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Entrevistas
Professora UA - Margaret Gomes (Maggie), Departamento de Línguas e Culturas
Uma paixão pelo ensino do Inglês. Uma sintonia perfeita com os alunos
A professora Margaret Gomes (à frente, no meio) entre os estudantes
Queria ser médica, mas desistiu da ideia, já estudante universitária, para seguir uma outra paixão repentina e avassaladora, o ensino. Se os doentes ficaram a perder, os estudantes ganharam em Margaret Gomes uma professora de alma e coração. “O contacto com os alunos mantém-me jovem e ter a oportunidade de contribuir, nem que seja um pouco, para a formação deles é um privilégio”, diz a docente do Departamento de Línguas e Culturas (DLC) da Universidade de Aveiro (UA). Maggie é o nome com que insiste ser tratada pelos estudantes que chamam ‘happy place’ ao seu gabinete.

Professora há 23 anos, Maggie é docente no DLC há 17 onde dá aulas de inglês aos alunos das licenciaturas de Tradução e de Línguas e Relações Empresariais. Licenciada em Biologia Humana no King’s College da Universidade de Londres, onde tirou também um curso de pós-graduação em Ensino de Biologia e Química, foi já na Universidade de Cambridge que obteve formação para dar aulas de inglês como língua estrangeira.

Filha de emigrantes portugueses, optou “vir para Portugal trabalhar na área do ensino até decidir o que queria fazer com a vida”. Mas o destino estava já escrito e tinha o nome da academia de Aveiro incluído. Aqui fez o Mestrado em Estudos Ingleses do DLC e está, atualmente, a concluir a tese de Doutoramento em Estudos Culturais.

É colaboradora do Centro de Línguas, Literaturas e Culturas do DLC onde, “de mão em mão com o meu trabalho e os meus estudos, arranjo algum tempo para fazer alguma investigação na área da aprendizagem do inglês e questões de interculturalidade e o papel da língua inglesa em contextos de línguas indígenas”. 

Qual é o segredo para se ser bom professor?

De uma forma curta, um bom professor deve se alguém que domina a sua área, mas que também é dedicado e acessível. É alguém que consegue criar desafios que levam à aprendizagem sem intimidar os alunos e que os consegue motivar para ir mais longe ir e sair da sua zona de conforto. Na minha opinião, nem sempre o conhecimento científico é sinónimo de um bom professor. É preciso pormo-nos na pele de um aluno e ver um potencial problema do ponto de vista dele para arranjar maneiras de colmatar essas dificuldades e levá-lo a descobrir uma solução de forma autónoma.

O que mais a fascina na profissão docente?

O meu sonho em nova era ser médica. Se me perguntarem agora se pudesse voltar atrás e mudar a minha atual profissão, diria que não, redondamente. Apesar de fazer investigação, é o ensino que me motiva todos os dias. O contacto com os alunos mantem-me jovem e ter a oportunidade de contribuir, nem que seja um pouco para a formação deles é um privilégio. Para mim, a função de docente não é simplesmente transmitir informação, mas sim educar e formar futuros profissionais, e quando eles são bem-sucedidos por muito pequeno que tenha sido o nosso papel no percurso deles, temos uma grande sensação de realização pessoal.

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes nos cursos aos quais está ligada?

Não posso falar sobre os meus colegas e talvez os meus alunos seriam as pessoas a quem esta pergunta deveria ser direcionada. Posso falar um pouco sobre os meus objetivos como professora e não sobre o meu próprio desempenho. Faço um esforço para criar laços próximos com os meus alunos. Eles falam comigo sempre em inglês, tanto dentro como fora da sala de aula, para desenvolverem as suas competências em língua inglesa. À boa maneira inglesa, insisto que me tratem por Maggie para eles se sentirem mais à vontade comigo. Tento, dentro dos possíveis, dar-lhes as ferramentas, não para exercer uma certa profissão, mas que possam utilizar numa variedade de contextos para o constante desenvolvimento deles, tanto pessoal como profissionalmente. Com a necessidade de mais mobilidade e o conceito de um emprego para o resto da vida deixar de ser uma realidade, cada vez mais os nossos graduados precisam de aprender a trabalhar em ambientes diferentes e em equipas diferentes, portanto tento ajudá-los a desenvolver competências transversais e ligar os conteúdos do meu ensino ao mundo de trabalho sempre que possível.

Que grande conselho daria aos alunos?

Teria de escolher duas coisas. Em primeiro lugar, quer seja a participar numa reunião de diretores ou a arquivar documentos, tudo o que fazem deve ser com muito empenho, pois não há nenhuma tarefa abaixo do nosso nível – cada tarefa é uma oportunidade de aprendizagem. O meu lema (traduzido do inglês é claro) é “Tudo o que façam, façam por fazê-lo excelentemente”. A segunda é serem humildes. Quando entrarem no mercado de trabalho eles têm as ferramentas para ter sucesso no local de emprego, contudo, muitas vezes não têm a experiência necessária para desempenhar a função bem. Eles devem ter a humildade de saber que têm muito que aprender com os colegas que nem sempre têm os mesmos estudos que eles, mas que percebem muito mais sobre a forma como a empresa funciona, e podem ser uma fonte de conhecimento e aprendizagem.

Houve algum grupo de alunos que mais a tivesse marcado?

Todos os grupos, sem exceção, marcaram-me. O meu objetivo é tratar os alunos como indivíduos e não números mecanográficos. Faço um esforço para aprender os seus nomes e saber um pouco sobre a vida deles fora da sala de aula. Enquanto estão a trabalhar nas tarefas que têm de fazer vou de aluno em aluno ou de grupo em grupo para falar com eles individualmente. Tento saber um pouco mais sobre eles do que simplesmente o que sabem ou precisam de aprender na minha unidade curricular, e faço um esforço para dar seguimento a conversas anteriores que tivemos. Também não tenho medo de mostrar que não sei alguma coisa e que tenho algo a aprender deles, não só eles comigo.

Gostam da sensação de me ensinar algo novo ou partilhar um vídeo comigo que tem a ver com os conteúdos programáticos, e quando posso, partilho com o resto do grupo, sempre dando os louvores ao aluno que mos forneceu. Conto situações caricatas da minha vida, pois também tenho uma vida fora da universidade. Quero que eles saibam que estou sempre lá para eles, tanto para assuntos pedagógicos como pessoais e que o meu gabinete é um lugar confortável que não intimida e tenho muitas visitas de alunos, tanto atuais com ex-alunos, diariamente. Acho que quanto mais dou de mim aos meus alunos, maior é a probabilidade de eles me darem um pouco mais deles além de ser estudante.

Tudo isto para dizer que não posso especificar um grupo em particular. Nunca podemos agradar a todos, mas se consigo agradar a maioria, sinto que estou a fazer um trabalho bem feito. Se tivesse de falar sobre grupos específicos, posso referir um grupo que era particularmente falador e tive de tomar medidas difíceis para os por no caminho certo. Achei que iria ter uma avaliação muito má no SGQ, o que não aconteceu. Tive um grupo que no fim do primeiro ano deram-me na última aula uma caixa de chocolates e um ramo de flores com um cartão onde todos, sem exceção, assinaram – não é só a validação de alunos que gostaram de mim mas de todos, e isso é muito gratificante. Este ano, tenho alunos que vêm de forma assídua às aulas OT e chamam o meu gabinete o ‘Happy Place’. Falamos sobre qualquer tema de atualidade, fazemos exercícios de gramática e jogamos jogos. Cada grupo tem a sua dinâmica e é especial à sua maneira, e todos me marcaram de uma forma única.

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula?

Tenho imensos episódios para contar, e gostaria de salientar as seguintes situações agradáveis que me acontecem/aconteceram:  

  • _ Quando um aluno tem um problema pessoal e sente-se à vontade para vir ao meu gabinete desabafar comigo, para eventualmente reencaminhar a situação para outros serviços na UA para tentar solucionar o problema; 
  • _ Tenho muitos alunos que me contactam após 3,4 ou 5 anos de acabarem o curso para me dizer o que estão a fazer; 
  • _ Tenho alunos que me vêm visitar anos depois para saber como estou e contar-me o seu percurso – tive um aluno este ano que está a trabalhar na Holanda e após uma longa viagem, a primeira paragem foi no DLC para me vir dizer “olá” e dar-me um abraço; 
  • _ Numa reunião há um tempo atrás estava um aluno que se lembra de eu motivar a turma com chocolates há cerca de 8 anos atrás; 
  • _ Há um tempo, recebi um mail de uma ex-aluna de há 3 anos a dizer que, olhando para trás, via o quão importantes tinham sido as minhas experiências do mercado de trabalho e sobre ser um trabalhador exímio. Disse-me que apesar de parecer que não estava com atenção durante as aulas, que lhe tinha ensinado grandes lições e que me deu mais valor depois de começar a trabalhar; 
  • _ Uma partilha no Facebook de uma ex-aluna num vídeo sobre professores que mudaram a vida deles e nomear-me como a que fez a diferença na vida dela; 
  • _ Um aluno que me disse que eu apelei tanto à responsabilidade dele que acabou a licenciatura porque “não me quis desiludir”; 
  • _ Um aluno que diz que quer vir para as minhas aulas porque um ex-aluno meu e colega dele lhe disse que iria aprender muito comigo; 
  • _ Uma aluna que me disse no início do semestre que não gostava de inglês e que, no final do semestre, disse que se não conseguisse enveredar por uma carreira na área dela que as minhas aulas a tinham feito pensar em enveredar pela carreira de docência; 

Enfim, muitas memórias boas. Sinto alguma tristeza ao ver os alunos partir no fim dos seus estudos, mas orgulho no pequeno papel que tive na sua evolução académica e pessoal.

 

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