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Entrevistas
Rosa Pinho, investigadora do Departamento de Biologia e responsável pelo Herbário
Herbário da UA: uma inesquecível viagem pela flora de Portugal
Rosa Pinho e uma pequena parte da colecção do Herbário da UA
Mais de 64 mil espécimes de plantas fazem do Herbário da Universidade de Aveiro (UA) um dos maiores do país e o local ideal para conhecer a flora que a Natureza plantou em Portugal. Situado no Departamento de Biologia da UA, o Herbário nasceu em 1977 sob a direcção do investigador Ângelo Pereira. E as primeiras sementes do espaço cresceram e multiplicaram-se. Responsável pelo Herbário desde 1993, a bióloga Rosa Pinho abre as portas de um local que, anualmente, recebe várias centenas de visitantes.

O que é um herbário?

Um herbário reúne conjuntos de espécimes vegetais, secos e prensados, fixos em folhas de cartolina, devidamente identificados, catalogados e dispostos segundo a classificação botânica. É uma coleção dinâmica de plantas secas de onde se está constantemente a extrair, utilizar e adicionar informação sobre cada uma das espécies conhecidas e sobre novas espécies vegetais. Um herbário é considerado o detentor das informações sobre a flora de um país ou região, sobre a que foi extinta e a atual, representando um recurso de enorme valor, já que cada planta tem uma importância fundamental nos diferentes ecossistemas.

E ter essa informação toda concentrada num só local é uma enorme vantagem para quem a quiser estudar.

Exactamente. Uma das principais vantagens de um herbário é possibilitar o armazenamento de grandes quantidades de espécimes, ocupando um espaço relativamente pequeno, facultando o estudo de espécimes provenientes de diferentes locais e de distintos ecossistemas, conservando-se durante séculos. Os Herbários constituem assim, uma base de dados o mais completa possível sobre a diversidade e vegetação de uma dada região. São uma fonte primária para o desenvolvimento de muitos estudos fitogeográficos, monográficos e ecológicos, tendo papel vital nos estudos de biodiversidade, programas de recuperação ambiental, planeamento de desenvolvimento sustentável dos recursos naturais, estudos taxonómicos, fenológicos, evolutivos, entre outros.

Como nasceu o Herbário da UA?

O Herbário da UA foi criado pelo Dr. Ângelo Pereira, em 1977, sendo o coletor o Sr. António Marques. Na altura, devido à limitação do espaço, o herbário começou por ser regional, representando a flora do Distrito de Aveiro. Com o passar do tempo foi crescendo e ampliando a sua área de intervenção. O Herbário da UA está inscrito no índex internacional de herbários (Index Herbariorum) com a sigla AVE.

E hoje, que plantas se podem ver no Herbário do Departamento de Biologia?

Neste momento o Herbário possui plantas de norte a sul do território continental, possuindo ainda importantes coleções exteriores ao território continental e nacional, como é o caso de Porto Santo, Timor e Moçambique.

Que espécies e zonas geográficas estão melhor representadas no Herbário da UA?

Sem dúvida que está bem representada a flora da região da Ria de Aveiro, da Pateira de Fermentelos e em seguida da Serra da Estrela e da Serra do Gerês.

Há alguma planta que considere ser a mais especial na coleção da UA?

As plantas com estatuto de proteção e endémicas, que podem ser raras, vulneráveis, ameaçadas, com uma área de distribuição muito restrita. Mas sobretudo, aquelas que estão em vias de extinção na natureza ou mesmo extintas.

Que exemplar ainda não tem e que gostaria um dia de obter?

É difícil dizer uma espécie. Há várias espécies que são alvo desse desejo. Digamos que o ideal seria uma espécie nova para a ciência descoberta pela equipa do Herbário da UA.

O Herbário da UA tem exemplares já extintos ou em vias de extinção?

Poderia citar vários exemplos, mas vou citar dois e que em tempos foram colhidos pela equipa do Herbário na região da Ria de Aveiro e Pateira de Fermentelos. A Marsilea quadrifolia, conhecida como “trevo-de-quatro-folhas”, é um feto aquático que se assemelha a um trevo, apresentando folhas compostas por quatro folíolos. Habita locais inundados, como margens de rios ou reen­trâncias fluviais onde a velocidade da água é moderada. O único núcleo conhecido em solo lusitano está localizado no rio Corgo, em Trás-os-Montes. Nos últimos anos, tem-se assistido a uma diminuição acentuada e constante do número de indivíduos, devido sobretudo a alterações das margens fluviais e à competição com espécies exóticas invasoras, entre outras. Nos anos 70 e 80 foram feitas várias colheitas desta espécie na Pateira de Fermentelos, e hoje a Marsilea quadrifolia já não existe nesse local e em muitos outros locais onde já existiu. Nos anos 90 a Pateira viu-se invadida pelo jacinto-de-água( Eichhornia crassipes).

E a outra planta…

A Zostera marina, conhecida vulgarmente por fita. Esta é uma erva marinha que fez parte do composto vegetal denominado ‘moliço’. No moliço estão presentes algas e plantas superiores. Esta espécie é uma planta superior com raízes, caule e folhas e tem capacidade de produzir flores, frutos e sementes. Esta é uma das espécies que formam as pradarias marinhas, ecossistema muito importante quer do ponto de vista ecológico quer económico, pois proporciona habitats para outras espécies de fauna e flora, aumentando a biodiversidade marinha. Funcionam como refúgio contra predadores para várias espécies nos estados larvares e juvenis e como suporte das posturas. Estas pradarias estão muito ameaçadas em todo o mundo e a Ria de Aveiro não é exceção. Atualmente a Zostera marina já não existe na Ria de Aveiro. As ameaças mais comuns são a poluição da água, a utilização de artes de pesca de arrasto para colheita de bivalves, dragagens e construção de marinas e portos, a ancoragem desordenada de embarcações, a navegação fora de canais de navegação, a mariscagem e o pisoteio descontrolado e o enchimento artificial de praias.

Como é que se conservam as plantas no herbário?

A boa conservação de um herbário requer certos cuidados, pois é necessário que os exemplares sejam guardados ao abrigo da luz, da poeira e da humidade e defendidos do ataque dos insetos. Em AVE utilizamos arcas congeladoras para a desinfestação pontual em caso de infestação por insetos e para passagem do material vegetal antes de entrar na coleção. Para a desinfestação periódica de toda a coleção recorremos a empresas que fazem a desinfestação com produtos não prejudiciais ao Homem. O controlo da humidade é também muito importante por causa da infestação por fungos. É importante que o processo de secagem seja muito bem feito e que a sala da coleção tenha uma baixa taxa de humidade. No caso do aparecimento de fungos, o método utilizado é pincelar uma solução de álcool e éter nas mesmas proporções e colocar o exemplar contaminado em local seco e ligeiramente aquecido.

De que forma são catalogadas as plantas do Herbário?

Os critérios não são iguais em todos os herbários. A nossa coleção está disposta por famílias botânicas, que seguem a numeração da Nova Flora de Portugal do Professor Amaral Franco e a Flora Europaea, Tutin T. et al.

Qualquer pessoa pode utilizar o Herbário?

Qualquer pessoa? Não! Geralmente são botânicos que procuram as coleções de herbários para consultas no âmbito de trabalhos que estão a desenvolver. Ou então alunos de pós-graduação nessa área. A primeira consulta desses investigadores à coleção é sempre acompanhada pelo curador do herbário em causa.

Quem pode pedir material vegetal emprestado?

Os empréstimos são pedidos por outros herbários nacionais ou internacionais. O material é devidamente registado e emprestado por um prazo de seis meses. Caso haja necessidade de mais tempo, o herbário que solicitou o empréstimo deve fazer uma nova requisição por mais seis meses.

E visitar o Herbário?

Desde que devidamente acompanhados pelo curador ou membros da equipa do Herbário, qualquer pessoa pode visitar as instalações do Herbário que, aliás, recebe anualmente centenas de alunos de escolas de todo o país.

Nota: A página do Herbário da UA no Facebook pode ser vista aqui

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