conteúdos
links
tags
Entrevistas
Fernando Martinho, coordenador do Gabinete de Formação e Línguas do Departamento de Línguas e Culturas da UA
“Aprender uma terceira ou quarta línguas é cada vez mais útil e interessante”
Fernando Martinho, coordenador do Gabinete de Formação e Línguas do DLC
Inglês, alemão, francês, espanhol, italiano mas também árabe, chinês, japonês, persa, polaco, russo e português para estrangeiros. Porque o mundo é cada vez mais global e é a falar que nos entendemos, os cursos livres de línguas do Departamento de Línguas e Culturas (DLC) da Universidade de Aveiro (UA) têm opções para todos os gostos e necessidades, sejam de membros da própria academia, sejam da população em geral. As inscrições estão abertas até ao dia 15 de setembro e as aulas, em horário pós-laboral, iniciam-se a 23 do mesmo mês. Fernando Martinho, coordenador do Gabinete de Formação e Línguas do DLC, sublinha a importância do domínio de uma terceira ou quarta língua para quem quer fazer do mundo um lugar de entendimento, seja no plano académico, empresarial ou cultural.

Os cursos livres do DLC têm duração de 24 a 60 horas e englobam ainda, para além do inglês, alemão, francês, espanhol, italiano, árabe, chinês, japonês, persa, polaco, russo e português para estrangeiros, formações em língua gestual, comunicação técnica e escrita criativa. O coordenador do Gabinete de Formação e Línguas, Fernando Martinho, é doutorado em Linguística Portuguesa pela UA.

Aprender uma segunda ou uma terceira língua é uma decisão imprescindível para quem vive numa aldeia cada vez mais global?

É com toda a certeza. Aliás, são cada vez mais as pessoas que consideram que quantas mais línguas conhecerem, melhor estarão preparadas para a vida ativa e profissional. Sendo o conhecimento da língua inglesa um dado adquirido para grande parte dos portugueses, a necessidade de aprender uma terceira ou quarta línguas aparece como cada vez mais útil e interessante, de forma a ser mais “competitivo” no mercado do emprego.

Que tipo de públicos se têm inscrito nos cursos livres do DLC e que objetivos trazem os alunos para concretizar com a nova língua?

Os dois grandes tipos de público a frequentar os cursos livres são alunos da comunidade académica - do Departamento de Línguas e Culturas e de outros Departamentos - e pessoas que já trabalham. Tanto num caso como no outro, as motivações explícitas remetem para a utilidade de conhecer línguas estrangeiras por razões profissionais - sendo que o aprofundamento da língua inglesa constitui um dos maiores motivos de procura. No entanto, as outras línguas europeias têm tido ultimamente bastante procura, em particular o alemão - embora o francês e o espanhol tenham tido também várias turmas de níveis diferentes a funcionar. De referir que, sendo a UA uma instituição que recebe anualmente centenas de alunos de mobilidade, bolseiros e investigadores estrangeiros, muitos optam também por frequentar o curso livre de Português Língua Estrangeira, por considerarem útil o conhecimento da nossa língua. Para finalizar, será importante mencionar que, com base nas respostas dos participantes ao nosso inquérito sobre a anterior edição dos cursos livres, no final do ano letivo 2012/2013, a esmagadora maioria dos inquiridos invoca, para justificar a sua escolha dos cursos livres no DLC, melhores perspetivas de emprego, imperativos ligados à globalização do mercado e condições financeiras vantajosas.

O inglês deixou de ser a língua que todos devemos dominar e já deu lugar a outras línguas de aprendizagem prioritária?

O inglês continua a ser a língua internacional, mas, porque muitos já conhecem esta língua, rapidamente as pessoas ativas tomam consciência de que não será suficiente dominar apenas a língua internacional para ser competitivo, quer em Portugal, quer no estrangeiro. A competitividade de um ativo, e portanto a sua probabilidade de encontrar ou conservar um emprego, está diretamente ligada à sua capacidade de se destacar em relação à média dos trabalhadores. Quantas mais línguas conhecer, maior oportunidade terá então de “estar acima da média”, de se distinguir e assim conseguir um emprego. O fator empregabilidade é portanto determinante na tomada de consciência da necessidade de diversificar a aprendizagem linguística.

A aposta no ensino do chinês e do árabe são um reflexo das novas realidades sócio-económicas mundiais? Como caracteriza os alunos que se têm inscrito nestes dois cursos?

As línguas associadas aos chamados mercados emergentes têm verificado de facto uma procura significativa e o número de alunos que se inscrevem em chinês tem vindo a aumentar regularmente. A aposta no ensino desta língua está também diretamente relacionada com a decisão tomada pelo DLC, há alguns anos, de introduzir o seu ensino  no plano curricular do curso de Línguas e Relações Empresariais. A procura continuada da língua chinesa por inúmeros alunos, que entretanto já ingressaram no mercado do trabalho, assim como a cooperação do DLC, a vários níveis, com instituições e empresas interessadas em apostar no imenso mercado chinês, provam que foi uma decisão pertinente.

A que instituições e empresas se refere?

De referir, por exemplo, a cooperação da UA com instituições chinesas sediadas em Portugal tais como embaixadas e associações industriais, comerciais e culturais, instituições portuguesas com relações preferenciais com Macau e com a China e empresas portuguesas nos setores de fabrico, extração, tecnologia e serviços.   Por outro lado, existe para os professores de português um “nicho de mercado” potencial, já que, depois de aprenderem chinês, os mesmos podem ir para a China ensinar português, língua particularmente procurada pelos chineses para os mercados africanos e brasileiro e que ainda não têm quadros com competências em chinês. Os cursos livres pretendem por isso oferecer e estender a oferta do chinês a um público mais diversificado, interessado em alargar horizontes culturais e profissionais, independentemente do percurso académico escolhido.

E em relação ao árabe?

Quanto ao árabe, a razão da oferta desta língua segue essencialmente o mesmo raciocínio que as razões invocadas para o chinês. De facto, são cada vez mais as empresas portuguesas que investem no Magrebe - veja-se por exemplo as informações da AICEP - e que procuram obviamente trabalhar com pessoas que tenham conhecimentos da língua e da cultura árabe.

Contudo, ainda não nos podemos pronunciar em termos de números de pessoas interessadas, sendo esta a primeira vez, depois de uma interrupção de vários anos, que se volta a oferecer o árabe nos cursos livres.

O curso da língua persa chama a atenção devido a algum exotismo que está associada à região do Médio Oriente onde esta é falada. Há muitos alunos interessados? Que aspirações trazem?

Sendo esta a primeiríssima vez que se oferece o persa, a língua do Irão, no âmbito dos cursos livres, ainda não podemos dar indicações concretas em termos de número de inscritos e, consequentemente, sobre as respetivas aspirações de quem se matricular. Esta oferta surge da presença na UA, e particularmente no DLC, de recursos humanos nativos, desejosos de divulgar a sua língua e cultura, assim como da existência de uma comunidade iraniana cada vez maior, na academia e no país, situação que poderá despertar o interesse da população por esta língua.

Como descreve o método de ensino utilizado pelos cursos livres de línguas?

A escolha do método de ensino nos cursos livres de línguas é deixada ao critério dos docentes responsáveis pelos respetivos cursos, por razões relacionadas com as grandes diferenças verificadas entre as várias línguas lecionadas e as perceções que os alunos lusófonos têm das mesmas. Existem diferenças importantes, por exemplo, entre o conhecimento prévio que os portugueses têm da língua inglesa e aquele que têm da língua alemã, pelo que o método de ensino terá necessariamente de ser adaptado às respetivas situações. As próprias necessidades dos grupos podem, por outro lado, influenciar o método de ensino, como por exemplo no caso do francês, em que tivemos turmas onde a grande maioria dos inscritos necessitavam de aperfeiçoar a expressão oral, por motivos profissionais.

Há diferenças entre o ensino das línguas europeias e das não europeias?

No caso das línguas europeias, há que sublinhar que as competências e os objetivos de cada nível estão amplamente descritos num documento europeu, o Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas (QECRL), que define uma abordagem orientada para a ação, “na medida em que considera antes de tudo o utilizador e o aprendente de uma língua como atores sociais, que têm que cumprir tarefas (que não estão apenas relacionadas com a língua) em circunstâncias e ambientes determinados, num domínio de atuação específico”. Já no caso das línguas não europeias, estes critérios não estão homogeneizados num documento único, pelo que cada docente e eventualmente cada área de línguas - quando existem vários docentes a ensinar uma língua, procura-se uma certa coerência no método adotado entre eles - é responsável pelo método escolhido.

imprimir
tags
outras notícias