conteúdos
links
tags
Entrevistas
Paulo Pintor, Mestre do Salgado da Universidade de Aveiro
Aluviões, tenham medo, muito medo (ou não!!)
25.10.2013
Paulo Pintor quer ver Aveiro no coração de todos os aluviões
Um primeiro e desprevenido contacto com o Paulo Pintor é suficiente para fazer tremer de medo qualquer aluvião da Universidade de Aveiro (UA). Trajado a rigor, gabão negro pelas costas, pá de marnoto nas mãos, ele é o Mestre do Salgado, a figura máxima dentro do Salgado Académico e responsável pelo Conselho do Salgado, o órgão da academia que gere, organiza e dinamiza toda e qualquer praxe. Num segundo olhar, mais atento, percebe-se o sorriso amigável e os braços abertos do Paulo que mais não quer do que tornar inesquecível a vida de todos os estudantes acabados de chegar à UA e ligar-lhes para sempre o coração à cidade de Aveiro.

Tem 24 anos, é licenciado em Tecnologias e Sistemas de Informação e está a finalizar o Mestrado em Sistemas de Informação no Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática da UA. Pelo segundo ano consecutivo, o Paulo é o Mestre das praxes.

O que o levou a fazer parte da praxe?

Existem vários momentos distintos que podem explicar essa minha ligação à praxe. Começando por ser um cidadão de Aveiro, e já ter por si uma grande ligação à cidade e às suas tradições, também cresci dentro desta Universidade. A minha mãe é cá funcionária há 27 anos e desde cedo ela levava-me a ver tanto as praxes como os desfiles de Enterro. Por isso, desde logo, ela incutiu-me um amor à instituição em si e às suas tradições.

E quando entrou na UA…

Aderi logo à praxe e fui-me identificando com os valores que ela me transmitiu. Depois do meu primeiro ano fui sempre um membro ativo na praxe do meu curso, aprendendo, como é o dever do segundo ano, e participando mais ativamente nos dois anos que o seguiram. Inclusivamente fiz parte da Comissão de Faina do meu curso, achando sempre que poderia dar um maior contributo a uma atividade que sempre me disse muito. No final do meu quarto ano resolvi candidatar-me ao órgão máximo da praxe, tendo sempre noção da sua responsabilidade, que tinha em mãos um grande trabalho realizado pelos meus antecessores e que eu só poderia continuar e melhorar tudo o que até ali tinha sido feito. Sendo assim, encontro-me neste momento no segundo ano enquanto Mestre do Salgado, entidade máxima no Salgado Académico.

De que falam os estudantes universitários quando o assunto é o espírito académico?

O espírito académico é algo que não tem uma definição própria. Cada um vive a academia à sua maneira e com as suas próprias experiências, tanto quem faz parte da praxe como quem não faz. Penso que o espírito está sempre vivo em todos os alunos do presente e do passado. Falando por quem faz parte da praxe, saltam essencialmente algumas palavras e frases sempre que é referido este assunto: integração, tradição, respeito, amor à academia, solidariedade, entreajuda…  Em resumo, sentir o que quer dizer "Aveiro é nosso" e o orgulho de todos quando o cantamos.

A UA tem um espírito diferente das outras academias?

Sim. Começando desde de logo pela própria Universidade ser das mais novas, já adaptada a todas as realidades e sempre na vanguarda das necessidades de todos os alunos, sejam elas quais forem. Também assim a praxe tem um espírito diferente e inovador, começando pela inclusão de todas as tradições e costumes da nossa cidade que estão presentes em todas as atividades que fazemos. Fomos também um dos pioneiros quando se fala em "Praxe e Solidariedade" pois além de atendermos às necessidades das pessoas individuais, também o fizemos às pessoas da cidade, como são exemplos as recolhas de alimentos e de tampas que efetuamos nas nossas praxes gerais, um gesto  que muitos cursos também começam a fazer individualmente de forma a conseguir chegar a toda a gente. Para além disto, a forma como está estruturado o nosso código, a forma de gestão e cumprimento do mesmo, que está sempre em atualização para se poder adaptar à realidade do presente, torna-nos uma academia com uma identidade própria mais próxima a todos.

Há uma relação recente mas umbilical entre as tradições académicas e a cultura ligada ao sal e à ria de Aveiro. Essa ligação tem servido para aproximar mais os estudantes à cidade que os acolhe?

Sim, tem servido para os aproximar de várias maneiras. Começando, como já foi referido anteriormente, pelo nosso Código e por todas as nossas tradições estarem em volta da cidade. O próprio Código tem uma introdução à história de Aveiro e à sua criação enquanto cidade. A sua estrutura está divida metaforicamente por Salinas e Canais, havendo dentro destes mais alusões à cidade e às suas tradições. As nossas próprias nomenclaturas [Aluvião, Junco, Moço, Marnoto, Mestre, Mestre Pescador, Mestre do Salgado, Faina Académica, Salgado Aveirense] têm toda uma ligação com a cidade e com os seus costumes e tradições. Para além disto, a Roncada, uma tradição dos pescadores e que é uma das nossas Praxes Gerais, envolve os alunos numa visita por alguns pontos da cidade. Também os cursos tentam sempre fazer atividades de forma a que os alunos conheçam vários pontos de interesse da cidade. Em suma, tudo isto leva a que os alunos que chegaram cá pela primeira vez conheçam e tenham noção da história da cidade que os vai acolher nos próximos três a cinco anos, fazendo com que estes próprios ganhem um amor à mesma e uma grande ligação à nossa "Veneza de Portugal".

Que tipo de praxes podem aguardar os estudantes que vêm para a UA?

Podem esperar praxes de integração, de convívio e de solidariedade que lhes são transmitidas de forma própria, pois cada curso tem a sua identidade e a sua forma de acolher e transmitir todos os valores e tradições envolvidas na Faina Académica. Para além disso, a praxe é um dos motores para que estes alunos conheçam os estudantes que lhes podem fornecer todo o tipo de ajuda, um fator importante para quem chega a primeira vez e está um pouco perdido. Também é de realçar que tem sido uma boa maneira de identificar os alunos com necessidades pontuais a todos os níveis, seja ao nível físico, psicológico ou académico, e de os envolver, mesmo com as suas necessidades, em todo o espírito académico.

Os exageros das praxes são por vezes motivo de polémica em algumas escolas superiores do país. Na UA há preocupação dos responsáveis pela praxe para que não se ultrapassem os limites do bom senso?

É uma das nossas maiores preocupações e das que tem sido levada a cabo com mais sucesso. Abusos existem em todo o lado, não só na praxe. Contudo, a nossa maior preocupação é que se respeite o nosso código, que já prevê que não exista nenhum tipo de abuso. Caso aconteça algum existem meios para que as situações sejam resolvidas quase no próprio momento. Temos um órgão próprio, o Conselho do Salgado, cuja função é fiscalizar e regulamentar todas as atividades de Faina. Deste modo temos uma maior aproximação e envolvência em tudo o que se passa. Os factos falam por si: há muitos anos que não existe nenhum tipo de acontecimento grave na nossa Academia.

De que forma sente que a cidade de Aveiro acolhe os estudantes?

Penso que ano após ano, a cidade tem sentido mais a presença dos estudantes e cada vez mais os acolhe da melhor forma e sente que a sua presença é um benefício para Aveiro. E aqui a praxe tem também o seu trabalho feito, seja pelas atividades que envolvem a cidade ou pela preocupação de que as atividades não sejam incomodativas para o normal funcionamento da cidade e de quem nela trabalha e vive. Também através do facto de estarem alunos presentes, torna Aveiro numa cidade mais jovem. Contudo, é de relembrar que este trabalho para com a cidade nunca estará terminado e que é necessário a cada ano melhorá-lo e torná-lo cada vez mais vincado. Dando um exemplo de como o fazer, posso falar da participação dos estudantes nas festas tradicionais da cidade. A nossa participação, desde há alguns anos, na Festa dos Santos Mártires, do Alboi, é disso um bom exemplo.

E, por outro lado, de que forma olham os estudantes para a cidade e como a vivem?

Um grande facto para perceber a ligação e de como os estudantes olham para a cidade, é que muitos deles terminam o curso e acabam por permanecer em Aveiro ou nas redondezas. Aqui também a própria praxe tem um trabalho importante, que é o de incutir aos novos estudantes, e também aos mais velhos se for necessário, que têm de respeitar e cuidar a cidade que os acolhe assim como as pessoas que nela vivem. E isso tem sido uma das coisas mais visíveis.

O Conselho do Salgado tem promovido nos últimos anos várias ações de solidariedade. Com que preocupações as têm realizado?

É uma preocupação constante a realização de atividades de solidariedade, seja nas nossas praxes gerais, que têm sempre um caráter solidário e que já são uma prática realizada todos os anos, seja em tentar encontrar casos pontuais de ajuda. Em relação às praxes gerais não podemos deixar de fazer um agradecimento à Reitoria da UA que, trabalhando connosco, se mostrou sempre disponível para encontrar instituições, no caso dos alimentos, e pessoas com dificuldades, quando falamos da recolha de tampas, disponibilizando sempre os meios necessários para comunicação e logística de ajuda a estas mesmas instituições ou pessoas. Também com a Reitoria temos desenvolvido um trabalho de identificação de casos mais pontuais em que seja necessário a nossa ajuda. É, por exemplo, o caso do CASCI [Centro de Ação Social do Concelho de Ílhavo], em Ílhavo, que trata pessoas com necessidades especiais e onde era necessária uma recuperação de uma sala e uma pintura das paredes externas. Nós prontamente nos disponibilizámos a ajudar não só com as pessoas mas também com os meios.

E como tem sido a adesão dos estudantes às vossas iniciativas de caráter social?

Para além de termos tido sempre uma boa adesão por parte dos alunos a estas atividades, também os próprios cursos realizam atividades pontuais de ajuda e que têm tido também uma grande adesão por parte de todos os estudantes, não só entre os do primeiro ano como entre os mais velhos. Um bom exemplo disso são as visitas à ala pediátrica do Hospital de Aveiro em que as crianças podem brincar com os alunos de primeiro ano, as recolhas de fundos monetários para os Bombeiros ou também as próprias recolhas de tampas, entre outros. 

imprimir enviar a um amigo
tags
outras notícias