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Investigação de Susana Loureiro, do Departamento de Biologia e do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar
Universidade de Aveiro avisa: cocktails de pesticidas prejudicam a saúde dos solos
A investigadora Susana Loureiro e uma amostra de solo onde o efeito dos pesticidas são analisados
Utilizados para combaterem pragas, os cocktails de pesticidas usados na agricultura estão a provocar efeitos nefastos nos organismos que regeneram o ecossistema terrestre e, por isso, a porem em causa a saúde dos solos nacionais. Esta é a principal conclusão do trabalho de uma equipa de biólogos da Universidade de Aveiro (UA) que analisou os efeitos de misturas de pesticidas utilizadas em larga escala, não só no país como por toda a Europa, em organismos que, não sendo o alvo a abater, sofrem danos por ação dos químicos. Sem eles, e por consequência sem o papel crucial que desempenham na decomposição da matéria orgânica e na redistribuição dos nutrientes, os solos agrícolas não se conseguem manter saudáveis.

Os investigadores apontam o dedo a uma legislação que apenas regula a utilização individual de cada químico ignorando a mistura de pesticidas, uma prática normal no setor agrícola e que potencia o efeito tóxico dos compostos utilizados.

“Já testámos vários tipos de pesticidas aplicados amplamente em todo o país e na Europa e verificámos que eles produzem efeitos muito mais nefastos do que seria à partida previsível”, aponta Susana Loureiro, investigadora no Departamento de Biologia e do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da UA.

A coordenadora da equipa diz que organismos como bichos-de-conta, minhocas e outros invertebrados benéficos para o solo sofrem danos ao nível do sistema nervoso central e devido a stress oxidativo, acabando por morrerem ao fim de algumas horas de exposição a misturas de moluscicidas, vulgarmente chamados de “remédio dos caracóis”. Este não seria um efeito previsto, tendo em conta que são organismos não alvo dos moluscicidas. A equipa, que estuda há vários anos o efeito dos químicos usados na agricultura, tem igualmente verificado que há vários compostos químicos que induzem efeitos que se prolongam ao longo de várias gerações desses organismos, podendo dar origem ao colapso de populações.

“Nos solos agrícolas há décadas que se utilizam cocktails químicos perigosos e imprevisíveis sobre os quais a legislação em vigor em Portugal e na Europa nada diz”, afirma Susana Loureiro. “Numa prática agrícola comum temos aplicações de inseticidas, fungicidas, moluscicidas ou herbicidas temporalmente simultâneos ou desfasados no tempo, que podem induzir aditividade de efeitos ou mesmo potenciação de toxicidade. Nestes casos a legislação em vigor é omissa”, sublinha.

Para além disso, na Europa a diretiva dos solos continua “na gaveta” e “Portugal parece ainda não ter a perceção das potencialidades científicas que tem gerado ao longo dos anos nesta área dos solos, nomeadamente na componente da avaliação ecotoxicológica”. E ainda, explica Susana Loureiro, “tendo em conta que diferentes tipos de solos, com diferentes características, fazem variar a componente biodisponível dos químicos presentes, e consequentemente a sua toxicidade e perigosidade, torna-se crucial que cada país ajuste e transponha, de uma forma adequada, a política nacional para a qualidade de solos”.

Para além disso, “é urgente a criação de um plano de monitorização ambiental para manter a qualidade dos solos e dos serviços que esses solos nos proporcionam quer na Europa quer em Portugal”.

Organismos benéficos afetados pelos compostos químicos

“Os invertebrados como minhocas ou bichos da conta contribuem para a reciclagem de nutrientes, decompondo a matéria orgânica e incrementado igualmente a diversidade de fungos e bactérias necessárias aos processos de decomposição”, explica a bióloga Susana Loureiro. Por outras palavras, os organismos que sofrem efeitos colaterais da mistura dos pesticidas, “promovem a função de reciclagem de nutrientes, quer diretamente, pelo fracionamento vegetal, quer indiretamente, através do estímulo das comunidades microbianas” que decompõe a matéria orgânica.

Utilizando como exemplo as minhocas, fortemente afetadas pela ação dos químicos, Susana Loureiro aponta que “estas aumentam o arejamento dos solos e promovem uma relação simbiótica entre fungos e raízes de plantas o que permite o aumento da absorção de nutrientes por parte da planta”.

Por isso, “os pesticidas ao afetarem estes organismos, todo o ecossistema edáfico será afetado na sua estrutura e função, diminuindo consequentemente a qualidade do solo e, por isso, a respectiva produtividade”.

 

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