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Entrevistas
Fernando Correia, diretor do Laboratório de Ilustração Científica da Universidade de Aveiro
“Cada ilustração é uma nova descoberta das maravilhas do mundo natural”
Fernando Correia e um dos seus trabalhos: uma coruja-das-torres e uma coruja-do-mato
Mas, afinal, de que se fala quando o tema é a Ilustração Científica (IC)? De arte? De ciência? E porque não utilizar-se antes uma simples máquina fotográfica digital em vez de lápis e papéis para retratar? Fernando Correia, diretor do Laboratório de Ilustração Científica (LIC) da Universidade de Aveiro (UA), é, em Portugal, quem melhor pode desenhar os porquês de uma atividade que nos últimos anos tem renascido em força na ciência portuguesa.

Pioneiro na reintrodução da IC, enquanto disciplina integrada no plano curricular do ensino superior moderno nacional, Fernando Correia é o responsável por mais de 75 cursos intensivos, ministrados dentro e fora do país, dedicados à ciência e arte pela qual está apaixonado desde sempre. Como ilustrador, participou em quase uma centena de exposições um pouco por todo o mundo.

Professor no Departamento de Biologia (DBio) da UA, o biólogo, mestre em Ecologia Animal e especialista em IC, é o diretor do Laboratório de Ilustração Científica (LIC) da academia de Aveiro. Criado em 2012, este é um espaço único em Portugal. Destinado à investigação e experimentação no universo da imagem documental, que é como quem diz, destinado à ilustração científica enquanto modelo de comunicação do conhecimento produzido pela ciência, o Laboratório promove ainda um curso de formação em IC.

Comecemos precisamente pelo início: de que se fala quando o tema é a IC? De arte? De ciência?

Aquilo que a minha experiência pessoal indica, em plena sintonia com o que depreendemos da história da ciência se estudada através das imagens, é que a IC é um domínio da comunicação científica que completa o discurso científico. Complementa-o e, muitas vezes, suplementa-o. Logo é mais ciência do que arte. A arte fornece as ferramentas que moldam através do desenho e pintura e a ciência o contexto, ou seja, a descoberta e a narrativa a ser figurada em imagem. Não devemos esquecer que uma IC não é, por defeito e génese, uma obra artística. A IC é um outro registo, em que se cria memória de um pedaço do conhecimento científico, o discurso visual, tal como o é o texto, o discurso literário, e ambos podem ser descritivo-interpretativos e unos na função. Em suma, a IC é um documento científico que vai mais para além do exercício da pintura e do desenho.

Ainda faz sentido a IC na era da fotografia digital?

Claro que sim! E se bem que com o advento da fotografia se tenha vaticinado o fim da IC — e numa análise superficial assim parecia, pois obtínhamos no imediato uma imagem à escala e hiperrealista do objeto de estudo científico — o certo é que com o passar do tempo, e já em pleno século XX, esta tem vindo a fazer mais do que reganhar terreno à exposição fotográfica, naquilo que é o grande objetivo: transmitir o conhecimento científico. A prova disso é que hoje se observa a implantação de núcleos de IC em vários centros de investigação, onde também se acaba por ensiná-la e não a fotografia científica.

A UA é uma dessas evidências graças ao pioneirismo do DBio que também criou um Laboratório de Ilustração Científica, um nicho expositivo [ExpoDBIO] e um curso de formação em IC . Repare que, na verdade, e mais ainda graças ao fenómeno da fotografia digital que popularizou a fotografia a custo reduzidíssimos, presentemente observa-se um inverter de funções e é a IC que usa da fotografia, como mais uma das ferramentas ao seu dispor, para sustentar a criação da imagem científica.

Qual é a grande vantagem da IC em relação à fotografia?

A vantagem mais imediata da IC é que esta permite visualizar o que não se vê [teorias, teses ou conceitos], ou seja, as ideias que surgem do trabalho do investigador. No caminho acaba por devolver à ‘vida’ seres empalhados, ou conservados em fixadores químicos, ou ainda, e mais difícil, aquilo que já não existe mais, como seriam aqueles seres hoje extintos.

Como uma máquina do tempo.

Exatamente! A IC pode até ser considerada como uma autêntica máquina do tempo que nos permite recuar até milhões de anos e visualizar como poderia ter sido a realidade por então... Mas na verdade, o que ela nos abre é a janela para o pensamento, as ideias de quem interpretou os achados, permitindo-nos assim comungar diretamente da visão, reflexão e interpretação muito própria do cientista que nela trabalhou.

Hoje a tendência, mais do que de exclusão entre fotografia e ilustração, é a de integração, graças em muito às plataformas digitais [hardware], aplicações [software] e ao engenho dos ilustradores científicos que falam a linguagem e percebem os códigos dos investigadores. A conclusão lógica é que quer o desenho, quer a fotografia, são duas das grandes famílias da IC, pois ambos continuam a ilustrar os trabalhos científicos e por defeito, atendendo à etimologia da palavra ‘ilustração’, um fotógrafo acaba também por ser um ilustrador científico.

Até que ponto, nesses retratos do que já está extinto, a especulação assume um grande papel no desenho final?

A ilustração paleontológica, se encarada no âmbito da reconstituição do ser extinto, é de facto, e de entre todos os tipos de ilustrações científicas, aquela que reúne em si maior carga especulativa e, concomitantemente, pode ser vista como parcialmente subjetiva porque recorre à imaginação do ilustrador. Contudo, a criatividade que alicerça essas imagens é objetiva e propositadamente delimitada, pois o ilustrador não inventa ou constrói algo de novo e que nunca existiu. Na verdade, o ilustrador de paleontologia, que por vezes também se equivale ao paleo-artista, opta por estudar seres com uma anatomia semelhante e transporta essas soluções orgânicas contemporâneas para o ‘ressuscitar’ desse ser que já existiu há milhões de anos atrás. Assim, e em estreita colaboração com o paleontólogo ou investigadores de outras áreas, o ilustrador utiliza os seus conhecimentos de biologia funcional, anatomia comparada e biomecânica, ou ainda de todos os conhecimentos científicos interdisciplinares que possui à data, para dar corpo ao fóssil.

Um bom ilustrador, mesmo que tenha que necessariamente introduzir alguma subjetividade na sua imagem científica, para preencher lacunas com hipóteses sempre validadas pelo cientista que o acompanha, fá-lo sempre de modo controlado e bastante refletido e nunca de forma estritamente intuitiva ou com ideia de alterar a realidade em prol do seu imaginário muito próprio e intrínseco.

A área onde a IC mais se faz notar é na paleontologia. Concorda?

Não. A ilustração científica, como a própria designação indica é um instrumento que agiliza a comunicação transversalmente a todas as ciências. Haverá ciências que, pelo seu percurso histórico ou sub-domínios, usam mais ou menos a figuração científica — historicamente a medicina foi e é uma das ciências em que a imagética científica está sempre presente. Mas a biologia não lhe fica atrás no campo da história natural e apresenta intervenções ao nível de todos os reinos de seres vivos — e basta pensar no ‘infindável’ mundo da biodiversidade, desde a mais simples das bactérias ao mamífero mais evoluído, para ter uma vaga ideia da multiplicidade de imagens que podem ser desenhadas...

Mais recentemente, com o erigir da paleontologia como ciência após os trabalhos de Cuvier, podemos dizer que é dos outros campos da ciência em que mais uso se faz da IC. Contudo, existe uma particularidade que foi capaz de projetar a paleontologia sobre as outras ciências, graças a fenómenos da divulgação massiva e dispersiva dos achados paleontológicos e das suas impressionantes teorias explicativas. De facto, o mistério que envolve as gigantescas formas reptilianas foi capaz de chamar a atenção e de inflamar a imaginação popular, desde o mais petiz ao mais idoso. Ora isso impulsionou um campo da ilustração paleontológica — o da reconstituição dos grandes vertebrados que dão pelo nome de dinossauros — o qual acabou por transbordar para outras formas de imagens, como o cinema ou a animação, os quais contribuíram decisivamente para potenciar ainda mais a fama e a exposição desse tipo particular de imagens.

Que outras áreas científicas abrange a IC?

A IC tem lugar em campos de intervenção tão vastos como o sejam as disciplinas científicas que precisam de imagens para veicular os conhecimentos adquiridos. Com base nisso podemos construir toda uma taxonomia e nomenclatura próprias. Podemos ter ilustração médica [humana e a veterinária], ilustração geográfica [cartografia, por exemplo], ilustração das ciências sociais [com domínios principais como a antropologia, arqueologia, etnográfica, etc.], ilustração das ciências do comportamento animal ou humano [etologia], ilustração astronómica, geológica, paleontológica, biológica [anatomia interna e externa de animais, plantas, fungos, etc.] e muitos mais.

No entanto, toda a classificação é por defeito artificial. Existe a necessidade de compartimentar o conhecimento para melhor gerirmos essa informação, mas não devemos esquecer que campos tão díspares como a medicina, a geografia ou paleontologia vão beber inspiração e conhecimentos à biologia, à física, à química, à geologia e outras ciências para criarem e credibilizarem os seus próprios achados.

Esta interpenetração e transdisciplinaridade leva a que um ilustrador especializado, por exemplo em paleontologia, tenha que saber utilizar os seus conhecimentos noutras ciências para tornar a sua produção imagética ainda mais credível aos olhos dos cientistas, cuja análise é sempre extremamente criteriosa e crítica.

Na realização do desenho, há sempre uma interação multidisciplinar na busca de um consenso entre o ilustrador e os cientistas?

De facto, essa é uma das principais questões que formata a IC. Por mais que pareça ser a obra de um ilustrador, a verdade é que é a súmula de muitas mais intervenções. O ilustrador e o cientista não podem estar de costas voltadas um para o outro e, obrigatoriamente, têm que interagir, trocar opiniões e criar sinergias. Claro que existe autonomia por parte do ilustrador mas esta é sempre, e em certa medida, limitada por vários fatores como o tempo, a técnica, o público-alvo a que se destina ou a perceção do investigador que forneceu os conteúdos a figurar.

O ilustrador científico não deve esquecer que a sua função é a de transmitir um determinado conhecimento científico tendencialmente a uma audiência alargada e específica e, por isso, deve refletir e criar um veículo visual que utilitariamente cumpra essa meta com eficácia. Uma IC é sempre um resultado gráfico de consenso, um compromisso, por vezes delicado mas tremendamente eficaz, entre saberes e experiências.

O que o levou a apaixonar-se pela IC?

Penso que, em última análise, foi essa perceção de compromisso e de articulação pois não tinha porque necessariamente abandonar o desenho e a pintura em prol da ciência (no meu caso, a biologia que, como rapaz que sempre convivi de perto com o campo, sempre me cativou), nem vice-versa.

A IC representa para mim a plataforma do entendimento, entre campos do saber humano aparentemente tão imiscíveis como a Arte e Ciência. Como bónus, permite-me continuar a aprender, a investigar e também a ensinar. E é neste trinómio cíclico que me sinto confortável, pois cada fase catapulta todas as outras para novos estádios e capacita-me com a possibilidade de evoluir e crescer como pessoa e especialista, de forma sustentada.

Poder desenhar o pensamento científico, misturar ideias minhas com a de outros para criar algo que de outra forma não existiria sem ser pela mancha de cor e do risco é, brincando com a polissemia, um risco que fascina e motiva. Conseguiremos nós chegar a um resultado que simultaneamente nos agrade, satisfaça o investigador e cumpra eficazmente a sua função mal seja publicada? Esta será sempre uma das grandes questões que catalisa e alimenta a força de querer fazer.

Que temas lhe dão mais prazer ilustrar?

Existem dois campos que me motivam grandemente: a biologia, que é a minha área de intervenção predominante, pela exploração e descoberta dos mistérios da vida contemporânea extante e, ainda, a paleontologia, a minha área de fruição, pela descoberta da biodiversidade extinta e de como a arguta mente humana consegue ser melhor que o mítico Sherlock Holmes, investigando ténues pistas para descobrir a solução do mistério.

Porquê esta aposta da UA num curso pioneiro no país, o Curso de Formação em IC?

Entre vários motivos que podemos avançar, destacaria dois. O primeiro porque finalmente o universo de investigadores nacionais está a despertar para a problemática e importância da comunicação científica como meio e estratégia, não só para chegar a um fim com maior sucesso, mas também para conseguir os recursos humanos, capitais, de reafirmação e credibilidade científica, entre vários outros. A UA e, principalmente, o DBio têm desenvolvido ao longo destes anos várias iniciativas que mais do que acompanhar a tendência, apontavam já algumas direções a seguir. E a IC era uma delas. O segundo motivo entrosa diretamente no primeiro e é a sua continuação lógica, uma vez que urgia tomar a dianteira e formar profissionais verdadeiramente credíveis e com sustentadas habilitações e competências na área da IC, o lado visual do discurso científico. Esta é uma das razões pelo qual o Curso de Formação em IC está sedeado num centro de investigação científico, onde a ciência se respira, acontece e fervilha, e não num departamento de artes. Em breve, seguindo a máxima atribuída ao apóstolo S. Tomé, o Incrédulo, em que Ver é Acreditar, iremos lançar um website, em que mais que apresentar as mais valias e vantagens, iremos mostrá-las.

Um bom ilustrador também tem de ter arte no manuseamento do desenho. Talvez por isso, a IC não é um trabalho para qualquer pessoa. Esta formação do LIC é só para quem tem ‘jeito’ para o desenho? 

Não necessariamente, pois sou apologista que o saber-se desenhar não é algo intrínseco ao individuo, isto é, não acredito no determinismo genético, nem no dom. Praticamente tudo nesta vida se cultiva, ou aprende, e o saber-se desenhar é determinado também pelo investimento que cada um de nós lhe concedeu ao longo da sua existência.

Fazer ilustração científica não é apenas observar e ter capacidade de representar com fidedignidade, isto é, não depende apenas do “saber desenhar” como capacidade inata. Também passa muito por estudar e investigar uma realidade que muitos desconhecem e aqui, nos métodos de obter, gerir, sistematizar e sintetizar informação de calibre científico, são os alunos e ilustradores com formação em ciência aqueles que tomam a dianteira pois, obviamente, foram treinados para isso.

A verdade é que o ato de aprender é uma dialética construtiva entre erros e sucessos, entre perguntas e respostas. Seja ele dentro da ciência, seja na área das artes, tudo passa por adquirir experiência. Não é pois um ato reflexo, mas sim aturadamente refletido e treinado. Respondendo de modo categórico e em jeito de súmula, a IC é para todos aqueles que estão motivados a seguir este caminho.

Que podem os alunos esperar desta formação?

A nossa constante preocupação em ministrarmos os nossos conhecimentos da melhor e mais diversificada forma, para que as competências com que saiam sejam mais do que suficientes para encararem o mercado de trabalho com otimismo. Podem esperar o nosso esforço para apresentarmos novos horizontes e perspetivas, diversificando ao máximo os campos de intervenção em que eles serão treinados. E para isso, fazemos questão de trazer profissionais e docentes de outras universidade, sejam eles nacionais ou de outros países. Por exemplo, presentemente trouxemos propositadamente, e em exclusivo, o professor Marcos António Silva, docente da Universidade de Brasília e um dos ilustradores científicos mais conceituados do Brasil, o qual está a orientar a unidade de formação Ilustração Zoológica.

Para isso, e uma vez que um curso não é, ou deve ser, uma via com uma única direção, também se exige bastante dos alunos: muito trabalho, incessantes desafios e uma motivação para sempre fazerem ainda mais e ainda melhor. Só assim se persegue a utópica excelência, que todos nós temos a expectativa de algum dia conseguir alcançar.

Que desenho mais prazer lhe deu fazer até hoje?

Todos os projetos de ilustração científica me deram enorme satisfação já que, para mim, trabalhar nesta área não é uma obrigação. No geral considero-me bastante afortunado por poder conciliar a minha vida profissional com o que me dá imenso prazer poder fazer.

Que desenho ainda não fez mas que gostaria, um dia, de concretizar?

O próximo projeto que me seja apresentado! Cada ilustração é uma nova descoberta das maravilhas do mundo natural e do pensamento humano. Encaro cada projeto como o Projeto, pois para poder transmitir algo, por vezes complexo e sem ser de modo oco, estéril ou vazio, tenho que o perceber e assimilar — e eu sinto-me bem quando algo alimenta a minha curiosidade pelos mistérios da vida. É uma reminiscência dos tempos em que na nossa infância, alegremente e sem temor, explorávamos o mundo que nos rodeava.

Gosto de me colocar na pele do investigador, interiorizando as suas prioridades, ideias e preocupações e, recorrendo à mesma metodologia, colocar-me também no papel do recetor a quem se destina a mensagem científica a veicular através da ilustração. Só estando atento a todas estas variáveis, fazendo uso da retórica visual e sem esquecer o que deve ser enfatizado na imagem, é que poderemos fazer um bom trabalho e evitar que o resultado imagético final fique aquém das expectativas de todos, das minhas pessoais, das do cliente ou cientista e das do público-alvo.

Enquanto sentir este desafio, o afã de mais descobrir e melhor transmitir, e continuar a gostar da minha profissão como gosto volvidos mais de 25 anos, sentir-me-ei sempre motivado, fruindo o momento dedicado a cada ilustração científica.

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