”
Laura Alho
Tem dado aulas no ensino superior, é formadora certificada, investigadora, autora de dois romances e fez todo o seu percurso académico na Universidade de Aveiro (UA). Laura Alho, 33 anos, licenciou-se em Psicologia, tirou mestrado em Psicologia Forense e defendeu, dia 2 de março, a sua tese de doutoramento com o título “Olfato e Crime: Implicações do Reconhecimento de Odores Corporais na Psicologia Forense”.

Quais os motivos que a levaram a estudar Psicologia e a escolher a Universidade de Aveiro para tal?
O meu percurso académico começou em Línguas. Rapidamente percebi que não era exatamente o que queria fazer, pelo que interrompi os estudos e estive um ano e meio a experimentar atividades diferenciadas (e.g., voluntariado no hospital, direção de uma revista de pequena dimensão, curso de estética e maquilhadora, caixeira-ajudante) para descobrir o que realmente gostava. Ao fim de algum tempo, acabei por perceber que havia muitas coisas que gostava de fazer e que todas elas envolvia trabalhar com outras pessoas. Além disso, sempre senti um certo fascínio pela parte criminal, mas não me via a tirar um curso de inspetora naquela altura. Acabei por escolher Psicologia. Fiz o exame em Biologia para poder entrar no curso. Estudei a matéria que nunca tinha tido antes e dei por mim a entrar em Psicologia na Universidade de Aveiro (UA), com uma ótima média. A UA é das melhores universidades do país. Já a tinha frequentado no curso anterior e já sabia o que tinha para me oferecer. Apesar do início conturbado no meio académico, a verdade é que tudo aconteceu exatamente da forma que devia ter acontecido!

A licenciatura e a própria Universidade corresponderam então às suas expetativas?
Em relação à UA, e como disse anteriormente, já a conhecia - razão pela qual voltei a concorrer. É um espaço fantástico, com um ambiente que dificilmente se encontra noutro lugar. É uma pequena cidade dentro de outra cidade.
Quanto à licenciatura, correspondeu às expetativas, embora se saiba que, quando uma licenciatura abre pela primeira vez, há sempre coisas que podem melhorar. Felizmente, a abertura por parte dos docentes permitiu aceitar as nossas sugestões e implementar mudanças que se revelaram positivas nos anos seguintes, para os novos alunos. Em termos curriculares, o plano de estudos diferenciou-se de tudo o que havia no mercado. Comecei a ver a Psicologia como uma verdadeira ciência (uma “engenharia comportamental”, como se designa nos EUA, por exemplo) e comecei a desmistificar alguns mitos que, inadvertidamente, fui assimilando ao longo da vida e que fazem parte do senso comum.

O que a fez optar por seguir para mestrado?
É obrigatório tirar o mestrado para se seguir a carreira de psicóloga. Tinha a certeza que queria na área forense e comecei a pesquisar onde poderia continuar a minha formação, uma vez que quando entrei em Psicologia ainda não havia segundos ciclos. A UA foi pioneira e abriu o primeiro mestrado em Psicologia Forense no ano em que ia concluir a licenciatura, e eu entrei nele. Tinha outras alternativas noutras universidades (como Mestrados em Delinquência ou Comportamento Desviante) mas não eram exatamente o meu foco. Com esta possibilidade, investi na minha formação e comecei a perceber que há muito a fazer em Portugal neste contexto.

E para doutoramento?
No mestrado comecei a trabalhar em investigação e, graças à minha orientadora (Professora Doutora Sandra Soares), foi possível estabelecer uma parceria com o Instituto Karolinska, mais precisamente com o Professor Doutor Mats J. Olsson, que acabou por se tornar num dos meus coorientadores, a par com o Professor Carlos Fernandes da Silva, catedrático do Departamento de Educação e Psicologia. A linha de investigação que iniciámos expandiu-se para um projeto de doutoramento, pelo que concorri a uma bolsa da FCT. Fazia-me sentido trabalhar na investigação, particularmente na área da psicologia forense experimental - semelhante ao que acontece noutros países.

Que trabalho exatamente desenvolveu no âmbito do doutoramento?
Trata-se de uma linha que designámos de “testemunho olfativo” (nosewitness) e que pretendeu, através de um conjunto de estudos experimentais, determinar se nós, humanos, somos capazes de identificar pessoas estranhas a partir do seu odor corporal, em contextos de crime e em contextos neutros. Para tal, usámos um paradigma semelhante ao do testemunho ocular. Quando uma testemunha vê um crime e os intervenientes no mesmo, ela geralmente é chamada a fazer a identificação do ofensor. Em estudos laboratoriais, o participante vê um vídeo e depois, na fase do reconhecimento, será exposto a fotografias ou pessoas e terá de fazer a identificação do criminoso que viu previamente no vídeo. Nos nossos estudos, realizados no PsyLab, os participantes viam um vídeo (de crime ou neutro, mediante a condição da qual faziam parte) e estavam expostos a um odor corporal que lhes era instruído ser do elemento do sexo masculino que viam no vídeo. Posteriormente, na fase de reconhecimento, em vez de fotografias, apresentávamos alinhamentos com odores corporais, que os participantes teriam de cheirar e decidir se o odor-alvo (que cheiraram durante o vídeo) estava ou não presente no alinhamento e, em caso afirmativo, em que posição. Os resultados foram surpreendentes e podem ter repercussões em contextos forenses, as quais estamos a explorar. É necessário fazer mais investigação na área.

 

“A formação da UA tem muita qualidade”

O que mais a marcou na Universidade de Aveiro. Há algum episódio específico que recorde?
Ui, tantas coisas! Já são quase 15 anos passados nesta universidade, pelo que episódios não faltam. Recordo-me do primeiro dia em que vim à Universidade de Aveiro. Recordo-me exatamente do percurso que fiz e das emoções que experienciei. Lembro-me de eu e alguns colegas irmos para alguns locais “restritos” ver as estrelas e conversarmos até altas horas da madrugada sobre questões filosóficas e existenciais. Um dos momentos mais marcantes foi o de ter sido Mestre de Curso de Psicologia, onde dei o meu melhor para criar bons laços e muitas memórias nos alunos recém-chegados. Outro momento marcante foi ter visto o curso de Psicologia crescer e ter o(s) seu(s) próprio(s) laboratório(s). Cada conquista teve um sabor especial. Tantas coisas boas aconteceram nestes anos... Tenho memórias espetaculares que davam para um novo livro! [Risos].

Já a vou questionar sobre esta sua vertente literária, mas antes queria saber como avalia a formação concedida pela UA?
A formação da UA, de uma forma geral, tem muita qualidade e está ao nível de muitas universidades internacionais. Isso pode atestar-se pelas boas classificações em rankings nacionais e internacionais que tem vindo a ter ao longo dos anos. Na área da psicologia, considero que a UA deveria apostar mais e criar mais condições para que a área se desenvolvesse e os cursos pudessem voltar a ter destaque nacional. Por exemplo, o mestrado de psicologia forense, que acabou por fechar, devia reabrir. Para isso, é necessário abrir vagas a novos docentes e apostar numa área que está em franca expansão em Portugal e lá fora.

É autora de dois romances “Um Paraíso no Inferno” (2014) e “Anjos Negros” (2015), publicados pela Chiado Editora. Como é que tal aconteceu?
Bom, o percurso na escrita começou desde muito cedo. Participei em pequenos concursos, escrevi uma história (com 20 páginas) ainda na escola primária e sempre fui uma adolescente apaixonada pela leitura e pela escrita. Foi em 2005 que criei um blogue chamado “Um Paraíso no Inferno” onde partilhava os meus contos todos. Depois de ter sido plagiada, fui abandonando-o lentamente. Nesse ano, estava a passar por uma série de indecisões na minha vida e acabei por escrever o livro com o mesmo nome do blogue. Foi terapêutico, mas não me via a publicá-lo. Não estava preparada para isso. Em 2013, na minha segunda viagem à Suécia, no âmbito do meu doutoramento, decidi pegar no ficheiro do livro, que já tinha 8 anos de espera, e enviei-o para algumas editoras. Achei que o “não” era garantido e que não tinha nada a perder. Acontece que dias depois recebi uma proposta de edição e tudo mudou a partir daí… A recetividade a este livro foi incrível e eu senti que estava na hora de dar vida à escritora que vive em mim. [Risos].
O “Anjos Negros”, um romance policial, foi a sequência natural do meu percurso enquanto autora. Foi lançado em novembro de 2015 e está a ter mais impacto imediato, comparativamente com o primeiro romance e no mesmo período de tempo.
Além destes romances, ainda tenho publicado o livro “O Filho Preferido”, criado em coautoria com a Dra. Fátima Almeida, e que tem um objetivo específico. É de caráter generalista (para um público mais abrangente) e que apresenta temas como a eterna discussão da existência (ou não) de um filho preferido, as consequências, o que se pode fazer para minimizar essa perceção, a dor de perder um filho, a violência entre irmãos, o fenómeno da parentificação, entre outros temas interessantes e que merecem ser abordados.

Com um percurso tão variado há uma outra questão que se impõe: estará ainda envolvida noutras atividades?
Sim. Estou a tirar uma pós-graduação em criminologia e tenho feito várias formações profissionais no âmbito da psicologia forense (e.g., vitimologia, profiling criminal, psicologia da justiça), investigação criminal, desenvolvimento pessoal e recursos humanos. Uma das outras coisas que tenho feito ao longo destes anos é uma espécie de voluntariado para diversos núcleos da UA, com formações específicas que dão resposta a uma série de necessidades dos alunos. Considero que esta experiência é útil para todos e que promove competências sociais nos futuros profissionais.
Fora a investigação e a escrita, sou empreendedora, formadora certificada, docente, coordenadora de projetos diversificados, subdiretora da Peritia – Revista Portuguesa de Psicologia, e tenho uma família e um núcleo de amigos que são o meu porto seguro e que dão sentido à vida!

Onde e o que se vê a fazer daqui a 10 anos?
Onde, não sei. Mas quero continuar a fazer o que faço: docência, investigação e literatura. A psicologia forense é, sem sombra de dúvida, uma das minhas grandes paixões, e sinto que o meu contributo, por mais pequeno que seja, pode ser determinante e pode marcar a diferença num país onde todos se queixam e poucos têm a audácia de tentar.

 

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