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Entrevistas
Jorge Ferraz de Abreu e Pedro Almeida, coordenadores do grupo de investigação em Social iTV da Universidade de Aveiro
Quem TV e quem te viu: UA na senda da televisão do futuro
Os investigadores Pedro Almeida e Jorge Ferraz de Abreu
O cenário é o mesmo desde que a caixa nasceu há 80 anos para mudar o mundo: sofá, comando na mão, zapping para a frente, zapping para trás na única interação possível com a televisão. Na única? Já não. Com o advento da televisão interativa, o telespectador está hoje a deixar de ter apenas o poder de ligar e desligar o aparelho e de lhe mudar o canal. Na Universidade de Aveiro (UA), através do grupo de investigação em Social iTV, ao simples e redutor zapping está a ser acrescentado um vasto conjunto de aplicações que permitem aos telespectadores, através do comando, fazer da televisão uma imensa rede social.

Coordenado por Jorge Ferraz de Abreu e Pedro Almeida, professores no Departamento de Comunicação e Arte da UA, o grupo de investigação em Social iTV, da Unidade de Investigação CETAC.MEDIA - Centro de Estudos das Tecnologias e Ciências da Comunicação da UA, tem em mãos vários projetos que já estão a mudar a forma como nos habituámos a ver e a viver a televisão. Criação e partilha de eventos e conversas, apoio nos cuidados de saúde e jogos em rede, tendo como base os conteúdos televisivos, são algumas das aplicações desenvolvidas pelos investigadores da UA que estão a entrar em casa de quem assiste TV. 

Numa conversa a duas vozes, os especialistas em Ciências e Tecnologias da Comunicação e mentores do grupo de Social iTV da academia de Aveiro explicam de que forma estão a ajudar a ‘caixa mágica’ a reforçar o paradigma que ela própria fez nascer há oito décadas atrás: o mundo inteiro à distância do sofá.

O que é exatamente o conceito de Social iTV?

Jorge Ferraz de Abreu (JFA) _ É uma área de investigação que pretende capitalizar o potencial de sociabilização inerente à televisão. Este objetivo é alcançado através de uma mediação tecnológica que permite estender o que já fazemos com a televisão há muitos e muitos anos: vermos TV em conjunto e falarmos sobre o que vemos.

De facto, à volta de um aparelho de televisão ligado há quase sempre duas ou mais pessoas…

JFA_ A televisão, desde cedo, foi um elemento de agregação social - as pessoas gostam de ver televisão em conjunto - e de promoção da comunicação interpessoal, pois gostamos de falar uns com os outros sobre o que vimos ou estamos a ver na TV.

Pedro Almeida (PA) _ A título exemplificativo, podemos referir o facto das pessoas conversarem frequentemente sobre os filmes que viram, sobre as novelas, os jogos de futebol, os documentários, etc. Acresce que, por vezes, até o fazem durante a visualização do programa, por exemplo, telefonando a alguém para o alertar do que está a passar na TV.

JFA _ É esta dinâmica social que se traduz num dos maiores prazeres que as pessoas retiram de ver televisão, nomeadamente pela sensação de partilha de algo feito em comum e por “alimentar” as conversas do dia a dia que as aplicações de Social iTV pretendem sustentar.

Que tipo de funcionalidades usa a Social iTV para potenciar a agregação entre quem vê televisão?

JFA_ Aplicações que associam à normal receção televisiva funcionalidades provenientes das redes sociais, nomeadamente informação de presença que permite saber quem, dos nossos amigos, também está a ver TV e, eventualmente, que programa está a ver. Estas aplicações incluem, igualmente, funcionalidades que possibilitam a comunicação em tempo real através de texto ou voz e a recomendação de programas.

Que projetos abraçados pelo grupo de investigação em Televisão Interativa da UA se podem destacar?

JFA_ Entre os diversos projetos que temos desenvolvido, com financiamento público e privado, destacaríamos o iNeighbour TV e o Crossed TV Games.

Comecemos então pelo iNeighbour TV...

JFA_ É uma aplicação de televisão interativa concebida especificamente para um público sénior e que tem dois macro objetivos. Em primeiro lugar, a aplicação destina-se a promover a interação social usando a televisão como elemento catalisador das conversas entre seniores, combatendo com isso a tendência de isolamento que tipicamente se verifica nesta faixa etária. Acresce que a aplicação usa o televisor como mediador tecnológico permitindo aos seniores criarem “eventos” em que desafiam os seus amigos para sociabilizarem no exterior. Falo, por exemplo, da marcação de uma caminhada.

PA_ Em segundo lugar, o iNeighbour TV permite apoiar os cuidados de saúde, emitindo lembretes que se sobrepõem à emissão televisiva sempre que está na hora de tomar um medicamento ou quando, no dia seguinte, o utilizador tem uma consulta ou um exame médico. Há ainda uma componente transversal a toda a aplicação que permite aos cuidadores, por exemplo os filhos, serem avisados, através do seu telemóvel, de potenciais situações de risco que se estejam a passar com os seus dependentes.

E em relação ao Crossed TV Games, que funcionalidades tem esta vossa aplicação?

PA_ É um projeto desenvolvido em parceria com a PT Inovação [do grupo Portugal Telecom] com o objetivo de promover a interação entre espectadores a partir de dinâmicas de jogo e desenhar e validar formas inovadoras de entretenimento através da televisão. A partir destes objetivos foi desenvolvido um protótipo [o Wize] que permite aos espectadores responderem através da televisão interativa a perguntas sobre programas populares enquanto assistem a esses programas em direto. Com base nos pontos obtidos por essas respostas, o espectador pode, a partir da aplicação de televisão interativa, apostar sobre o que irá acontecer no futuro em programas televisivos [por exemplo, quem será o próximo vencedor de uma gala ou quem irá vencer um jogo de futebol]. Os pontos acumulados podem ser trocados num mercado virtual por merchandising ou serviços relacionados com os conteúdos televisivos.

JFA_ Finalmente, este projeto explora as componentes sociais ao incluir rankings gerais e por localidade dos melhores jogadores. Os resultados da avaliação no terreno permitiram perceber o elevado interesse dos espectadores por estas práticas de jogo em torno da televisão e, por outro, o elevado potencial da aplicação como forma de fidelizar os espetadores a programas de grande popularidade.

E para além do iNeighbour TV e do Crossed TV Games, que outros projetos tem acolhido o grupo de investigação em Social iTV?

PA_ O grupo de investigação acolhe também alunos de mestrado e de doutoramento que têm desenvolvido projetos bastante interessantes em diversas áreas. Falo do MyChannel, uma criação de canais pessoais sobre redes de IPTV, do MeoAD+, um sistema de IPTV adaptado para utilizadores com limitações visuais, e do SINU, um sistema não intrusivo de identificação de telespectadores seniores.

Podemos tirar definitivamente do nosso imaginário a imagem do telespectador sentado no sofá apenas com o poder de mudar de canal?

JFA_ Diria que sim, mas só no que diz respeito ao poder de apenas mudar de canal [risos]. A questão do sofá, e todo o ambiente de relaxamento associado ao consumo televisivo, é, e será sempre, um forte motivo para que a TV continue a fazer parte das nossas rotinas diárias. Mas quanto à questão da televisão ser cada vez mais interativa e de oferecer uma experiência mais personalizada, não tenho dúvidas nenhumas.

Como descreve o telespectador contemporâneo?

JFA_ Esta é uma pergunta muito interessante, para a qual o nosso grupo de ID pretende dar resposta. No âmbito do projeto TV Discovery and Enjoy, analisamos as respostas de 550 pessoas que, através de um inquérito online, nos ajudaram a conhecer melhor o atual ecossistema televisivo. Nada como dar uma olhadela no infográfico que temos disponibilizado no nosso site.

As redes de televisão, nomeadamente os canais portugueses, têm conseguido adaptar-se a esse novo telespectador?

PA_ Diria que os operadores de serviços de TV paga têm feito grande parte do caminho ao incluir funcionalidades que permitem, por exemplo, ver os programas de dias anteriores. Mas admito que, por parte dos canais, há ainda muito a fazer, nomeadamente ao nível da exploração de conteúdos interativos e cross-platform que beneficiem da utilização complementar dos smartphones e dos tablets.

Alguma vez o termo “ver televisão” cairá em desuso? Como imaginam que no futuro possa ser a relação entre o público e a caixa mágica?

JFA_ Como referi anteriormente, acredito que “ver televisão” continuará a fazer parte das rotinas diárias. É certo que será um visionamento, dada a interatividade, mais participativo e mais repartido pelos diversos terminais. Mas haverá sempre o prazer do “ver em conjunto” e do “ver em conforto” que só o grande ecrã e o sofá permitem.

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