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Opinião
Nuno Rosmaninho, professor do Departamento de Línguas e Culturas da UA
Nacionalismo artístico no Estado Novo e agora
Nuno Rosmaninho
Os 40 anos do 25 de abril de 1974 motivam o texto de opinião de Nuno Rosmaninho, professor do Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro sobre nacionalismo artístico no Estado Novo e agora. "O Estado Novo entendeu a identidade artística como um conjunto de atributos de evidente feição ideológica." Atualmente, "ninguém pode dizer que o nacionalismo artístico acabou. E ninguém pode supor que ele está a começar", escreve o investigador.

O Estado Novo não inventou o nacionalismo artístico. Este começou a formar-se no Primeiro Romantismo, adquiriu os principais tópicos até ao fim do século XIX e tomou na Primeira República um arroubo exclusivista que haveria de produzir a intransigência típica dos anos de 1930. O Estado Novo acerou propensões que perderam o carácter benigno e se tornaram ameaçadoras.

Num sistema longamente amadurecido, as artes do mundo chegaram a ser percebidas como a soma das suas declinações nacionais. A identidade dos indivíduos era menos importante do que a da pátria. Os artistas faziam parte de um país, eram o seu símbolo, a sua voz. Pertenciam-lhe.

Enquanto a identidade artística portuguesa foi uma utopia incerta, procurada na arte dos Descobrimentos ou na quietude da vida rural, era pouco plausível obrigar os artistas a participar nela. Mas quando se converteu na expressão de uma sensibilidade colectiva, de um carácter e até de uma raça, os artistas foram compelidos a sujeitarem-se a autênticos dogmas temáticos e estilísticos.

O Estado Novo não criou o nacionalismo artístico mas deu-lhe uma formulação terminante. Munido de certezas ideológicas e artísticas, achou-se no direito de exigir obediência. Na verdade, tendia nesse esforço a prolongar as correntes tardo-naturalistas e, em nome delas, a mover um combate contra o modernismo, a arte sem pátria.

Nos anos de 1930, no pico da animosidade contra as correntes modernas, discutia-se a legitimidade de os artistas serem plenamente livres. Os defensores mais estritos do sistema nacional punham a obediência acima da liberdade individual e acusavam os "modernos" de serem simplesmente cabotinos. Os artistas modernos, que não deixavam por isso de ser patriotas, criaram a ideia de uma identidade nacional involuntária: o artista, mesmo exercendo livremente a sua criatividade, seria sempre da nação a que pertencia.

Até ao fim, o Estado Novo entendeu a identidade artística como um conjunto de atributos de evidente feição ideológica. Essa orientação afastou os artistas e deixou os "pedagogos" a falar sozinhos. E assim, quando o 25 de Abril se deu, o problema identitário parecia uma coisa antiquada e algo «fascista». Os novos entusiasmos tinham o contorno do mundo. Em 1990, a globalização oferecia uma promessa de futuro e levava alguns artistas a esquecerem a filiação nacional. A pura internacionalização apátrida chegou a ser uma ilusão. Hoje, o público volta a deixar-se enlevar pela possibilidade de ser português através da arte e os artistas têm sempre o cuidado de estabelecer as suas diferenças em relação aos estereótipos salazaristas.

Chegados aqui, ninguém pode dizer que o nacionalismo artístico acabou. E ninguém pode supor que ele está a começar. O que vem aí, então? Numa conversa proporcionada pela revista Ler em 2013, António Lobo Antunes disse: "A coisa mais perigosa do mundo são os grandes nomes, substantivos abstractos: a Honra, a Pátria, a Lei." "Mas, ah, quando é hora", retorquiu George Steiner, "o patriotismo é como uma narcose, uma hipnose das massas."

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