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Entrevistas
Sofia Reboleira, bióloga da Universidade de Aveiro especialista em fauna subterrânea
“Descobrir uma forma de vida nova é sempre emocionante”
A investigadora Sofia Reboleira
Descobriu, nos últimos anos, inúmeras espécies subterrâneas nunca antes vistas pela Ciência. Escaravelhos, pseudoescorpiões, aranhas e crustáceos estão entre os animais que os olhos humanos observaram pela primeira vez através de Sofia Reboleira e das suas expedições ao subsolo do planeta. Os achados da bióloga da Universidade de Aveiro, muitos dos quais realizados em grutas nacionais, têm contribuído decisivamente para o reforço do património biológico português. Natural das Caldas da Rainha, a bióloga, que recentemente concluiu na academia de Aveiro o doutoramento em Biologia, cedo se deixou seduzir pela espeleologia que, aliada à sua formação académica, foi essencial para ditar a sua especialização em fauna subterrânea. Sofia Reboleira é hoje, aos 32 anos de idade, um nome incontornável da Biologia em Portugal.

De onde lhe vem a atração pela exploração de grutas?

O meio subterrâneo é absolutamente fascinante, as paisagens subterrâneas são de uma beleza indescritível e aliado a isso há uma componente muito forte de aventura e descoberta. Do ponto de vista de exploração, as grutas são uma das últimas fronteiras do desconhecido no nosso planeta. E do ponto de vista da investigação científica são verdadeiros laboratórios e modelos de estudo para variadas ciências.

E a Biologia? Como nasce essa paixão e de que forma percebeu que podia ligar essa ciência à espeleologia?

A ciência que estuda a vida é, para mim, a mais bela das ciências. A diversidade de formas de vida na Terra é deslumbrante e poder estudar algumas destas formas de vida é um verdadeiro privilégio. Antes de estudar a licenciatura em Biologia já me dedicava à exploração de grutas e saber da existência de formas de vida adaptadas ao meio subterrâneo foi o que me fez enveredar pela bioespeleologia como área de estudo.

Ao longo dos últimos anos tem descoberto inúmeras espécies de insetos cavernícolas. Como descreve a sensação de ter nas mãos um animal nunca antes visto?

Descobrir uma forma de vida nova é sempre emocionante, por muitas descobertas que se façam, encontrar algo novo é uma alegria, que é tanto maior quanto a sua espetacularidade. Os animais das grutas têm a particularidade de exibirem uma série de adaptações à vida no meio subterrâneo, que incluem a estilização dos seus corpos, alargamento das antenas e patas, perda dos olhos e da cor. Estas características impressionam do ponto de vista estético, mas estes animais são muito interessantes do ponto de vista biológico. Muitos deles são relíquias biológicas, ou seja, animais sem parentes próximos à superfície que se extinguiram enquanto o meio subterrâneo proporcionou refúgio aos que a ele se adaptaram. Do ponto de vista biogeográfico estes animais ajudam-nos a compreender a história evolutiva de grupos de animais. Por isso, algumas das descobertas que temos feitos são absolutamente fascinantes, uma vez que se tratam de animais que não esperaríamos encontrar no nosso continente.

Qual é a importância do conhecimento sobre a biodiversidade cavernícola?

A biodiversidade cavernícola tem padrões elevados de endemismo, ou seja, a maior parte destas espécies vivem numa zona muito restrita que normalmente não excede umas quantas cavidades numa área geográfica muito reduzida. Os nossos animais cavernícolas só existem em Portugal e em nenhum outro local do planeta. Neste sentido, a biodiversidade cavernícola vale por si só como património natural ambiental e o seu conhecimento valoriza o nosso património nacional. Muitos destes animais são relíquias biológicas ajudando-nos a compreender melhor a história da vida na Terra. Por outro lado, de um ponto de vista mais aplicado, estes animais têm um papel importantíssimo na purificação e manutenção da qualidade da água subterrânea, que é a maior fonte de água doce disponível potável e que enfrenta graves problemas de contaminação a nível mundial.

Das muitas expedições que tem realizado, qual recorda com mais intensidade? Porquê?

Uma a uma cavidade na Cantábria, onde fomos surpreendidos por uma inundação e tudo se complicou muito. Estivemos muitas horas dentro de água gelada e tivemos muitas dificuldades de progressão. A atividade que deveria ter durado 6 horas durou 24 e foi muito duro resistir ao frio da água que rondava os 5ºC. Também a expedição à cavidade mais profunda do planeta a Krubera-Vorónia, que está localizada numa paisagem deslumbrante no Cáucaso ocidental e pela emoção da descoberta do animal terrestre mais profundo de sempre.

Que animais imagina que ainda possam estar à espera de serem descobertos nas profundezas da terra?

Há ainda uma série de invertebrados que habitam o meio subterrâneo e que são desconhecidos a nível mundial. Existem várias áreas do planeta com potencial para grandes descobertas e que são ainda totalmente desconhecidas, como as situadas nas regiões tropicais.

A que pergunta gostaria um dia de obter resposta?

Naturalmente, como bióloga há uma questão que nos intriga a todos: qual a origem da vida?


O vídeo da apresentação da entrevista pode ser visto aqui.

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