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Entrevistas
Sarah Reis, estudante de Mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde, da Universidade de Aveiro
Missão na Amazónia por um mundo melhor
Sarah Reis em trabalho humanitário no Brasil
Aterrou em Lisboa na última semana. Do Brasil regressou uma Sarah diferente depois de umas férias inteiras no paraíso descoberto há mais de 500 anos por Pedro Álvares Cabral. Mas não foram propriamente as praias tropicais e a bossa nova os responsáveis pelo coração maior que a estudante de Mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde, da Universidade de Aveiro (UA), teve de acomodar na mala na hora do voo para Portugal. A missão de voluntariado que abraçou no Centro Juvenil Salesiano de Manicoré, uma instituição localizada no centro da floresta amazónica, foi mesmo a culpada pela Sarah Reis trazer de umas férias recordações que, na sua essência, são impossíveis de partilhar em álbuns fotográficos. «Hoje dou mais valor àquilo que tenho, às pessoas que amo e, sobretudo, à pessoa que sou», retrata a jovem voluntária.

Em 2011 a Sarah recebeu um email provocatório. Apesar da palavra ‘voluntariado’ há muito fazer parte da sua prática diária, nunca o altruísmo a tinha levado para fora do país. O email incentivou-a. A missiva dava conta da abertura de formações para voluntariado missionário organizadas pelo Secretariado Diocesano de Animação Missionária, que tem sede no Centro Universitário Fé e Cultura, instalado junto da UA. A Sarah disse que sim à provocação e deu o primeiro passo para um verão que, certamente, vai recordar para o resto da vida.

«Eu e outros jovens fizemos formação durante um ano onde foram abordadas várias temáticas como a Igreja, a inculturação, a fotografia, problemas que pudessem surgir no terreno e muito mais», relembra Sarah. Ao longo dos meses que antecederam a partida, a futura psicóloga também foi ouvindo «testemunhos de pessoas que já tinham partido em missão, o que possibilitou a partilha de experiências e de medos comuns».

No fim do ano a organização do Secretariado dividiu os jovens missionários por grupos e por países. À Sarah foi-lhe apontado o Brasil, mais concretamente a pequena cidade de Manicoré, plantada em 1637, no centro da Floresta da Amazónia, pelos exploradores portugueses. E «foi assim que se deu início à grande aventura». 

Só estar já é uma grande ajuda

Deu um pontapé no medo das doenças tropicais, deu a volta aos receios familiares e avançou para o Brasil sem olhar para trás. «Sempre lutei por um mundo mais justo e menos egoísta e é isso que me faz avançar», disse de si para si à entrada para o avião.

Esteve um mês inserida no trabalho diário desenvolvido pelo Centro Juvenil Salesiano de Manicoré, uma instituição que, localmente, luta por tirar crianças e jovens da pobreza. A promoção da escolaridade, da música, do teatro, da dança, do desporto são algumas das armas que o Centro utiliza para retirar da miséria económica e humana centenas de crianças afetadas pelas duras condições de vida daquele ponto do planeta.

«Estava permanentemente com os jovens, quer a brincar, quer a ensinar-lhes um pouco do que sei», recorda a Sarah que não se esquece de acrescentar: «e também estava permanentemente a aprender o muito que eles têm para nos ensinar».

Acompanhar doentes, prestar ajuda numa escola para crianças com deficiência, visitar a prisão, dar palestras sobre educação, saúde e voluntariado… A Sarah fez um pouco de tudo e mais ainda. «Como estou a fazer formação superior em Psicologia, era solicitada também para falar pessoalmente com pessoas que pediam ajuda e também com jovens que atravessavam, em especial, problemas familiares», recorda a jovem missionária. 

Tão pouco que é tanto

Como lição, entre as muitas que neste verão ganhou para a vida, a Sarah trouxe uma enorme verdade para casa: «Aprendi com esta experiência que tínhamos de estar ali, não tanto para fazer coisas, mas para ouvir e falar com as crianças, brincar com elas, sorrir-lhes, dar-lhes abraços e beijos… Portanto, acima de tudo estive com os jovens».

Poucos dias depois de ter regressado a Aveiro, e já a preparar-se para o início de mais um ano letivo na UA, as imagens que trouxe no coração são um conforto para as saudades que se abateram sobre ela. Folheia o álbum e descreve as imagens: «os sorrisos das crianças, os abraços aconchegantes e os “obrigados” que ouvi tantas vezes quando era eu que tinha muito mais para agradecer...».

Recorda-se especialmente da Maria, uma menina de 14 anos que, na véspera do regresso a Portugal, foi ter com a Sarah, abraçou-a e disse-lhe: «Sinto que Deus me abençoou por te ter posto no meu caminho. Nunca vou esquecer você. A gente se verá de novo». Desse momento, a Sarah registou no seu diário: «o pouco que podemos fazer pode ser muito para muita gente e por isso todos os momentos valeram a pena».



*Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico

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