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Opinião
Opinião de Carlos Borrego, professor e diretor do Departamento de Ambiente e Ordenamento da UA
Repensar o ambiente: luxo ou inevitabilidade?
Carlos Borrego recebe distinção do município
Aproveitando o lema da 10ª Conferência Nacional do Ambiente, de 6 a 8 de novembro, o diretor do Departamento de Ambiente e Ordenamento (DAO) da UA assina um texto de opinião a propósito do Dia Mundial do Ambiente, em ano do 35º aniversário do DAO, fala num silencioso lado bom deste "choque brutal" que sentimos e no que ainda falta para o ambiente ficar mais agradecido: ultrapassar o individualismo e um verdadeiro desenvolvimento sustentável.

Chegámos outra vez ao dia 5 de junho: Dia Mundial do Ambiente! Este ano com o mesmo sabor amargo das dificuldades, mas com a esperança da celebração do 35º aniversário do Departamento de Ambiente e Ordenamento (DAO), quando a nossa Universidade de Aveiro comemora 40 anos.

Num momento em que a Natureza se apresenta especialmente inquieta, com manifestações causadas, ou não, pela Humanidade, mas que cobram um alto preço em vidas, tais como furacões furiosos, enchentes devastadoras, deslizamentos letais, invernos glaciais, intoxicações por ar ou água poluídos, estas duas comemorações levam-nos a refletir, mas, principalmente, têm de conduzir todos à ação em defesa do Planeta.

De facto, a tibieza da economia devia ter sido uma oportunidade para melhorar a qualidade do ambiente. Da crise, sabemos hoje que todos vamos viver com menos dinheiro nos próximos anos. A economia está a afundar, as lojas estão mais vazias, os restaurantes ficaram às moscas, os carros circulam menos quilómetros, as férias foram reduzidas, os presentes são mais modestos, a felicidade tornou-se mais simples.

À custa desta penalização coletiva, a crise está, na prática, a prestar um bom serviço ao ambiente. Em 2012, com a economia a bater no fundo, as emissões dos gases com efeito de estufa, os tais que aquecem o planeta e provocam as alterações climáticas, por exemplo, caíram 2,1% na União Europeia. Em tempos de “vacas gordas”, jamais se chegaria a tal resultado.

Tem vindo a acontecer o mesmo em Portugal: as emissões desses gases estão a baixar, devido ao menor consumo de combustível nos automóveis, nas centrais térmicas e nas indústrias e em 2012 já caíram 4%. Há menos lixo. Poupa-se em matérias-primas. As famílias estão a prestar mais atenção aos contadores de água e de eletricidade. A poluição atmosférica abrandou. É um choque brutal, mas pelo menos o Planeta agradece.

Agradeceria muito mais, no entanto, se o momento fosse aproveitado para relançar algo diferente, uma sociedade baseada num ideal distinto de progresso, o dito desenvolvimento sustentável, e não o mero crescimento contabilístico. Ou seja, o progresso fundado em três pilares equitativamente importantes: a economia, o ambiente e o bem-estar social.

A comemoração dos 35 anos do DAO é, por isso, um momento de regozijo por termos mostrado que a aposta no Ambiente, quando este era considerado por tantos como um devaneio de sonhadores, foi ganhadora, tanto na substância como na criação de uma nova área de emprego e de riqueza na economia. Fomos pioneiros e queremos continuar a ser incontornáveis na definição do futuro do ambiente e, por isso, o lema da 10ª Conferência Nacional do Ambiente (6 a 8 de novembro) que inicia esta prosa, “Repensar o ambiente: luxo ou inevitabilidade?”, é interpelador e o DAO tem respostas. Participemos para nos sentirmos também atores da mudança.

Mas a principal mudança começa por afastar a mentalidade individualista que predomina, que funciona a curto prazo e não tem respeito pelos outros, incluindo os vindouros. É fundamental que construamos uma visão inovadora de progresso e de bem comum. Uma visão que possa trazer uma abordagem mais inclusiva, justa e equilibrada, que irá promover a sustentabilidade, erradicar a pobreza e melhorar o bem-estar e a felicidade.

 

Carlos Borrego

Professor e diretor do Departamento de Ambiente e Ordenamento da UA

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