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Entrevistas
Antigo aluno UA – Valter Rodrigues, licenciado em Administração Pública
Experiência ímpar na ONU
Valter Rodrigues, licenciado em Administração Pública
É um dos recém-licenciados em Administração Pública da UA, tem 24 anos e acaba de viver uma experiência que classifica como verdadeiramente fascinante: trabalhar para a Missão Permanente de Portugal da Organização da Nações Unidas, em Nova Iorque. O estágio terminou no final de 2015, mas Valter Costa Rodrigues não esquece a oportunidade de ter podido experimentar a área diplomática numa organização onde quase todos os Estados do mundo estão representados.

Que funções desempenhou exatamente na ONU e como descreve o seu dia-a-dia profissional?
O dia-a-dia profissional na Missão dividia-se entre o meu gabinete, localizado na Missão Permanente, e a sede da ONU. Tive essencialmente como funções acompanhar os trabalhos da Segunda Comissão da Assembleia Geral da ONU, cobrindo temáticas como crescimento e desenvolvimento económico, políticas macroeconómicas (comércio internacional, sistema financeiro internacional, economia informal), financiamento para o desenvolvimento, desenvolvimento sustentável, habitação, erradicação pobreza, globalização e TIC para o desenvolvimento. Acompanhei também os trabalhos da Quarta Comissão da Assembleia Geral, cobrindo temáticas referentes às operações de paz peacekeeping e reformas das operações de paz. Participei ainda em reuniões de coordenação da União Europeia sobre as referidas matérias. Este acompanhamento é efetuado através da participação em sessões formais e informais, promovidas pelos países/instituições facilitadores/organizadores das mesmas e elaborando relatórios que seguem sob a forma de telegrama para o Ministério dos Negócios Estrangeiros português, para que, em Portugal, se possa acompanhar os assuntos e sempre que necessário seja possível emitir feedback com instruções.

O que mais o fascinou nesta sua atividade profissional?
Gostei muito do trabalho diplomático, especialmente pelo facto de na ONU se praticar uma diplomacia multilateral, envolvendo neste caso todos os Estados com representação na ONU. Do que mais me fascinou destacaria a forte componente de negociação, as múltiplas línguas estrangeiras, que vão desde o árabe até ao chinês passando pelo russo, e obviamente também as temáticas abordadas, pois existe todo um universo de temas para cobrir, desde os económicos, cooperação, desenvolvimento e segurança. Por fim, a forte dinâmica da ONU, altamente diversificada em posições e pensamentos, diferentes culturas, inúmeros eventos de alto nível, bem como a constante presença de altos oficiais, representantes de Estados e Organizações Internacionais, constituem uma atmosfera particularmente atrativa e motivadora.

Há algumas competências adquiridas durante a sua formação na UA que entenda terem sido fundamentais para o exercício desta sua atividade?
Sim. Por exigência do serviço foram, de facto, várias as competências que coloquei em prática. Destacaria a capacidade de diálogo com colegas internacionais, a capacidade de interpretação e tradução de inglês para português (e vice-versa), e sobretudo o facto de possuir conhecimentos em áreas como o Direito, Economia, Finanças Públicas, Ética, Ciência Política, Cooperação Internacional, Liderança Política e Policy Making que permitem analisar e lidar devidamente com os mais variados assuntos.


A cidade que nunca dorme

O que o levou a optar por ir trabalhar para Nova Iorque?
Esta opção surgiu, por um lado, fruto da motivação resultante do estudo da política internacional que o Mestrado me estava a facilitar, por outro, movido pela curiosidade em ter uma experiência profissional na área diplomática. Candidatei-me a um programa de estágios promovido e coordenado pelo Instituto Diplomático, sob a tutela do Ministério dos Negócios Estrangeiros, o qual visava um período de estágio nos serviços externos da rede diplomática portuguesa. Fui selecionado para a vaga na Missão Permanente de Portugal junto da ONU e ali exerci funções entre setembro e o final do dezembro de 2015.

Dos seus primeiros momentos passados em Nova Iorque não esquece…?
Sem dúvida a dimensão megalómana da cidade, com os tão típicos arranha-céus de Manhattan. A mistura de culturas também me chamou muito a atenção, claramente um destino de emigração de escala mundial. Constatei também imediatamente a fama que tem de ser uma cidade que nunca dorme, em que Times Square está sempre mega iluminado e muitos estabelecimentos comerciais estão abertos 24h/dia. Avassalador e impressionante é também o constante trânsito de pessoas e viaturas, fazendo-se evidentemente sentir os mais de 8 milhões de habitantes.

Como é viver e trabalhar nos EUA?
Creio que viver em Nova Iorque carimba em qualquer um o “estatuto” de cidadão do Mundo, pelo contagiante ambiente multicultural da cidade. Deslocava-me para o trabalho de metro todos os dias, porque efetivamente é o melhor meio de transporte, é frequente e chega a todo o lado. A gastronomia também é um ponto forte, tendo em conta que é muito fácil ter acesso às mais variadas cozinhas internacionais.

A língua foi alguma vez um problema?
Não tive problemas com a língua inglesa porque já falava antes, mas para quem quer aprender ou praticar, de facto, não há melhor do que viver durante uns tempos num país de língua inglesa. Mas apesar de cidadão do Mundo, serei sempre, e com muito orgulho, cidadão português. 


Acesso ao mercado de trabalho

Terminou a licenciatura em Administração Pública, em 2014. Foi fácil entrar no mercado de trabalho?
Não senti dificuldade. A minha primeira atividade profissional surgiu de uma oportunidade que identifiquei durante a frequência da licenciatura, aquando da ida do Diretor Geral da SMART Vision, Dr. Sérgio Chéu, à UA para esclarecimento e eventual ação de recrutamento. No final da conferência tomei iniciativa de falar pessoalmente com ele, mostrando-lhe interesse em colaborar com a empresa e revelando-lhe os meus objetivos. Foi dessa forma que acabei por garantir a oportunidade. Imediatamente após terminar a licenciatura iniciei um estágio nesta empresa sedeada em Aveiro, assumindo funções de assessoria estratégica de gestão, nomeadamente ao nível do ramo da administração pública local, as quais desempenhei durante aproximadamente um ano, em paralelo com a frequência do mestrado em Relações Internacionais na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. No segundo ano do Mestrado surgiu-me a oportunidade de ir trabalhar para a Missão Permanente de Portugal junto da Organização da Nações Unidas em Nova Iorque (EUA), na qualidade de estagiário. Exerci respetivas funções durante quatro meses e até final do ano 2015.

Sempre soube a profissão que queria seguir?
Não. Confesso que senti desde muito cedo que tinha aptidão para várias profissões porque sempre fui curioso e interessado, mas isso só me deixou mais indeciso quando me deparei com a necessidade de escolher um único caminho no final do ensino secundário. No entanto, após início da licenciatura na UA e com o decorrer das sessões letivas e experiências associativas extracurriculares (fui membro da AIESEC), naturalmente comecei a adquirir uma visão mais clara sobre aquilo que me dava mais prazer estudar e exercer. Creio, no entanto, que o Erasmus representou a certeza que eventualmente poderia faltar. Viver num ambiente internacional, através do contacto direto com colegas de outras nacionalidades, provenientes de culturas distintas da minha, foi como um teste vocacional no qual passei com distinção, porque de facto senti-me mesmo muito bem e verifiquei que queria, de alguma forma, poder ter essa componente internacional presente no meu percurso futuro. Assim surgiu o interesse pelas Relações Internacionais e pela área diplomática.

 

“Era precisamente o tipo de formação que eu estava à procura”

O que o levou a escolher a Universidade de Aveiro para estudar?
O meu percurso académico na Universidade de Aveiro foi muito motivado pela minha mãe, que também fez a sua formação na mesma academia. Enquanto a minha mãe se licenciou em ensino de Física e Química, eu sabia que, apesar de ter frequentado o curso de Ciências e Tecnologias no ensino secundário, não queria de forma alguma prosseguir estudos superiores na área das Ciências exatas, sobretudo devido ao facto de ter frequentado no ano imediatamente anterior, o primeiro ano da licenciatura em Engenharia Mecânica no Instituto Politécnico de Viseu. A área científica das Ciências Sociais e Humanas era a predileta nessa altura, sentindo eu que poderia encarar um novo começo, com a certeza de que me iria sentir muito mais confortável nessa área científica, na qual poderia inclusive utilizar alguns dos conhecimentos anteriormente adquiridos de caráter mais exato, destreza de raciocínio e capacidade de análise para interpretar e analisar os novos. Assim sendo, após uma breve pesquisa pelas ofertas curriculares da UA, verifiquei que a Licenciatura em Administração Pública do Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território me agradava, e iria à partida, conferir a formação que ambicionava.

O curso correspondeu às suas expetativas? E a Universidade de Aveiro?
Totalmente. Era precisamente o tipo de formação que eu estava à procura, uma formação transversal com grande componente social. Hoje em dia sinto que o estudo da administração pública contribuiu substancialmente para a minha formação, não só enquanto profissional, mas também enquanto cidadão de pleno direito. Fez-me ver a importância da correta gestão do valor público e conferiu-me, entre muitas outras coisas, um olhar crítico, aliado a uma noção multidisciplinar da administração pública. A possibilidade de existir na licenciatura a opção de escolher uma especialização também se revelou uma mais valia, tendo eu optado pela formação específica em Ciência Política. A Universidade de Aveiro funcionou claramente, no meu caso, como uma incubadora formativa que me moldou com os seus valores humanistas e progressistas. Permitiu sempre que pudesse desenvolver, paralelamente à dimensão académica, também a dimensão pessoal e humana.

O que mais o marcou na Universidade de Aveiro?
Creio que as próprias caraterísticas da Universidade de Aveiro, com um Campus que conjuga nos seus limites uma panóplia imensa e tão diversa entre si de cursos, de pessoas e de associações, já é por si só marcante. Todavia, o facto de a Universidade de Aveiro me ter concedido uma bolsa Erasmus que me permitiu realizar, no meu segundo ano da licenciatura, um período de estudos na Utrecht School of Governance na Holanda representou um enorme marco na minha formação. Não só pelo facto de ter sido a minha primeira longa estadia a viver fora de Portugal, mas também por ter podido ter acesso à elevada qualidade da formação na Holanda e ainda por ter vivido a fantástica experiência multicultural que é o Erasmus. Uma experiência que recomendo vivamente a todos os estudantes. Faço ainda questão de deixar um cumprimento muito especial a todo o corpo docente da licenciatura em Administração Pública, pela pedagogia, pelo exemplo e pela orientação que, cada um à sua maneira, me transmitiu.

Onde se vê daqui a 10 anos? Pretende continuar em Portugal no futuro?
Creio sinceramente que a minha experiência na ONU representará uma mais valia. Acredito que as circunstâncias de um estágio deste género atestam por si só várias das capacidades de um profissional e estou convicto que o mercado o reconhecerá. Daqui a 10 anos espero poder continuar a trabalhar nesta área das Relações Internacionais ou pelo menos em estreito contacto, e de preferência, em regime de serviço público. Como venho alimentando o gosto pela dimensão internacional, acho que será mais ou menos natural se a minha carreira tiver essa mesma natureza, portanto estou preparado para trabalhar em Portugal, no estrangeiro, ou quiçá dividido entre ambos.

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